9 de julho de 2026

Investigação revela venda ilegal de Mounjaro em farmácias do DF

Investigação revela venda ilegal de Mounjaro em farmácias do DF
Investigação revela venda ilegal de Mounjaro em farmácias do DF

A venda ilegal de Mounjaro, o medicamento que se tornou símbolo do emagrecimento rápido, rompeu as fronteiras do comércio clandestino. Investigação exclusiva da coluna revela que farmácias conhecidas do Distrito Federal estão comercializando o remédio sem exigir receita médica e, em casos ainda mais graves, oferecem a aplicação da injeção no balcão, feita por funcionários sem qualquer formação técnica.

Os flagrantes, obtidos com câmera escondida em drogarias do Plano Piloto, de Vicente Pires e de Taguatinga, mostram uma rede de irregularidades que desafia a legislação sanitária e expõe consumidores a riscos graves.

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O que deveria ser um ambiente de segurança e controle transformou-se em um mercado paralelo de medicamentos controlados, alimentado pela alta procura e pela promessa de resultados rápidos.

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“A gente consegue abrir uma exceção”

O processo da compra ilegal é simples. Ao ter o Mounjaro solicitado, o atendente confirma a disponibilidade e, ao ser questionado sobre a exigência de receita, responde sem hesitar: “Então, assim… necessário é. Mas a gente consegue abrir uma exceção”.

As canetas, que custam cerca de R$ 1.800, podem ser encomendadas e entregues diretamente na casa do comprador. Para dar aparência de legalidade à transação, os vendedores afirmam ter “um fornecedor que providencia a receita”, mas o documento nunca é apresentado ao cliente. A operação, travestida de conveniência, na verdade dribla a fiscalização e burla o controle da Anvisa.

Quando a reportagem pergunta sobre nota fiscal, a resposta é direta: “A única coisa que a gente não fornece é a nota fiscal. Porque, como vocês não têm receita, não tem como comprovar que a receita é de vocês. Aí, se Deus o livre chega a Justiça, fica complicado pra gente dar baixa na nota”.

O pagamento é feito exclusivamente via Pix, o que torna o rastreamento quase impossível. A ausência de recibos e registros forma um ciclo de impunidade que beneficia as drogarias e deixa o consumidor completamente desprotegido.

7 imagensO médicamento é vendido sem receita em farmácias localizadas no centro da capital federalO medicamento é entregue em qualquer lugar do DFA coluna constatou que a venda irregular ocorre no Plano Piloto, Taguatinga e Vicente PiresNa maioria das farmácias visitadas pela reportagem, as canetas chegam sob encomendaFechar modal.1 de 7

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O médicamento é vendido sem receita em farmácias localizadas no centro da capital federal

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O medicamento é entregue em qualquer lugar do DF

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A coluna constatou que a venda irregular ocorre no Plano Piloto, Taguatinga e Vicente Pires

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Na maioria das farmácias visitadas pela reportagem, as canetas chegam sob encomenda

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Aplicação no balcão

O ponto mais alarmante da investigação é a oferta de aplicação do medicamento dentro das próprias farmácias. Em diferentes estabelecimentos, funcionários não apenas explicam como usar a caneta, mas se oferecem para aplicar a injeção na hora, sem qualquer preparo técnico ou estrutura adequada.

“Caso você queira, eu posso aplicar pra você, não tem problema”, oferece uma atendente, antes de admitir: “Eu não sou licenciada pra aplicar, entendeu? Mas eu posso aplicar porque realmente é indolor”.

Em outra farmácia, o discurso se repete com a mesma naturalidade: “Aqui a gente aplica, é facinho. Não tem segredo. Você roda o clique, aplica e pronto. Acabou”.

A banalização da aplicação de um medicamento injetável, sem higiene adequada, sem registro e sem supervisão médica, viola frontalmente as normas de biossegurança e o código sanitário.

Violação direta das regras da Anvisa

As condutas flagradas contrariam a Instrução Normativa (IN) nº 360/2025, em vigor desde 23 de junho de 2025.

A norma estabelece que medicamentos à base de tirzepatida, como o Mounjaro, só podem ser vendidos com retenção da receita médica em duas vias, justamente para evitar o uso indevido e o desvio de finalidade estética.

“Brincar com o metabolismo”

O nutrólogo Sandro Ferraz alerta que o uso do Mounjaro sem acompanhamento médico pode ter consequências devastadoras.

“Usar Mounjaro sem orientação é brincar com o próprio metabolismo. O medicamento não é cosmético nem fórmula milagrosa. Seu uso incorreto pode causar dependência psicológica, colapsar o metabolismo e gerar danos irreversíveis à saúde.”

Entre os riscos mais graves estão hipoglicemia severa, que pode levar ao coma, pancreatite aguda e desidratação intensa provocada por náuseas e vômitos persistentes.

Em casos extremos, pacientes que fazem uso da substância sem prescrição podem sofrer falência hepática ou renal, além de efeitos colaterais graves ligados à automedicação e à má conservação do produto.

O que diz a fabricante

A farmacêutica Eli Lilly, responsável pelo Mounjaro, reiterou que não comercializa o medicamento fora de farmácias autorizadas e condenou qualquer forma de revenda sem prescrição.

“Postagens, vídeos e anúncios que oferecem tirzepatida sem receita são ilegais e expõem as pessoas a riscos significativos. A Anvisa determinou que a compra de toda e qualquer incretina, incluindo Mounjaro, exige prescrição médica retida pela farmácia no ato da compra”, destacou a empresa em nota.

A Lilly reforçou ainda que não fornece o princípio ativo a farmácias de manipulação, clínicas ou distribuidores independentes.

O outro lado
Por meio de nota, a DrogaFuji informou que repudia veementemente qualquer prática que contrarie as normas legais e éticas do comércio farmacêutico.

“Ao tomar conhecimento da denúncia sobre a suposta venda irregular do medicamento Mounjaro, a empresa iniciou imediatamente uma apuração interna para esclarecer os fatos.”

A coluna não conseguiu contato com a Droga Maia, Farmácia Comunitária do Trabalhador e Drogaria Divino. O espaço segue aberto para manifestação.