20 janeiro 2026

Opinião: “BBB 26” erra ao liberar botão e transformar denúncia grave em simples desistência

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A direção do “BBB 26” cometeu um erro gravíssimo ao permitir que Pedro deixasse o programa apertando o botão de desistência após a denúncia de importunação sexual envolvendo Jordana. Não se trata de um detalhe operacional, mas de uma falha simbólica e institucional de enormes proporções.

Ao manter o botão verde — quando ele nem sequer deveria estar ativo naquele momento —, o programa abriu uma porta de fuga para alguém que acabara de protagonizar uma situação gravíssima. Em vez de ser imediatamente afastado sob investigação e responsabilização, Pedro saiu como quem abandona uma prova, não como alguém no centro de uma acusação criminal.

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É preciso dizer com clareza: não foi apenas uma desistência de reality show. O que estava em jogo era um episódio que, fora da casa, configura crime. Importunação sexual não é “excesso”, não é “mal-entendido”, não é “passar do ponto”. É crime previsto em lei. E o programa falhou ao não tratar o caso com a gravidade que ele exige.

O “Big Brother Brasil” não é um programa qualquer. Ele entra diariamente em milhões de lares, forma opinião, influencia comportamento e, queira ou não, educa pelo exemplo. Diante de uma situação como essa, a Globo tinha a obrigação de ir além da condução interna do jogo. Era o momento de usar sua força de comunicação para informar, esclarecer e educar.

Faltou uma mensagem direta, pedagógica e inequívoca: um homem não pode segurar uma mulher pelo pescoço para forçar um beijo. Isso é violência. Isso é crime. Isso não é aceitável em nenhuma circunstância.

Com a expertise de 25 edições — muitas delas marcadas por episódios problemáticos —, não é possível alegar surpresa. A produção do “BBB” já lidou com agressões, expulsões, crises de imagem e situações-limite suficientes para saber exatamente como agir diante de um caso grave. Falhou não por inexperiência, mas por decisão.

O problema ainda se agravou na segunda-feira (19). Com tempo para refletir, apurar e estruturar a abordagem, a emissora teve a chance de se posicionar com firmeza. Poderia — e deveria — ter usado o programa ao vivo, com Tadeu Schmidt, para explicar didaticamente ao público por que aquela conduta ultrapassa qualquer limite de convivência e entra no campo criminal.

Não se trata de linchamento público, mas de responsabilidade social. Ao optar pelo silêncio e pela omissão, a Globo desperdiçou uma oportunidade histórica de transformar um episódio lamentável em um momento educativo. Em vez disso, deixou a impressão de que o caso foi tratado como um constrangimento de jogo, e não como uma violação grave.

O formato do BBB amplifica comportamentos. Quando a resposta institucional é fraca, a mensagem que fica é perigosa: a de que certos atos podem ser relativizados se acontecerem dentro de um reality show. Não podem.

A televisão brasileira já avançou muito em debates sobre racismo, homofobia e violência contra a mulher. Justamente por isso, surpreende que, num momento tão sensível, o maior programa da emissora tenha recuado.

O erro não foi apenas manter o botão verde. O erro foi permitir que a narrativa fosse de desistência, quando o que se impunha era a de responsabilização. Em casos assim, o entretenimento precisa ceder lugar à cidadania. Porque o impacto de um silêncio, num programa dessa dimensão, ecoa muito além dos muros da casa.

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