O futebol brasileiro tende a ser tratado como exportador. Ou seja, normalmente, vende seus maiores nomes para mercados mais ricos. Os mais cobiçados, como Neymar, Endrick ou Estêvão, costumam ir direto para a Europa ainda jovens. Talentos menos badalados vão para mercados periféricos, mas ainda endinheirados, como Oriente Médio, EUA ou Ásia.
Do outro lado da moeda, destaques de centros com menor peso econômico e midiático na pirâmide do esporte global costumam desembarcar no Brasil. É o caso principalmente de vizinhos sul-americanos: historicamente, jogadores colombianos, uruguaios, paraguaios e, em maior escala, argentinos.
Ao mesmo tempo, é possível dizer que clubes brasileiros nunca olharam com o mesmo carinho para outros continentes, como a Ásia e sobretudo a África. Mas, ao que parece, esse cenário vem mudando ano após ano. Isso graças ao trabalho de prospecção de talentos para as categorias de base e também a nível profissional.
Veja as fotosAbrir em tela cheia Bastos, do Botafogo, foi o 1º africano a conquistar o Campeonato Brasileiro e a Copa Libertadores.Rafaela Frison/Internacional | Vitor Silva/Botafogo Daniela Veiga/Atlético Mamady Cissé, de Guiné, é do Atlético-MG. Daniela Veiga / Atlético Aos 18 anos, o zagueiro Koné, da Costa do Marfim ,foi inscrito pelo Palmeiras para o Campeonato Paulista.Reprodução/Palmeiras
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A chegadas de jovens africanos ao Brasil
Se os jogadores africanos nunca foram numerosos no futebol profissional do Brasil, na base era ainda mais raro encontrá-los. Uma das possíveis explicações é o alto custo para observar esses jovens do outro lado do Atlântico, enquanto brasileiros se formam aos montes do futebol de bairro aos juniores de times de escalões mais baixos.
No entanto, a palavra custo deixou de ser utilizada em muitos dicionários nacionais em prol de outra mais adequada: investimento. A travessia do oceano é evidentemente mais custosa, mas também permite encontrar outro tipo de atleta. Muitas vezes, furando fila do mercado europeu, que tende a buscar jogadores africanos já formados. À esta altura, eles já estão na casa dos milhões de euros.
Em 2023, o então gerente geral da base do Flamengo, Luiz Carlos, explicou: “Pelo tamanho do Flamengo e pelo nível de jogadores que queremos ter na base, não podemos nos limitar. Temos que observar tudo. Temos observação na Europa, na América do Sul e temos visto cada vez mais o sucesso de jogadores africanos, que saem cedo da África, fazem a base na Europa e despontam lá. Por que não fazer aqui?”, disse à Itatiaia.
No mesmo ano, João Paulo Sampaio, coordenador da base do Palmeiras, falou ao ge sobre a ida do clube a Gana, Senegal e Camarões: “Mandamos dois scouts para a África, foram para três países. Na América do Sul, a gente só não conseguiu trazer argentino ou uruguaio porque os que a gente quer já estão na Europa ou em um clube grande. E aí precisa de dinheiro e de comprar. Na base, normalmente a gente não compra, mas traz para empréstimo. Então a gente mudou o foco para a África”.
E estes frutos já estão sendo colhidos: o clube carioca contratou o nigeriano Shola para a base naquele ano. Já o Alviverde inscreveu Koné, zagueiro de 18 anos da Costa do Marfim, contratado no fim da última temporada, no Campeonato Paulista de 2025. O Atlético-MG tem como destaque do sub-20 o meia Mamady Cissé, de Guiné, captado em um torneio de juniores na Nigéria.
O Internacional tem dois destaques de Gana no elenco sub-20: os volantes Denis Marfo e Benjamin Arhin, ambos contratados em 2025. Os dois vivem no CT do Colorado e têm aulas de português para facilitar a adaptação. Arhin estreou no elenco profissional do clube gaúcho há cerca de duas semanas na partida contra o Novo Hamburgo, válida pelo Campeonato Gaúcho.
No profissional, o cenário é outro
Enquanto os jovens da África conquistam cada vez mais espaço entre as categorias de base de clubes brasileiros, o caminhar no profissional ainda ocorre em passos curtos. Em 2025, 19 jogadores do continente foram registrados por clubes das quatro divisões do futebol Brasileiro, segundo pesquisa do ge. Apenas 4 estavam na Série A. Para efeito de comparação, eram 45 argentinos e 27 uruguaios na elite.
O topo do ranking de jogadores africanos fica justamente com a Série D, que tinha oito representantes. Na Série C, apenas dois, enquanto a Série B registrou cinco atletas do continente. O levantamento mostra que países como Angola, Senegal, Costa do Marfim e Gana ainda estão longe de serem destaque na elite nacional.
Apesar dos números ainda reduzido, há fatores que indicam uma mudança de cenário. É o caso do zagueiro angolano Bastos, do Botafogo, que se tornou o 1º jogador africano a ser campeão do Brasileirão. No mesmo ano, ele repetiu o feito na Libertadores. A expectativa agora é para que outros atletas repitam o feito em território nacional.






