10 fevereiro 2026

Bad Bunny no Super Bowl: o dia em que a arte lembrou ao poder que ele nunca foi o protagonista

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O Super Bowl sempre foi o lugar onde tudo precisa caber. Onde o excesso é calculado, a ousadia é medida e a diferença costuma vir com legenda. No último domingo (8/2), isso mudou. Sem aviso, sem tradução e sem pedir licença, uma cultura entrou inteira em campo e mostrou que há momentos em que o maior palco do mundo deixa de ditar as regras para apenas assistir.

A arte, quando alcança sua forma mais visceral, não se curva. Ela não nasce para caber em moldes, tampouco para servir a projetos que tentam domesticá-la. Sua natureza é outra: atravessar, romper, tocar onde o discurso não alcança. Ela é maior do que qualquer tentativa de rotulação, justamente porque parte da premissa de não aceitar fronteiras impostas.

Veja as fotosAbrir em tela cheia Trump e Bad BunnyReprodução Bad Bunny no show do intervalo do Super BowlCrédito: Reprodução @nfl Bad Bunny no show do intervalo do Super BowlCrédito: Reprodução @nfl

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O problema é que, com o tempo, esquecemos como acessá-la dessa forma. Cercados por filtros, interesses e narrativas prontas, a sensibilidade vai sendo poluída. O que antes era potência vira produto. O que era instinto passa a obedecer comandos. A arte, então, deixa de ser um corpo livre e passa a se comportar como um animal castrado, adestrado para não morder, não correr, e não escapar da coleira.

É assim que surgem as caricaturas impostas pelo mercado, pela política e por estratégias criadas por gente igualmente engessada. O resultado não é arte em plenitude, mas algo que apenas parece profundo, enquanto serve a interesses que nada têm a ver com transgressão.

O embate que ninguém precisou anunciar

É nesse ponto que o contraste entre Donald Trump e Bad Bunny se torna inevitável, mesmo sem jamais ter sido planejado como confronto direto. Basta observar o que cada um exala.

Há algo em Trump que emocione? Que ginga? Que inspire? Que dê a sensação de que se está diante de algo genuinamente extraordinário? Mesmo para seus apoiadores, o que existe ali é energia ou apenas repetição? Convicção real ou um eco ideológico que se fortalece à medida que é reproduzido em massa?

O fenômeno se parece muito mais com o retrato do filme “A Onda”, em que o discurso, de tanto ser repetido, vira verdade absoluta. Quem está dentro se convence de que está do lado certo. Quem está fora vira inimigo. E, nesse processo, o pensamento crítico não desaparece por acaso, mas por conveniência. Agora, a pergunta é simples: o que há de verdadeiramente atraente nisso?

A política, de modo geral, independente de lado, raramente toca esse núcleo puro que a arte alcança. Ela opera em outra lógica. A da disputa, da aparência, da performance calculada. E é justamente por isso que se incomoda quando algo escapa desse controle.

Sem querer querendo, a arte faz política

Bad Bunny subiu ao palco do Super Bowl sem discursar. Não precisou apontar dedos, nem declarar posições. Ainda assim, fez política no sentido mais profundo da palavra. Isso sem pretensão explícita, mas é que a política insiste em se enxergar como centro do mundo, quando nunca foi. A arte apenas ocupou o espaço que sempre foi seu. E, ao fazer isso com verdade, expôs o vazio ao redor.

Aqui cabe uma analogia simples usando o famoso seriado mexicano “Chaves” como exemplo. Vejamos: a política se comporta como o Kiko. Tem poder, tem privilégios, tem status. Mas morre de inveja do Chaves, que não tem nada disso e, ainda assim, é original, criativo, humano e irresistivelmente interessante. Por não suportar essa diferença, tenta humilhá-lo, ridicularizá-lo e diminuí-lo.

O efeito é sempre o mesmo: quanto mais tenta inflar o próprio ego, mais se revela patética. Porque o protagonismo não se impõe. Ele acontece. Quem nasceu para ser Kiko jamais será Chaves. E a política, no fim das contas, nunca deixou de ser isso: um menino mimado brincando de ser algo que, na essência, não é. Pode até possuir instrumentos de poder. Mas ser, nunca foi.

O que aconteceu ali foi histórico

O que Bad Bunny fez naquele palco jamais será efêmero. É daquelas coisas que, no futuro, serão revisitadas em biografias, documentários e análises culturais. Isso sem contar do que o espetáculo em si artisticamente foi. Além disso, ele simbolizou algo que ultrapassou barreiras.

