O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, reforçou o caráter político atribuído pelo governo Lula à decisão do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) de aplicar novas tarifas a produtos brasileiros. Em declaração nas redes sociais, Rubio acusa Lula pelas taxas e afasta o carácter técnico que o USTR buscou aplicar à medida.
A posição do secretário diverge do discurso mais técnico adotado pelo USTR ao anunciar a aplicação das sobretaxas.
As novas alíquotas entram em vigor no dia 22 de julho e são resultados de uma investigação do USTR que acusa o Brasil de adotar práticas desleais de comércio que oneram os Estados Unidos. Embora embasadas em critérios técnicos da Seção 301 da Lei de Comércio do país, o governo brasileiro acredita que há motivação política nas tarifas adotadas contra o Brasil.
A percepção, avalia o Palácio do Planalto, foi endossada por manifestação de Marco Rubio nas redes sociais após o anúncio das taxas, que responsabilizou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nominalmente e o acusou de “não negociar de boa fé” com os EUA.
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do Metrópoles
“Lula colocou seu próprio ego à frente de fazer um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço por isso”, escreveu o secretário de Estado.
A declaração, conforme dito acima, vai contra o viés técnico apresentado pelo USTR para aplicar as taxas, e endossa o discurso do governo Lula de que as taxas têm interesses políticos e com objetivo de pressionar as eleições do Brasil, que acontecem em outubro.
Rubio é responsável por conduzir a política externa da gestão Donald Trump e é apontado como a ponte da família Bolsonaro com a Casa Branca.
Tarifas contra o Brasil
- Em cinco oportunidades, desde o início da nova gestão Trump, os Estados Unidos anunciou tarifas contra o Brasil.
- No chamado Dia da Liberação, Donald Trump anunciou taxas recíprocas de 10% contra o Brasil.
- No dia 9 de julho de 2025, Trump anunciou mais 40% de taxas a produtos brasileiros — que se somaram aos 10% já aplicados, somando 50% de alíquota. A taxa foi justificada pela “caça às bruxas” contra Bolsonaro.
- Em fevereiro de 2026, após a Suprema Corte derrubar o tarifaço de 50%, Trump anunciou uma alíquota global de 10% para todos os países, que ainda estão em vigor.
- Em junho deste ano, o USTR concluiu uma investigação comercial contra o Brasil e sugeriu 25% de taxas ao país, que entram em vigor no dia 22 de julho.
- O Brasil espera ainda a conclusão de uma nova investigação contra o país sobre trabalho forçado que pode resultar em uma nova taxa de 12,5%.
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Trump cumpriu ameaça e aplicou novo tarifaço
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Tarifaço comercial dos EUA atingiu fortemente o Brasil
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Brasil voltou a entrar no radar de tarifas dos EUA
Iskandar Zulkarnaen/Getty Images
Motivação política
A avaliação de membros do governo Lula é que a declaração de Marco Rubio chancela o viés político dado pelos Estados Unidos na investigação comercial contra o Brasil. Nos bastidores do Palácio do Planalto, o tarifaço já vinha sendo atribuído a interesses políticos da Casa Branca pela falta de avanço nas negociações.
Outro fator utilizado para corroborar tal percepção é baseado nas explicações utilizadas pelo USTR para justificar as taxas – o Governo Federal alega que nenhuma das explicações apresentadas pelos negociadores brasileiros foram levadas em consideração pelo órgão norte-americano durante o período de mais de um ano de negociação.
Nesta quinta-feira (16/7) ministros do presidente Lula externaram tal percepção em declarações públicas para comentar sobre o tarifaço. Um deles foi o chanceler Mauro Vieira, que afirmou ver “expressa motivação política” nas decisões dos EUA desde o ano passado, quando a Casa Branca anunciou tarifaço de 50% contra o Brasil.
“Após a carta do presidente Trump ao presidente Lula, de 9 julho de 2025, as tarifas foram elevadas a 50%, por expressa motivação política, em tentativa de interferência no Poder Judiciário brasileiro. E foi justamente nessa carta em que o presidente Trump ameaçou o Brasil com tarifas de 50%, caso o processo contra o ex-presidente da República não fosse imediatamente interrompido”, declarou Vieira em pronunciamento no Palácio Itamaraty, em Brasília.
O Executivo brasileiro avalia ainda que a medida tem motivação política e pode representar uma tentativa de ingerência no cenário interno, às vésperas da eleição presidencial. Na leitura do Planalto, a iniciativa também reforçaria interesses de natureza ideológica na condução da política externa norte-americana.
Sob a condução de Marco Rubio, o Departamento de Estado tem direcionado atenção para a América do Sul. Nos últimos meses, o político se aproximou de governos sul-americanos alinhados ideologicamente a Donald Trump enquanto fez críticas a políticos progressistas – com é o caso do presidente Lula.
No Brasil, Rubio estabeleceu ainda uma linha direta com a família Bolsonaro e com figuras da oposição que vivem nos Estados Unidos, como o jornalista Paulo Figueiredo.
Divergência do USTR
A declaração do chanceler norte-americano diverge de recentes manifestações de Jamieson Greer, que dirige o USTR e conduziu as investigações contra o Brasil. Em entrevista nessa quarta-feira (15/7), horas antes do anúncio que definiu a implementação das taxas contra o Brasil, Greer afirmou ter tido “intensas negociações” com o governo brasileiro para tratar sobre as tarifas.
“Eu tive uma videochamada com minha contraparte no Brasil ontem a noite, foi muito cordial… Nós tivemos intensas negociações com eles, mas ainda acho que há muitas lacunas entre a gente, então provavelmente temos que adotar algumas ações, mas acho que continuaremos conversando”, disse.
O governo brasileiro também busca refutar as declarações de Marco Rubio ao afirmar que, dentro do último ano, foram realizadas mais de 30 reuniões com autoridades americanas para negociar as tarifas. Os encontros, apurou o Metrópoles, ocorreram em diversos formatos, em níveis técnicos e ministeriais, além do encontro entre Lula e o presidente Donald Trump.
Além dos encontros de caráter técnico, que tinham o objetivo de discutir os detalhes da investigação aberta pelos Estados Unidos, dados obtidos pela reportagem contabilizam 11 reuniões ministeriais com Jamieson Greer, que chefia o USTR, e com o próprio Marco Rubio.
Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Carinne Souza.


