6 fevereiro 2026

My Chemical Romance no Allianz Parque transforma álbum clássico em experiência coletiva

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Eu cheguei ao Allianz Parque sem aquela certeza típica de quem vai reencontrar uma banda que moldou a própria adolescência. Meu vínculo com o My Chemical Romance sempre foi fragmentado: uma música descoberta por acaso, outra que grudou por semanas, referências espalhadas ao longo dos anos. Nunca houve o ritual de sentar, apertar o play e ouvir um disco inteiro. Muito menos The Black Parade. Talvez por isso a noite de 5 de fevereiro tenha sido tão surpreendente.

Quando ficou claro que o álbum seria tocado na íntegra, a sensação foi curiosa: eu estava prestes a conhecer “de verdade” uma obra que, para as milhares de pessoas ao meu redor, já fazia parte da vida. E ali começou algo raro em shows desse porte: em vez de ansiedade por hits isolados, surgiu uma escuta atenta, quase respeitosa. Faixa após faixa, o disco se revelou para mim como uma história bem contada, emocionalmente honesta, sem medo do exagero ou da vulnerabilidade. Ao vivo, tudo ganha corpo.

Veja as fotosAbrir em tela cheia My Chemical Romance se apresentará em SP em fevereiroCrédito: Reprodução My Chemical Romance se apresentará em SP em fevereiroCrédito: Reprodução My Chemical Romance se apresentará em SP em fevereiroCrédito: Reprodução My Chemical Romance se apresentará em SP em fevereiroCrédito: Reprodução

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A setlist, especialmente durante essa execução integral, funciona como uma espinha dorsal emocional do show. Quando Welcome to the Black Parade surge, o estádio muda de temperatura: não é apenas um momento musical, é um gatilho coletivo. Vi gente ao meu lado chorar sem constrangimento, abraçar desconhecidos, cantar com a voz embargada. Mesmo para mim, que não carrega décadas de memória afetiva com a banda, a força daquela música ao vivo é impossível de ignorar. Já Teenagers quebra o peso dramático com ironia e energia, lembrando que o grupo também sabe rir do próprio caos e transformar inquietação juvenil em explosão pop-punk contagiante.

O que mais me tocou foi perceber que aquele drama todo, que poderia facilmente soar datado como muita coisa dos anos 2000, permanece incrivelmente humano. O My Chemical Romance não tentou esconder sentimentos atrás de ironia excessiva ou pose cool. Pelo contrário: cantou dor, medo, amor e perda de forma direta, quase escancarada. E isso, visto hoje, com distância e maturidade, soa ainda mais forte. No meio de um estádio lotado, me peguei absorvendo aquelas letras como se fossem novas, pois parecem novas.

Quando o disco se encerra e o show avança para músicas de outras fases, a apresentação muda de chave. Na Na Na (Na Na Na Na Na Na Na Na) funciona como um ponto de virada: barulhenta, direta, quase anárquica, ela transforma o estádio em um grande coro desordenado. É ali que o show assume de vez o clima de celebração. No fim, vem a incontornável Helena, encerrando tudo com a carga emocional já bastante conhecida.

A banda, por sua vez, parece plenamente consciente do que aquele álbum representa. Não há esforço para “atualizar” o passado nem para encená-lo como uma peça de museu. Existe entrega, existe respeito e existe prazer em revisitar essas músicas. O show flui como uma narrativa contínua, mas nunca engessada. Há espaço para emoção, para silêncio, para explosão. O público responde a tudo com uma devoção que impressiona e contagia até quem chegou como observador.

Saí do estádio com a sensação boa de quem descobriu algo grande no tempo certo. Talvez eu não tenha vivido o My Chemical Romance no auge da minha adolescência, mas vivi naquela noite um primeiro contato verdadeiro, intenso e emocionalmente completo.

E isso, no fim das contas, é o que a música faz de melhor: encontra a gente quando precisa. Mesmo que demore um pouco.

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