Saímos de Rio Branco com destino a Boca do Acre, no Amazonas. São 220 quilômetros pela BR-317, a Estrada do Pacífico. Depois da Vila Caquetá, em Porto Acre, o asfalto some. Três trechos da rodovia ainda são de terra.
O cenário muda rápido. A estrada precária dá lugar a uma cidade marcada por conflitos de terra, execuções e medo. Boca do Acre vive sob a sombra da violência no campo.
O município está entre os dez com mais registros de conflitos por terra na Amazônia Legal em 2024, segundo a Cartografias da Violência na Amazônia do Fórum Brasileiro de Segurança Pública de 2025.
A região da AMACRO, fronteira entre Amazonas, Acre e Rondônia, enfrenta intensificação das disputas. Em 2025, houve relatos de violação do direito de ir e vir de famílias posseiras em seringais da região.
A área é palco de disputas intensas entre pequenos posseiros e grandes fazendeiros. O resultado são registros frequentes de violência.

No dia 25 de abril de 2026, uma emboscada na zona rural do sul de Lábrea, ao lado de Boca do Acre, terminou com três mortos.
Josias Albuquerque de Oliveira, produtor rural de 45 anos, e o sobrinho Arthur Henrique Ferreira Said, de 14 anos, saíram do PA Monte, assentamento no sul de Lábrea, Linha 15. No trajeto, deram carona para os trabalhadores rurais Francisco Hermogenes da Silva e Antonio Renato Vieira de Souza. Todos seguiam para Boca do Acre.
Cerca de 20 km após deixarem a propriedade, caíram em uma emboscada. Dois homens armados aguardavam em uma ponte. Usaram duas pistolas .40 e um fuzil para atirar contra a caminhonete L200 Triton.
Josias pilotava. Após ser atingido, perdeu o controle e caiu dentro de um igarapé. Ele, o adolescente Arthur e o diarista Antônio Renato morreram no local.
Relatos indicam que Arthur implorou para não ser morto, mas foi executado com vários tiros.
Francisco conseguiu escapar, entrou na mata e pediu ajuda em uma casa próxima.
A Polícia Militar foi acionada e cercou a região. Os suspeitos foram localizados próximos da BR-317. Houve resistência, mas a 5ª Companhia prendeu os criminosos.

Os pistoleiros foram identificados como Lucas Pessoa dos Santos e Edenilson Silva dos Santos, eles confessaram aos PMs que foram contratados por R$ 50 mil para executar Josias e toda a família.
Edenilson Silva dos Santos, possuía dois mandados de prisão em seu desfavor, um mandado de prisão preventiva expedido pelo Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe, e outro mandado de prisão com sentença condenatória por estupro de vulnerável a ser cumprida de 7 anos e 11 meses restantes, da Vara de Execuções Penais e Corregedoria dos Presidios do município de Ponta Grossa no Estado do Paraná.
Lucas Pessoa dos Santos, já possuía passagens pelo sistema judiciário, e era investigado em participação direta em outros homicídios ocorridos no município de Boca do Acre. Bandidos de alta periculosidade.

Duas pistolas .40 de uso restrito e um fuzil de alto poder de fogo foram apreendidos.
A família contesta os procedimentos da Polícia Civil. Segundo relatos, o delegado Gustavo Kalil não deu a devida importância ao caso.
Apesar do crime ter ocorrido a poucos quilômetros de Boca do Acre, a chacina foi no sul de Lábrea. Por isso, a autoridade judiciária encaminhou as investigações para o município vizinho.
Tentamos contato com o delegado Gustavo Kalil para entender a motivação dos crimes, mas não obtivemos resposta.
A Polícia Militar de Manaus, via WhatsApp, informou que não autoriza entrevistas. “A Polícia Militar fez seu trabalho, capturou os pistoleiros e entregou para a Polícia Judiciária para os procedimentos legais”, disse o Capitão responsável através de mensagens via WhatsApp.
Para entender a gravidade, é preciso voltar ao passado.
A família Albuquerque de Oliveira enfrenta uma briga judicial com outro fazendeiro pela posse de 400 hectares de terras. A família aponta um pecuarista natural de Minas Gerais como mandante de várias execuções entre Boca do Acre e Lábrea.
Em fevereiro de 2022, Josias sofreu uma tentativa de homicídio. Ele, o irmão, a cunhada e dois sobrinhos foram seguidos por um pistoleiro de moto após prestarem depoimento na Delegacia do município. Na frente da casa, no bairro Macaxeiral, o homem atirou várias vezes contra o veículo.
Josias foi baleado com gravidade. Socorrido pela família, foi levado ao hospital da cidade e transferido com urgência para o Pronto Socorro de Rio Branco. Três dias depois, foi para levado de jato particular para o Hospital Albert Einstein, em São Paulo.
Foram sete meses de internação e cirurgias. A família gastou aproximadamente R$ 4 milhões na recuperação. O pistoleiro nunca foi encontrado. A família diz que as autoridades não deram importância ao caso na época.
O conflito por terras começou há aproximadamente dez anos, segundo a família.

A aposentada Francelina Albuquerque, mãe de Josias e de outros sete filhos, afirma que a perseguição começou com a chegada de um fazendeiro de outro estado. “Meu filho nunca fez mal a ninguém”, disse. Ela exige que a Justiça do Amazonas tome providências severas para prender e condenar os mandantes.
Dona Francelina diz temer pela própria vida. “Boca do Acre vive momentos de pânico com tantos crimes violentos”, relatou.
A professora Maressa Guimarães, cunhada de Josias, clama por justiça pelo assassinato brutal do filho Arthur, de 14 anos. Emocionada e devastada com a maldade, ela relata o sofrimento que passa com a ausência do filho.

Antônia Vieira, irmã de Antonio Renato, morto na emboscada após pegar carona, diz que o irmão “sempre foi trabalhador e morreu inocente”.
Relatos de populares e operadores de segurança indicam um conflito interno entre Polícia Militar e Polícia Civil no município.
Testemunhas relatam que as mortes frequentes estão ligadas a capangas pagos por donos de terras. Muitos crimes não foram esclarecidos.
Em Boca do Acre, é comum ver motocicletas sem placa e condutores sem capacete transitando livremente.
Outras mortes ainda estão sem esclarecimentos. O advogado Fernando Ferreira da Rocha, de 55 anos, foi assassinado a tiros em fevereiro de 2020 enquanto estava deitado na rede da casa dele no bairro Platô de Piquiá. O crime nunca foi esclarecido.
Luciano de Oliveira Machado foi assassinado a tiros no dia 23 de abril de 2026, próximo ao Banco do Brasil. Uma caminhonete passou, ocupantes atiraram várias vezes e fugiram. Luciano morreu em via pública. A polícia não identificou os culpados.
Segundo a Comissão Pastoral da Terra, outras pessoas sumiram misteriosamente na área de conflito. Adriano e Mário estão entre os possivelmente assassinados em disputas por terras na região de Boca do Acre e Lábrea. A polícia nunca deu resposta sobre os casos.
Uma motocicleta e uma caminhonete envolvidas nas atividades criminosas foram apreendidas pela polícia e liberadas depois. Segundo as investigações, os veículos estão em nome de um homem que trabalha para um fazendeiro local, suspeito de ligação direta com os crimes.

O advogado da família Albuquerque acompanha o inquérito de perto.
Enquanto a Justiça não toma decisões severas, as matanças continuam a aterrorizar a pequena cidade do sul do Amazonas. A tendência é que o rastro da violência continue aumentando, deixando famílias inteiras destruídas.
Veja:
https://www.instagram.com/reel/DYSA8h8y8Pe/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==


