Artigo de opinião — Por Samoel Andrade
Nas últimas horas, vi a notícia sobre a regulamentação do Plano Estadual Intersetorial para Promoção e Garantia dos Direitos das Pessoas com Deficiência no Acre. A proposta fala em metas, acompanhamento, integração entre secretarias e fiscalização das políticas públicas voltadas às pessoas com deficiência.
Confesso que, como pessoa com deficiência e alguém que acompanha essa pauta há anos, fico feliz em ver o tema sendo debatido. Toda política pública que tenha como objetivo melhorar a vida das pessoas merece ser reconhecida.
Mas também preciso ser sincero: é impossível não fazer uma reflexão diante disso tudo.
Por que quase sempre as pautas das pessoas com deficiência ganham força justamente em períodos próximos das eleições?
Essa é uma pergunta que muitas famílias fazem em silêncio.
Quem vive a realidade da deficiência no Brasil sabe que essa luta não acontece apenas durante campanha eleitoral. Ela acontece todos os dias: quando falta atendimento médico, quando falta remédio, quando uma mãe passa meses esperando um laudo para o filho, quando uma pessoa perde uma consulta porque não tem transporte adaptado, quando estudantes com deficiência não têm apoio adequado nas escolas e quando famílias inteiras sobrevivem apenas com o BPC.
A deficiência não aparece de quatro em quatro anos. Ela existe todos os dias.
E talvez seja exatamente isso que mais machuca muitas pessoas: perceber que, em vários momentos, a pauta PCD é lembrada mais como estratégia política do que como compromisso humano permanente.
Em época de eleição, surgem discursos bonitos, vídeos emocionantes, promessas de inclusão e fotos ao lado de pessoas com deficiência. Mas, depois da eleição, muitas vezes o silêncio volta.
As famílias continuam abandonadas. Os processos continuam lentos. As filas continuam enormes. A acessibilidade continua incompleta. E os direitos continuam precisando ser implorados.
Isso não significa que não existam políticos sérios ou gestores comprometidos. Existem, sim. E quando alguém faz um trabalho verdadeiro, isso precisa ser reconhecido.
Mas também não podemos fingir que existe inclusão de verdade enquanto tantas pessoas ainda vivem sem dignidade básica.
Falar sobre inclusão vai muito além de criar decretos, planos e discursos técnicos. Inclusão de verdade significa presença do poder público na vida das pessoas. Significa políticas que saem do papel. Significa orçamento funcionando na prática. Significa acompanhamento contínuo — e não apenas ações simbólicas.
Uma pessoa com deficiência não precisa de pena. Precisa de oportunidade.
Não precisa ser usada em campanha. Precisa ser ouvida.
Não precisa ser lembrada apenas em datas específicas. Precisa ser prioridade o ano inteiro.
E digo isso porque conheço essa realidade não apenas pelos livros ou pelas notícias. Conheço pela vivência.
Sou uma pessoa com deficiência física e na voz. Sei o que é enfrentar dificuldades no acesso à saúde, ao transporte, à educação e até ao respeito. Sei o que é depender do BPC e sentir medo diante de revisões e burocracias. Sei o que é perceber que muitas famílias vivem cansadas emocionalmente porque precisam lutar diariamente por direitos que já deveriam ser garantidos.
Por isso, quando vejo novas medidas sendo anunciadas, torço para que não sejam apenas mais uma ação para produzir manchetes ou discursos políticos.
Torço para que realmente aconteçam.
Porque o povo já está cansado de ouvir promessas. As famílias querem resultados.
Querem médicos. Querem acessibilidade. Querem reabilitação. Querem inclusão nas escolas. Querem respeito. Querem autonomia. Querem dignidade.
E, acima de tudo, querem ser tratadas como cidadãs o tempo inteiro — não apenas quando chega o período eleitoral.
As pessoas com deficiência não são números. Não são estatísticas. Não são ferramentas de marketing político.
São seres humanos. Têm sonhos. Têm limitações. Têm potencial. Têm voz.
E talvez o maior avanço que a sociedade precise fazer seja justamente parar de enxergar a pessoa com deficiência apenas como alguém que precisa de ajuda e começar a enxergá-la como alguém que também pode construir, liderar, trabalhar, estudar, sonhar e transformar a realidade ao seu redor.
Espero sinceramente que esse novo momento das políticas públicas no Acre seja diferente. Espero que exista fiscalização de verdade, acompanhamento sério e resultados concretos.
Porque inclusão não pode ser apenas discurso. Inclusão precisa virar realidade.
E o povo PCD do Acre merece muito mais do que promessas em ano eleitoral.



