Esqueça as explosões ensurdecedoras ou a destruição visualmente espetacularizada típica dos filmes de guerra, já que aqui você ficará prestes a perder o fôlego com a angústia de ligações de áudio. “A Voz de Hind Rajab”, que chegará aos cinemas do Brasil em 29 de janeiro, acaba sendo extremamente perturbador e promete causar muitas reflexões.
A diretora tunisiana Kaouther Ben Hania, que foi indicada ao Oscar por “O Homem que Vendeu Sua Pele”, entrega aqui seu trabalho mais difícil: uma obra que nos nega o conforto de “apenas assistir” e nos obriga a ouvir. O filme reconstrói as horas finais de Hind Rajab, a menina palestina de seis anos que, em janeiro de 2024, ficou presa em um carro em Gaza, cercada pelos corpos de seus familiares, ligando desesperadamente para o Crescente Vermelho em busca de ajuda.
Veja as fotosAbrir em tela cheia Cena do filme “A Voz de Hind Rajab”Crédito: Divulgação Cena do filme “A Voz de Hind Rajab”Crédito: Divulgação Cena do filme “A Voz de Hind Rajab”Crédito: Divulgação Hind RajabCrédito: Reprodução Instagram
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A produção, que foi recebida com uma ovação recorde de 23 minutos no Festival de Veneza, opera em uma tensão claustrofóbica. Em muitos momentos dos seus 89 minutos de duração, o longa faz você se sentir como se estivesse sendo uma das partes envolvidas naquela ligação, por conta do desespero.
Uma das grandes “armas” do filme é o uso das gravações reais dos pedidos de socorro, contrastando com as intensas atuações do elenco. Ben Hania entendeu que nenhuma atuação, por mais brilhante que fosse, conseguiria replicar a oscilação entre esperança e terror na voz de uma criança encarando a morte.
Estratégia da direção prende o público
Cenas externas dos embates fazem falta aqui, mas logo o público consegue entender que elas não seriam necessárias para entregar o objetivo principal da história. O telespectador é levado a ficar trancado na sala de operações dos socorristas, que acaba sendo sufocante, com seus mapas, telas e pessoas que sentem a guerra através de uma linha telefônica.
Inclusive, a montagem é bem cirúrgica, com momentos cruciais em que a diretora remove as imagens e deixa apenas as ondas sonoras na tela. Com essa estratégia, o público precisa focar na respiração intensa da criança e nos sons da batalha ao fundo, que são atormentadores.
O aparato administrativo em “A Voz de Hind Rajab” acaba entrando em cena como um dos maiores problemas por trás de toda essa história. As burocracias para colocar um resgate urgente em prática também tiram o fôlego, por conta das intensas negociações e protocolos com autorizações que demoram horas no meio dos ataques em Gaza.
Socorristas lutam para navegar em meio a um verdadeiro labirinto, enquanto Hind Rajab demonstra seu desespero conforme o dia vai passando em meio à batalha. Esse, de fato, não é um filme fácil de digerir, até porque ele não é entretenimento: é um documento forense e um ato de memória.
A trama é encerrada deixando o público com um verdadeiro nó na garganta, após uma obra que serve como testemunho político urgente, provando o poder do cinema.
Nota: 9/10






