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A mulher de César e o julgamento de Alexandre de Moraes

Por Ricardo Noblat
Hugo Barreto/Metrópoles

“Infeliz do país que não tem heróis!” – comenta Andrea, discípulo de Galileu Galilei na peça A Vida de Galileu, escrita pelo dramaturgo alemão Bertolt Brecht na década de 1930. Ele estava decepcionado com seu mestre, que cedera à pressão da Inquisição e renegara publicamente suas descobertas científicas para salvar a própria vida. Ao que responde Galileu: “Não. Infeliz do país que precisa de heróis.”

Uma sociedade madura e saudável deve funcionar com base em instituições fortes, leis justas e na ação coletiva dos cidadãos. Se um povo precisa de um “salvador da pátria” para resolver seus problemas, é sinal de que o sistema social e político falhou. A dependência de heróis abre portas para o autoritarismo, já que as pessoas tendem a terceirizar suas responsabilidades para um único líder.

Nascido em São Paulo em 13 de dezembro de 1968 — dia em que a ditadura militar promulgou o Ato Institucional nº 5, suprimindo o que ainda restava de democracia no país —, Alexandre de Moraes, professor de Direito da Universidade de São Paulo, ganhou projeção nacional ao tornar-se ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) um ano antes da eleição de Jair Bolsonaro à Presidência.

Ninguém mais do que ele, entre seus colegas, arriscou-se nos anos seguintes a combater os arreganhos de um mandatário com vocação de ditador. Ninguém mais do que ele foi decisivo para a condenação à prisão dos que tentaram abolir a democracia por meio de um golpe de Estado. Desde então, merecidamente ou não, passou a ser visto como herói por uma parcela expressiva dos brasileiros.

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Sinto muito ao constatar que a agonia de Moraes como herói sofreu uma grave inflexão a 33 dias da eleição que poderá marcar o retorno ao poder dos que carecem de compromisso com a democracia, restabelecida há 41 anos. Se quiser salvar sua reputação, já fortemente abalada por sucessivos atos repletos de soberba, o Supremo será obrigado a livrar-se dele. Ou o faz, ou se deixa arrastar para o lamaçal.

Não dá mais para aturar quem foi incapaz de resistir à sedução de um crápula como Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, acusado de pagar regiamente favores em troca do acesso ao dinheiro público. Os desvios de conduta de Moraes, uma vez comprovados acima de qualquer margem de dúvida, não podem ficar impunes. Manchariam para sempre a imagem de um país que se deseja sério.

“À mulher de César não basta ser honesta, tem que parecer”, ensinou o imperador romano Júlio César. Moraes deixou de parecer.

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Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Ricardo Noblat.