
Ano após ano o desmatamento na Amazônia se torna motivo de preocupação mundial. De acordo com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), o Acre é o estado que, proporcionalmente, mais desmatou na Amazônia Legal – área que corresponde a 59% do território brasileiro e engloba a totalidade de oito estados – Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins – e parte do estado do Maranhão.
Confira o que dizem alguns especialistas à reportagem da Folha de S.Paulo.
Ane Alencar, diretora de ciência do Ipam, relembra que o Acre foi pioneiro no ideário de preservação da floresta em pé com a criação das reservas extrativistas — e considerado exemplar na estruturação de políticas de pagamentos por serviços ambientais. “Entretanto, não foi o suficiente para inibir a escalada de desmatamento”, conclui.
Sonaira Silva, pesquisadora da Ufac (Universidade Federal do Acre), aponta algumas ações que não tiveram o sucesso esperado: uma fábrica de camisinhas e melhores preços para borracha e castanha.
Silva cita um levantamento de sua equipe que observou que desde 2017 houve aumento de cerca de cinco vezes na área de plantio de milho e soja no estado, que tinha produção inexpressiva até então.
Essas atividades, concluíram, têm ocorrido em locais de pastos já consolidados —ou seja, não estão diretamente envolvidas em desmatamento. A questão é que, se a área de pastagem antiga agora é ocupada por grãos, novas terras para o gado tendem a ser abertas.
De acordo com especialistas, o desmate atual no Acre não é fruto da população local. Produtores rurais de outros estados, atraídos pelos valores baixos dos terrenos, impulsionam esse processo.
“O Acre tem uma vocação natural que por muitos anos foi extrativista. O perfil dos produtores locais não é de desmatar e eles nem têm condições para isso”, diz Jarlene Gomes, coordenadora do Ipam no Acre. “Desmatar uma área grande custa caro.”
Segundo Gomes, além disso, o pequeno produtor local está sem incentivos suficientes para produções agroecológicas e sustentáveis.
A Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes é um exemplo disso. Apesar de frentes de resistência seringueira, dados do Inpe apontam onda de desmatamento no local, ainda mais intensa que no restante do estado.
De 2010 até 2018, a média de desmate anual na área protegida era de cerca de 16 km². Nos últimos três anos foi superior a 70 km².
“Ela [a Resex] está mais para uma área de minifazendas do que para uma reserva que conserva o extrativismo”, define Gomes.
Soma-se a tudo isso a construção de milhares de ramais (estradas não oficiais) que cortam o estado e o ligam ao Amazonas. “Isso gera impactos irremediáveis”, diz a pesquisadora da Ufac.
Gomes relembra também que, em geral, o desmatamento não gera PIB e não está ligado ao desenvolvimento de uma região ou ao combate à pobreza, por beneficiar poucas pessoas.
Outros problemas relacionados às derrubadas são as queimadas e sua fumaça —vinda do próprio Acre e também dos estados amazônicos vizinhos.
Isso resulta em anos de vida perdidos, alerta Foster Brown, professor-associado da Ufac e pesquisador do centro de pesquisa climática Woodwell.
“[Há] efeitos na saúde de pessoas, em termos de clima regional e global, e em termos de qualidade e quantidade de água nos rios”, diz o cientista.



