A ausência de Sophie Charlotte entre as indicadas a Melhor Atriz no “Melhores do Ano” de 2026, do “Domingão com Huck”, é daquelas decisões difíceis de justificar; e ainda mais difíceis de explicar ao público.
Sophie é a protagonista de “Três Graças”, a novela das nove atualmente no ar. Só esse dado, por si só, já tornaria natural a presença dela na lista. A trama está concorrendo, seus personagens são debatidos diariamente nas redes e a repercussão da história é intensa. Excluir justamente a intérprete da personagem central cria um ruído evidente entre o que se vê na tela e o que aparece na premiação.
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Mais do que isso: Gerluce se consolidou como uma das heroínas mais marcantes da dramaturgia recente no horário nobre. Em muitas novelas, a vilã costuma roubar a cena — é quase uma tradição do gênero. Mas em “Três Graças” acontece algo mais raro: a protagonista consegue jogar em igualdade de forças com a antagonista.
A Arminda de Grazi Massafera é, sem dúvida, uma vilã forte e cheia de presença. Ainda assim, Gerluce não fica à sombra dela. Ao contrário: Sophie Charlotte construiu uma personagem complexa, combativa e emocionalmente rica, capaz de sustentar o peso dramático da narrativa sem depender da caricatura ou do exagero. É uma atuação que cresce capítulo após capítulo e que, em vários momentos, se torna até mais interessante do que a própria vilã.
Por isso, a ausência da atriz na disputa levanta uma suspeita inevitável nos bastidores e entre os telespectadores mais atentos. A impressão que fica é que a lista de indicadas pode ter sido montada de forma a evitar uma concorrência direta mais forte contra Débora Bloch, que interpreta Odete Roitman em “Vale Tudo”.
E aqui vale uma ponderação importante. Débora Bloch faz um trabalho poderoso e tem, de fato, a única personagem de “Vale Tudo” com força real para disputar prêmios nesta temporada. Mesmo quem critica o remake reconhece que sua Odete se tornou um dos grandes acontecimentos da novela.
O problema não é a presença de Débora na lista; ela é absolutamente justificável. O problema é a ausência de quem poderia disputar o troféu com ela em condições de igualdade.
“Vale Tudo” teve audiência sólida, mas uma repercussão bastante controversa. Foi aquela típica situação em que a novela esteve no centro das conversas mais por polêmicas e debates do que por unanimidade crítica. Nesse cenário, a Odete de Débora Bloch acabou se tornando o grande — e talvez único — consenso da produção.
Retirar Sophie Charlotte da disputa acaba transmitindo a sensação de que a categoria foi organizada para evitar um confronto direto entre duas das performances mais fortes do ano.
Para uma premiação que se propõe a celebrar os melhores da televisão, isso soa, no mínimo, estranho. Porque quando a protagonista da novela das nove — com uma das atuações mais consistentes da temporada — simplesmente não aparece entre as indicadas, a pergunta deixa de ser “quem vai ganhar?” e passa a ser outra: como essa lista foi montada?


