Quase 10 anos se passaram desde o impeachment e a ferida ainda segue aberta na minha memória e na de muitas outras brasileiras. Eu morava na Vila Planalto, uma pequena comunidade localizada entre o Palácio do Planalto e o Palácio da Alvorada e fundada para alojar os trabalhadores e trabalhadoras da construção de Brasília. No dia 31 de agosto de 2016, lembro-me que acordei cedo e fui para o portão de casa para esperar a sua comitiva passar. Logo quando vi os carros se aproximando, acenei, como num gesto de despedida. A senhora obviamente não deve ter visto, eram muitos metros de distância. Mas aquele meu gesto foi o mais próximo de um abraço que eu poderia oferecer.
Naquele dia, o Congresso Nacional do Brasil votou pela deposição de seu mandato e encerrou ali o governo da primeira presidenta eleita da República Federativa do Brasil, reeleita com 54 milhões de votos, incluindo o meu. Eu acreditava no seu segundo mandato, tanto que até participei do vídeo de campanha, e botei lá a minha cara no jingle Coração Valente. Lembro-me como se fosse hoje: “Mulher de mãos limpas (tô com você). Mulher de mãos livres (tô com você). Mulher de mãos firmes, vamos viver uma nova esperança. Com muito mais futuro e muito mais mudança”.
Sua eleição e reeleição deveriam ter sido um marco histórico de avanço para as mulheres em todo o mundo, mas sua trajetória foi interrompida e o que se seguiu foi um verdadeiro tribunal público de ridicularização e violência de gênero. Recordo bem, desde o início do seu governo, cada tropeço de fala se tornava meme, cada expressão sua era convertida em motivo de chacota nacional, com aval da opinião pública, da imprensa nacional e internacional. Não perdoaram nem a sua história pessoal.
Tentaram transformar sua firmeza em grosseria, quando a história mostra que ser torturada deixa marcas para a vida toda. Atribuíram à ausência de um marido, como se uma mulher no poder só pudesse ser aceitável quando suavizada por uma figura masculina ao lado. Fizeram piadas misóginas sobre sua aparência, seu cabelo, sua roupa, sua voz, cobranças nunca antes feitas a presidentes homens. Não havia espaço para compreender o contexto, nem mesmo o erro, bastava transformar a presidenta em piada nacional. Não zombavam do governo, do seu partido, zombavam da mulher. Era sua voz, seu corpo e sua firmeza que se tornavam alvo. Inclusive, de outras figuras masculinas do próprio PT.
As redes sociais do Vale do Silício, que, na época, estavam em plena ascensão — e o Brasil já era um dos principais mercados internacionais das big tech —, amplificaram esse massacre. Sua imagem foi distorcida, repetida em montagens, em memes aparentemente engraçados, reproduzidos em grupos de WhatsApp da família brasileira. Sua filha e sua mãe também foram arrastadas para a exposição pública e a violência de gênero, numa invasão cruel da intimidade. Foi triste presenciar e viver aquele momento.
Durante o processo de impeachment, essa violência extrapolou os limites da crueldade, da tal polarização política. O plenário da Câmara se transformou num espetáculo, transmitido ao vivo, em que homens eleitos para representar o povo gritavam, batiam no peito, dedicavam seus votos a esposas, filhas e mães, ao mesmo tempo em que lhes arrancavam o mandato.
O recado era claro. A nós, mulheres, é reservado apenas o lugar de subserviência, nunca como protagonistas da política, nem mesmo das nossas próprias vidas. Quando o então deputado Jair Bolsonaro dedicou seu voto a Ustra, o torturador da jovem Dilma, durante a ditadura militar, eu e Severine Macedo choramos desacreditadas de que alguém poderia fazer aquilo. Pois Bolsonaro o fez, dentro do Parlamento, símbolo da democracia brasileira.
Ao cravar o conceito de pedagogia da crueldade, a antropóloga Rita Segato formula a ideia de que a violência de gênero não pode ser lida como um fenômeno isolado, mas como parte de um sistema pedagógico que organiza a sociedade, uma pedagogia que ensina a obedecer, a se submeter e a punir corpos femininos para manter a ordem patriarcal.
Pedagogia da crueldade
A pedagogia da crueldade se materializou no espetáculo de sua humilhação pública. As frases misóginas, os memes, o voto televisionado pela sua destituição, tudo isso não foi só violência contra si, foi uma aula cruel para todas nós e a lição que ficou é de que mulheres no poder serão (e são) punidas exemplarmente.
Por outro lado, essa violência se dá com o aval de muitas outras mulheres, que, numa manobra de sustentação do patriarcado, são colocadas como instrumento, muitas vezes, defendendo a violência, que cedo ou tarde vão voltar-se contra elas mesmas. Vemos cotidianamente mulheres exercendo a crueldade sobre outras mulheres em diversos âmbitos da vida, mas na política se perpetua de forma amplificada.
No seu último discurso, ao entregar o governo, como mandava o rito constitucional, Dilma afirmou que estávamos diante de um golpe: “Mas o golpe não foi cometido apenas contra mim e contra o meu partido. Isto foi apenas o começo. O golpe vai atingir indistintamente qualquer organização política progressista e democrática”. Logo, o seu discurso foi amplamente questionado, quando a acusaram de se opor a uma decisão democrática. Quem diria, Dilma, que aquelas palavras eram na verdade uma profecia.
Em 12 de setembro de 2025, o mesmo Bolsonaro, agora ex-presidente, que desejou a sua morte, que a atacou inúmeras vezes, foi condenado por diversos crimes, dentre eles, tentativa de golpe de Estado. Eleito na sequência do golpe, os quatro anos de governo bolsonarista são uma ferida na história da democracia brasileira que deixará marcas para sempre.
Dilma, depois de guardar por quase uma década toda a indignação que senti por não poder te defender, vê-la viva, assumindo a presidência do banco dos BRICS e retornando ao cenário, desta vez internacional, tendo vencido o câncer, a misoginia, a tortura, só me deu mais coragem de seguir no meu trabalho cotidiano de contribuir na luta pela emancipação, a dignidade e a vida de outras mulheres.
Que a sua resistência não seja apenas memória, mas inspiração para que mais mulheres ocupem a política.
Obrigada por não ter desistido!
(Artigo transcrito do PÚBLICO-Brasil)






