A cena mais famosa da teledramaturgia brasileira, a morte de Odete Roitman (Beatriz Segall) em “Vale Tudo” (1988), carrega até hoje uma aura de mistério e lenda. Durante anos se repetiu que a Globo teria gravado finais alternativos para despistar a imprensa e até o próprio elenco. Mas a verdade é que nada disso aconteceu.
A revelação vem da biografia de Gilberto Braga: os autores chegaram a escrever cenas alternativas com outros assassinos, mas nenhuma delas saiu do papel. Ou seja, Leila (Cassia Kiss) foi a única culpada gravada de fato.
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Depois do final, a editora Globo publicou um livro sobre a novela com essas versões alternativas. Lá estavam três outros possíveis desfechos: Marco Aurélio (Reginaldo Faria), César (Carlos Alberto Riccelli) e Maria de Fátima (Gloria Pires) apareciam como suspeitos. Mas tudo só como registro, nunca em cena.
O clima de sigilo era tamanho que, em 20 de dezembro de 1988, quatro dias antes do último capítulo ir ao ar, o elenco recebeu a versão impressa do roteiro faltando páginas inteiras — justamente as que revelavam o mistério. No papel entregue, Gilberto Braga e os coautores pediram desculpas.
“Estamos morrendo de vergonha de mandar para vocês este último capítulo desfalcado das páginas de dois a nove, numa tentativa de manter em segredo o assassino de Odete Roitman. Mas durante a novela tivemos o dissabor de ver todas as nossas tramas reveladas pela imprensa”, dizia o recado.
E o segredo foi guardado até o limite do possível. A cena da revelação, em que Leila aparece como assassina, só foi gravada no próprio dia da exibição do último capítulo, 6 de janeiro de 1989. A gravação terminou por volta das 14h, poucas horas antes de ir ao ar.
Na biografia de Gilberto Braga, o diretor Dennis Carvalho contou que três dias antes ainda estava no escuro: “Liguei para o Gilberto. ‘Quem é o assassino? Você já mudou de novo?’”. O autor respondeu com ironia: “Dennis, quem é a mulher que tem a cara de mais louca do elenco?”. A resposta veio rápida: “Cássia Kis”. Braga confirmou: “Acertou!”.
A atriz vibrou ao saber que sua personagem seria a responsável pela cena histórica. E Aguinaldo Silva, também autor da novela, deu a dica final: “Não dá um tiro só, não. Descarrega tudo que tem no revólver”.
O público, por sua vez, tinha suas apostas. Pesquisa DataFolha feita em São Paulo apontava Maria de Fátima como a principal suspeita (25%), seguida de César (22%) e Marco Aurélio (10%). O mordomo Eugênio também aparecia bem cotado (10%). Já na lista de quem “deveria morrer”, a vilã Maria de Fátima liderava com folga (21%).
No fim, não teve gravação dupla, nem truque de edição. O mistério foi guardado a sete chaves até o último minuto. E talvez por isso a pergunta “Quem matou Odete Roitman?” continue sendo o maior suspense já produzido pela TV brasileira.