Pra entender melhor como Bad Bunny alcançou esse êxito, precisamos falar e se aprofundar no álbum DTMF. Dançante, regional e universal ao mesmo tempo, esse disco é parte fundamental disso. Ele carrega camadas de significado sem precisar explicá-las. Mistura elementos da música porto-riquenha com atabaques, metais latinos, estruturas do reggaeton, timbragens do trap, harmonias do jazz, ecos da bossa nova, do samba, do reggae jamaicano, do axé, do funk carioca e até de cânticos de orixás.

Tudo isso sem soar forçado. Sem parecer uma colagem artificial. Porque não é conceito empilhado. É vivência transformada em som. Como brasileiro, essa conexão é imediata. Dá pra sentir. Dá pra reconhecer. É regional sem se fechar. Universal sem se diluir.

Quando ser é suficiente

A capa do disco talvez seja o maior manifesto disso tudo. Duas cadeiras de plástico, um espaço simples, bananeiras ao fundo. Nada de excesso. Nada de pose intelectualizada. E, ainda assim, o maior disco de 2025. Vencedor de Grammy. Símbolo cultural.

Enquanto isso, quantas bandas e artistas se perdem criando conceitos mirabolantes, mensagens supostamente profundas e estéticas carregadas apenas para mascarar o vazio do que realmente têm a dizer? No fim, é simples. Quem é, é. E as pessoas sentem isso, independentemente do idioma, do ritmo ou do contexto. Verdade não precisa de manual.

Bad Bunny ensinou isso ao mundo sem dar aula. Apenas sendo. E, neste domingo, a arte lembrou ao poder algo que ele insiste em esquecer: o protagonista nunca foi ele.

Quando comunicar não é explicar

Durante muito tempo, espalhou-se a ideia de que, para chegar longe, era preciso se adaptar. Falar de um jeito mais neutro, esconder o sotaque, reduzir referências, simplificar histórias. Ali aconteceu o oposto. Nada foi explicado. Nada foi traduzido. E ainda assim, tudo foi entendido.

A camisa com sobrenome, os trabalhadores, a mesa de dominó, o ambiente que lembrava uma casa comum no meio de um estádio monumental. Além de cenário, era memória. Era cotidiano transformado em presença. Um tipo de comunicação que não pede que você entenda cada detalhe, apenas que perceba que há ali uma história inteira sendo contada.

É como o Chaves. Muita gente nunca viveu numa vila como aquela, nunca passou por aquelas situações, mas entende o sentimento. Porque aquilo carrega verdade. Funciona sem manual. Você não precisa saber como foi feito, só sente que faz sentido. Existe uma lógica nisso por trás, mesmo que o público não precise conhecê-la para ser atravessado por ela.

A estética que fala sem levantar a voz

Nada ali vinha com cartaz levantado ou discurso embalado para consumo rápido. As referências estavam expostas do jeito que são, sem legenda, sem adaptação. Quem reconhece, reconhece. Quem não reconhece, sente o impacto do mesmo jeito.

É por isso que incomoda. Porque não tenta convencer. Não tenta ensinar. Apenas ocupa o espaço com aquilo que é. A música segue, a dança continua, a narrativa avança, e o recado se espalha sem pedir autorização.

Existe uma força particular nisso. Uma força que não depende de confronto direto, nem de slogans, nem de explicações longas. Ela age no corpo antes de chegar à cabeça.

Arte viva e o contraste com o poder engessado

Enquanto muitas estruturas de poder se sustentam em personagens inflados, frases repetidas e conflitos fabricados, a arte aparece com outra lógica. Ela não precisa gritar. Não precisa vencer ninguém. Ela simplesmente existe do jeito que é.

Talvez por isso o contraste seja tão evidente. De um lado, discursos duros, previsíveis, presos à própria caricatura. Do outro, algo que dança, se move, muda de forma e continua reconhecível. Uma presença que acaba ocupando sem precisar de forçar domínio. Bad Bunny transformou o palco em casa ao invés de palanque. E isso, paradoxalmente, é muito mais forte.

O que permanece quando tudo termina

O show acaba, o jogo segue, as luzes se apagam. Mas fica a lembrança de que nem tudo precisa ser diluído para alcançar o centro. Fica a prova de que o local pode ser grande sem deixar de ser específico. Fica a sensação de que, às vezes, o mundo entende melhor quando ninguém tenta explicar demais.

Isso foge da ideia de vencer debates ou impor discursos. É mais sobre estar inteiro onde normalmente só cabe o ajustado. E quando alguém sobe no maior palco do planeta sem se dobrar, sem se esconder e sem pedir desculpas por existir, está lembrando que autenticidade, quando é real, ocupa qualquer espaço. Mesmo aqueles que acreditavam ser inalcançáveis.

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