Ao se despedir do público nesta sexta-feira (9), “Dona de Mim” deixa uma sensação curiosa: não foi um desastre, passou longe de ser uma novela malfeita, mas também não conseguiu repetir o fenômeno popular de outros trabalhos de sua autora. E isso chama atenção justamente porque Rosane Svartman construiu, nos últimos anos, uma trajetória marcada por conexão direta com o público, emoção acessível e personagens que rapidamente viravam assunto.
Em títulos como “Totalmente Demais”, “Bom Sucesso” (estas duas escritas em parceria com Paulo Halm) e “Vai na Fé”, havia um equilíbrio muito claro entre conflito, leveza e afeto. Em “Dona de Mim”, esse equilíbrio nunca se estabeleceu por completo.
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Desde cedo, a trama optou por um tom mais duro. O excesso de conflitos, mágoas prolongadas e disputas familiares criou uma narrativa densa, que exigia muito do espectador sem oferecer o mesmo retorno emocional. A sensação recorrente era a de uma novela sempre em estado de tensão, com pouco espaço para humor, identificação ou alívio.
Essa percepção se agravou com a escolha de acumular vilões simultaneamente. Jaques (Marcello Novaes), Ricardo (Marcos Pasquim), Tânia (Aline Borges), Vanderson (Armando Babaioff), Ellen (Camila Pitanga) e Hudson (Emilio Dantas) disputavam espaço em uma narrativa já carregada. O resultado foi uma trama sufocante, em que os conflitos se sobrepunham e o público tinha dificuldade até de escolher em quem focar sua atenção.
Algumas escolhas de roteiro também pesaram negativamente. A morte de Abel (Tony Ramos) foi amplamente rejeitada. Abel funcionava como eixo emocional e afetivo da história, e sua saída não gerou uma virada potente, mas um vazio difícil de preencher. Em vez de impulsionar a narrativa, a decisão contribuiu para um afastamento emocional do público.
Outro ponto sensível foi a condução da protagonista. Leona, vivida por Clara Moneke, tinha tudo para se tornar uma heroína popular, mas não conquistou o público como se imaginava. Em diversos momentos, o amor da personagem por Sofia (Elis Cabral) deixou de soar como afeto e passou a flertar com a obsessão, causando estranhamento.
Além disso, a novela nunca conseguiu organizar claramente o eixo romântico de Leona. A condução de seu envolvimento com Samuel (Juan Paiva), Davi (Rafael Vitti) e Marlon (Humberto Morais) foi confusa, sem uma progressão emocional clara. Faltou ao público entender para onde aquela história caminhava — e, principalmente, por quem deveria torcer.
Essa indefinição comprometeu um dos motores mais tradicionais da teledramaturgia: o romance como fio condutor de engajamento.
Apesar dos problemas, “Dona de Mim” teve méritos importantes. Giovanna Lancellotti foi um dos grandes destaques. Sua Kami transitou com segurança entre drama e comédia, mostrando maturidade, carisma e presença de cena. A atriz deixou claro que está pronta para assumir uma protagonista em breve. L7nnon foi outro acerto da trama: Ryan ganhou uma história bem construída e rapidamente virou o coadjuvante preferido do público
Elis Cabral foi um verdadeiro achado. A menina demonstrou talento, naturalidade e força emocional, revelando um futuro promissor na dramaturgia. E é sempre um ganho ver Cláudia Abreu em cena. Como Filipa, ela entregou uma atuação sólida e elegante, mesmo diante das controvérsias que cercaram a personagem.
“Dona de Mim” não foi um fracasso, mas tampouco virou o fenômeno que se esperava. Faltou leveza, clareza narrativa e, sobretudo, empatia — elemento que sempre foi uma das maiores forças de Rosane Svartman. A novela termina como uma obra correta, bem produzida e bem interpretada, mas que passou sem deixar a marca cultural de outros sucessos da autora.
Mais do que um erro definitivo, “Dona de Mim” soa como um ajuste de rota necessário. Um lembrete de que, na TV aberta, o público não busca apenas conflitos fortes, mas histórias que acolham, emocionem e convidem à torcida diária.






