O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ironizou nesta segunda-feira (27) a crise diplomática envolvendo o presidente da Argentina, Javier Milei, após ser questionado por jornalistas sobre as declarações feitas pelo líder argentino durante visita ao Brasil.
Enquanto aguardava o presidente da Coreia do Sul, Lee Jae Myung, no Palácio do Itamaraty, em Brasília, Lula foi perguntado pelo repórter Daniel Carvalho, da Bloomberg, sobre a participação de Milei na convenção nacional do Partido Liberal (PL).
A resposta foi curta e em tom de ironia.
“Eu? Quem é esse cara?”, disse Lula.
A declaração ocorre um dia após Milei participar da convenção que oficializou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República, em São Paulo.
Milei atacou Lula e Alexandre de Moraes durante convenção
Durante seu discurso no evento do PL, Javier Milei fez duras críticas ao governo brasileiro e ao Supremo Tribunal Federal (STF).
O presidente argentino chamou Lula de “presidiário” e se referiu ao ministro Alexandre de Moraes como “lixo careca”, ao comentar a decisão que negou autorização para visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Milei afirmou que Bolsonaro estaria sendo perseguido politicamente e comparou a situação do ex-presidente brasileiro ao período em que Lula esteve preso e recebeu visitas de autoridades estrangeiras.
Segundo o argentino, a negativa da visita seria uma demonstração de injustiça e perseguição política.
Itamaraty reage e convoca embaixador argentino
As declarações provocaram reação imediata do governo brasileiro.
O Ministério das Relações Exteriores convocou o embaixador da Argentina no Brasil para prestar esclarecimentos sobre as falas do presidente argentino.
Além disso, o governo brasileiro chamou de volta para consultas o embaixador do Brasil em Buenos Aires, em um gesto diplomático que demonstra insatisfação com o episódio.
O chanceler Mauro Vieira reuniu-se nesta segunda-feira com o embaixador brasileiro na Argentina, Júlio Bitelli, para avaliar os impactos da crise diplomática entre os dois países.
Segundo o Itamaraty, novos encontros deverão ocorrer após o retorno de Mauro Vieira da viagem oficial ao Peru.
Ministro da Fazenda critica Milei
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, também reagiu às declarações do presidente argentino.
Durante entrevista, Durigan afirmou que os indicadores econômicos brasileiros são superiores aos da Argentina e classificou Milei como um “palhaço”.
Segundo o ministro, o Brasil apresenta atualmente menor risco-país, inflação controlada, desemprego em níveis historicamente baixos, recordes na balança comercial, safra agrícola elevada e redução do desmatamento.
“O palhaço do presidente da Argentina veio ao Brasil falar do nosso país quando a Argentina enfrenta indicadores econômicos muito piores que os brasileiros”, afirmou.
STF considera declarações desrespeitosas
As falas de Milei também provocaram manifestação do presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin.
Em nota oficial, Fachin afirmou que as declarações representam uma referência desrespeitosa a um ministro da Suprema Corte brasileira.
Segundo o magistrado, críticas dirigidas a decisões judiciais devem respeitar a Constituição brasileira e a independência entre os Poderes.
Visita a Bolsonaro motivou discurso
Um dos principais pontos do discurso de Milei foi a negativa do STF ao pedido para visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Na semana anterior, a defesa de Bolsonaro solicitou autorização ao ministro Alexandre de Moraes para que o presidente argentino pudesse encontrá-lo.
O pedido foi negado pelo relator do processo, decisão criticada por Milei durante sua participação na convenção do PL.
O presidente argentino afirmou que Bolsonaro estaria sendo alvo de perseguição política e voltou a defender mudanças políticas na América do Sul, dizendo que a região vive uma transição em direção a governos liberais.
Relação entre Brasil e Argentina entra em novo momento de tensão
O episódio amplia o histórico recente de divergências entre os governos de Lula e Javier Milei.
Desde a posse do presidente argentino, os dois líderes têm demonstrado visões políticas e econômicas distintas, e os atritos diplomáticos se intensificaram em diferentes ocasiões.
Apesar da crise política, Brasil e Argentina permanecem como importantes parceiros comerciais e integrantes do Mercosul, mantendo uma relação estratégica para a economia e a integração regional.
Por Samoel Andrade





