A lei municipal 16.547/2016 estabeleceu em São Paulo a possibilidade de remunerar ciclistas como forma de fomentar a mobilidade ativa e diminuir o uso do transporte motorizado, como carro e ônibus. No entanto, a medida nunca foi regulamentada nem implementada. Para colocar a legislação em prática, um projeto-piloto inédito oferece créditos no Bilhete Único a quem usar a bicicleta em deslocamentos diários.
Conduzido por pesquisadores do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (IME-USP) e do FGV Cidades, o levantamento avaliará se os incentivos financeiros podem mudar as escolhas dos paulistanos ao percorrer a cidade.
“Neste momento, a gente tem mais de 2 mil pessoas que cumpriram todos os requisitos para participar do
teste, então baixaram o aplicativo e usaram ao longo de julho para testar que está tudo funcionando. A partir de agosto, a gente realmente vai começar a remuneração com pouco mais de mil pessoas”, explica o professor de ciência da computação do IME-USP.
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Limitadas inicialmente a duas por dia, as viagens com bike geram créditos no sistema de bilhetagem. É preciso apenas validar nas máquinas de recarga.
Pedaladas diárias na prática
A paulistana Gabriela Giamoniano, de 44 anos, é uma das participantes do projeto-piloto. Ela ficou sabendo da oportunidade por meio de um grupo no WhatsApp formado por mulheres ciclistas.
Há mais de cinco anos, a professora de ioga tem a bicicleta como meio de transporte diariamente. Além disso, pratica esportes com bike, como downhill, que é o ciclismo de montanha.
“Uso para o trabalho de segunda a sexta-feira. Até para ir ao mercado, utilizo a bicicleta. Minha bicicleta é dobrável, então consigo utilizar o metrô em qualquer horário; além disso, ela dobrada cabe no porta-malas do Uber. Se eu cansar ou se precisar ir mais longe, essa facilidade é um ponto muito positivo para eu combinar com outro meio de transporte”, conta.
Para Giamoniano, a experiência de testar o aplicativo “caiu como uma luva”. “Cadastrei os endereços que utilizo no dia a dia: trabalho, residência e treino. Quando vou iniciar o trajeto, dou início no app, e, quando chego ao final do trajeto, finalizo”, compartilha. “Na hora que termino o trajeto, já aparece o valor que serei remunerada de acordo com a distância percorrida. Também existe a opção de pausar o trajeto durante o percurso, caso eu necessite parar para fazer compras no mercado, por exemplo.”
Na avaliação da usuária, a ferramenta é útil por muitos motivos, não somente pela remuneração. “Com ele, será mais fácil analisar quais ciclovias são mais utilizadas e onde faltam ciclovias. O meu trajeto, por exemplo, é de quase 11 km, mas não há ciclovias no trajeto todo. Poderá haver mais pessoas utilizando a bicicleta como meio de transporte e como consequência — meu sonho — ter motoristas mais conscientes e mais respeitosos com os ciclistas”, pondera.
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Gabriela Giamoniano, participante do projeto que troca pedaladas por crédito no Bilhete Único
Material cedido ao Metrópoles
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A professora de yoga é uma usuária assídua da biclicleta
Material cedido ao Metrópoles
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O Bilhete Único é um sistema de bilhetagem eletrônica
Prefeitura de São Paulo/Divulgação
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A lei municipal 16.547/2016 foi sancionada em 2016 pelo então prefeito da capital paulista Fernando Haddad (PT), mas ficou com a regulamentação pendente e nunca foi colocada em prática
CPTM/Divulgação
Planejamento público
A pedido da Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte, da prefeitura, os dados coletados no projeto devem subsidiar a regulamentação da norma. No entanto, os próprios pesquisadores tiveram que colher recursos para o teste. Conseguiram apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
“Durante dois anos, a gente desenvolveu todo o software necessário para fazer o cadastramento das pessoas, primeiro pela web, daí um aplicativo de celular que é capaz de rastrear as viagens e verificar se a viagem foi realmente feita de bicicleta ou não, e se ela foi feita entre pontos pré-determinados”, explica Fabio Kon.
No decorrer dos testes, serão detalhados para os pesquisadores os trajetos de aproximadamente 100 mil viagens. “Com isso, a gente vai trazer várias informações muito úteis para a Prefeitura. Uma delas, por exemplo: a gente vai saber para cada quarteirão da cidade qual é a taxa de bicicletas que passam por lá e quando elas passam”, detalha o coordenador do projeto.
As constatações poderão ser indícios para traçar ações de planejamento público. Uma das possibilidades é identificar locais nos quais há um grande tráfico de ciclistas, mas sem infraestrutura adequada.
“A gente vai dizer quais são os públicos-alvo, público prioritário, talvez quais as regiões da cidade são prioritárias; como fazer, se a gente realmente vai remunerar até duas viagens por dia, se é adequado ou não”, completa Kon.
Benefícios da bicicleta
Fabio Kon ressalta que o intuito da iniciativa não é fazer com que as pessoas deixem de usar o transporte público, mas que haja sinergia entre os meios de locomoção. Além disso, expor para a população os benefícios das pedaladas.
“A bicicleta tem muitas vantagens em relação ao carro; é o modo mais eficiente, em termos de uso de energia, para se deslocar”, garante o professor da USP. “O espaço ocupado por uma bicicleta é menos de um décimo do ocupado por um carro, então reduz o congestionamento”, acrescenta.
“A bicicleta normalmente trafega entre 10 e 20 km por hora, então é dificilmente acontece um acidente fatal com bicicleta, a não ser que ela tenha sido atingida por um carro, ou outro veículo motorizado”, finaliza o especialista.




