Uma aeronave do Departamento de Justiça dos Estados Unidos chamou atenção de entusiastas da aviação na última segunda-feira (20/4), ao partir de Virgínia, nos EUA, rumo a Cuba em trajeto direto, algo pouco habitual. A movimentação rapidamente gerou especulações nas redes sobre o motivo da missão, desde possíveis tratativas diplomáticas até ações mais duras envolvendo o governo de Donald Trump. No entanto, documentos judiciais revelaram que o objetivo era outro: uma operação do FBI para localizar e resgatar uma criança americana de 10 anos, supostamente retirada do país sem autorização de sua mãe, por sua genitora transgênero e a companheira.
Segundo informações divulgadas pelo The New York Times, um funcionário americano relatou sob anonimato, que o avião pousou em território cubano para viabilizar o resgate. Duas mulheres, identificadas como Rose e Blue Inessa-Ethington, de 42 e 32 anos, residentes no condado de Cache, em Utah, foram detidas e respondem a acusações federais de sequestro.
Veja as fotosAbrir em tela cheia FBIFoto: Divulgação/FBI
Voltar
Próximo
Leia Também
Esportes
Apostas questionáveis: UFC aciona FBI após suspeita de manipulação em lutas
Cultura
“A Mulher da Casa Abandonada”: Vítima fala pela 1ª vez em série do Prime Video
Cultura
“Número Desconhecido”: entenda o motivo chocante por trás do novo doc da Netflix
Esportes
Além do campo: Copa do Mundo de 2030 tem tudo pra ser a mais política da história
Rose, que, antes de sua transição de gênero, forneceu o esperma para a concepção da criança, compartilha a guarda com a mãe biológica, identificada apenas como “LB” nos autos.
A investigação foi detalhada em uma declaração apresentada pela agente do FBI Jennifer Waterfield em tribunal federal. De acordo com o documento, o caso envolveu um planejamento complexo, com deslocamentos internacionais e gastos de cerca de US$ 10.000 (R$ 50 mil). As autoridades apontam que as suspeitas teriam convencido a mãe biológica de que fariam uma viagem de acampamento ao Canadá, mas, em vez disso, seguiram para o México e depois para Cuba.
Especialistas em sequestro parental destacaram o caráter incomum da operação. Jay Groob, presidente de uma empresa especializada em recuperação de crianças, afirmou que raramente há mobilização de uma aeronave governamental de grande porte em situações desse tipo. “Isso é bizarro, extremamente incomum”, disse. “Nunca ouvi falar de algo assim”.
O caso também ocorre em meio a debates políticos nos Estados Unidos sobre procedimentos de transição de gênero em menores. Conforme os autos, familiares relataram às autoridades o receio de que a criança, descrita como um “menino biológico de 10 anos que se identifica como menina”, fosse levada a Cuba para realizar uma cirurgia “antes da puberdade”.
As suspeitas foram localizadas com apoio de autoridades cubanas e presas na segunda-feira (20/4). A criança foi encontrada e, no dia seguinte, devolvida à mãe biológica em Utah, segundo seu advogado. Representantes legais das acusadas não foram localizados, e não há confirmação se elas já constituíram defesa.
“Agradecemos às autoridades policiais por agirem rapidamente para devolver a criança à mãe biológica”, declarou Melissa Holyoak, primeira assistente do procurador dos EUA em Utah, em comunicado oficial.
Após a prisão, as duas mulheres foram transferidas para Richmond, na Virgínia, em um avião do Departamento de Justiça. Ainda não está claro o nível de colaboração do governo cubano na operação, que ocorreu semanas depois de uma visita diplomática americana à ilha.
Os registros indicam que a criança alternava períodos entre as casas das mães. No fim de março, Rose e Blue informaram que fariam uma viagem com a criança e um outro filho, de 3 anos, para Calgary, no Canadá. No entanto, elas não chegaram ao destino e interromperam o contato com “LB”. A devolução estava prevista para 3 de abril, o que não ocorreu, violando o acordo de custódia.
As investigações apontam que, no dia seguinte à saída, o grupo cruzou a fronteira pelo estado de Washington e embarcou para a Cidade do México. Depois, seguiu para Mérida e, em 1º de abril, viajou para Havana utilizando passaportes americanos.
Durante buscas na residência das acusadas, agentes encontraram indícios de planejamento detalhado, incluindo dinheiro em espécie, listas de tarefas envolvendo encerramento de contas bancárias, aprendizado de espanhol, obtenção de vistos e armazenamento de bens.
Também foram apreendidos documentos relacionados a orientações de uma terapeuta sobre “cuidados médicos de afirmação de gênero para crianças”, além de um pedido de pagamento no valor de US$ 10.000 por serviços ligados ao tema.
Em 13 de abril, um tribunal estadual determinou o retorno imediato da criança à mãe biológica, concedendo-lhe guarda exclusiva. Dias depois, autoridades cubanas localizaram o grupo.
Nos autos, Waterfield afirmou que parentes acusaram Rose de influenciar a criança quanto à identidade de gênero. Investigadores também sustentam que não havia indícios de intenção de retorno aos Estados Unidos, o que pode configurar violação das leis internacionais sobre sequestro parental.
Steven Ethington, irmão de Rose, afirmou ao New York Times que ela vinha “insistindo bastante” na realização de cirurgia de transição desde que a criança tinha cerca de 5 anos. Ele disse que apoiaria a identidade de gênero da criança caso fosse uma escolha própria.
“Tudo isso parecia vir claramente da Rose”, afirmou Ethington. “Foi de partir o coração e difícil para mim ver isso”.
A advogada da mãe biológica, Tess Davis, declarou que a possibilidade de cirurgia já era um ponto de tensão durante o divórcio.
“Acho que ela nunca imaginou que Rose pudesse fazer isso até que fosse tarde demais”, disse Davis. “Ela estava preocupada em nunca mais ver a criança”.


