“Infeliz do país que não tem heróis!” – comenta Andrea, discípulo de Galileu Galilei na peça A Vida de Galileu, escrita pelo dramaturgo alemão Bertolt Brecht na década de 1930. Ele estava decepcionado com seu mestre, que cedera à pressão da Inquisição e renegara publicamente suas descobertas científicas para salvar a própria vida. Ao que responde Galileu: “Não. Infeliz do país que precisa de heróis.”
Uma sociedade madura e saudável deve funcionar com base em instituições fortes, leis justas e na ação coletiva dos cidadãos. Se um povo precisa de um “salvador da pátria” para resolver seus problemas, é sinal de que o sistema social e político falhou. A dependência de heróis abre portas para o autoritarismo, já que as pessoas tendem a terceirizar suas responsabilidades para um único líder.
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do Metrópoles
Sinto muito ao constatar que a agonia de Moraes como herói sofreu uma grave inflexão a 33 dias da eleição que poderá marcar o retorno ao poder dos que carecem de compromisso com a democracia, restabelecida há 41 anos. Se quiser salvar sua reputação, já fortemente abalada por sucessivos atos repletos de soberba, o Supremo será obrigado a livrar-se dele. Ou o faz, ou se deixa arrastar para o lamaçal.
Não dá mais para aturar quem foi incapaz de resistir à sedução de um crápula como Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, acusado de pagar regiamente favores em troca do acesso ao dinheiro público. Os desvios de conduta de Moraes, uma vez comprovados acima de qualquer margem de dúvida, não podem ficar impunes. Manchariam para sempre a imagem de um país que se deseja sério.
“À mulher de César não basta ser honesta, tem que parecer”, ensinou o imperador romano Júlio César. Moraes deixou de parecer.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Ricardo Noblat.



