A América Latina voltou a ocupar um espaço estratégico na disputa por influência entre China e Estados Unidos. Em meio ao avanço da presença econômica chinesa na região e à tentativa de Donald Trump de reafirmar o domínio norte-americano sobre o Hemisfério Ocidental, Pequim reforçou, na terça-feira (18/8), o discurso de que os países latino-americanos devem ter liberdade para definir suas próprias alianças.
Ao receber o presidente do Equador, Daniel Noboa, em Pequim, o líder chinês, Xi Jinping, afirmou que “o desenvolvimento e a revitalização dos países latino-americanos e caribenhos não devem ser interrompidos” e que o direito de escolher parceiros de cooperação “não deve ser violado”.
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do Metrópoles
A disputa já não se limita à tradicional rivalidade comercial entre as duas maiores economias do mundo.
Portos, redes de telecomunicações, projetos de energia, exploração mineral, infraestrutura logística e tecnologias consideradas estratégicas passaram a integrar o tabuleiro geopolítico.
Na avaliação de Allan Gallo, professor de Ciências Econômicas da Universidade Presbiteriana Mackenzie e coordenador do Núcleo de Estudos sobre a China (NECH), a competição atual se diferencia da rivalidade ideológica do século 20.
Segundo ele, a disputa passou a envolver principalmente “infraestrutura, cadeias de suprimento e padrões técnicos”, em outras palavras, quem controla ou opera estruturas essenciais para transportar mercadorias, transmitir dados e acessar recursos naturais.
“A competição avança sobre instalações construídas para mover contêineres, transmitir dados ou extrair minerais, sem necessariamente envolver bases militares”, explicou ao Metrópoles.
EUA reforça discurso de domínio
- Enquanto Pequim defende publicamente a autonomia dos países latino-americanos para escolher seus parceiros, o governo de Donald Trump vem recuperando uma linguagem mais assertiva sobre a posição dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental.
- Na última semana, o Departamento de Estado norte-americano divulgou um vídeo afirmando que o domínio dos EUA sobre as Américas “nunca mais será questionado”.
- A postura se soma a declarações e medidas do governo Trump que recolocaram a Doutrina Monroe no centro da política externa americana.
- Recentemente, o método norte-americano deixou de parecer apenas retórico e passou a se apresentar como coerção direta.
China amplia presença na região
A estratégia chinesa na América Latina ganhou força, especialmente a partir da década de 2010, quando Pequim passou a ocupar espaços em investimentos e financiamento de infraestrutura.
Durante a visita de Noboa, China e Equador reforçaram a cooperação no âmbito da Iniciativa Cinturão e Rota, conhecida como Nova Rota da Seda. Xi defendeu a implementação de projetos conjuntos em setores como energia, minerais, infraestrutura e finanças, além da ampliação da cooperação em economia digital, desenvolvimento verde, novas energias e inteligência artificial.
Para Gallo, a expansão chinesa ocorreu inicialmente em um contexto no qual havia uma demanda latino-americana por investimentos que não estava sendo atendida por outras potências.
“A expansão chinesa dos anos 2010 preencheu um vazio de financiamento de infraestrutura que ninguém mais queria bancar”, disse.
Segundo o professor, a China já responde por cerca de 13% das exportações e 22% das importações da região e superou os Estados Unidos como principal parceiro comercial da América do Sul.
A diferença, segundo ele, está também na forma de atuação. “Os EUA voltaram oferecendo pressão e condicionalidade, enquanto a China continua oferecendo capital e velocidade.”
O professor avalia que, enquanto essa diferença permanecer, Pequim não precisa necessariamente ampliar agressivamente sua presença. “A China não precisa avançar, basta não recuar”, afirmou.
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Xi Jinping e Daniel Noboa em Pequim
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China se opõe à interferência externa no Brasil, diz Xi Jinping a Lula
VINÍCIUS SCHMIDT/METRÓPOLES @vinicius.foto3 de 3
Trump e Xi Jinping
Thomas Peter-Pool/Getty Images
Tarifas colocam América Latina no centro
A política comercial de Trump tornou-se uma das principais ferramentas de pressão sobre países latino-americanos.
O Brasil acionou a Organização Mundial do Comércio (OMC) em 27 de julho para contestar sobretaxas impostas pelos Estados Unidos. O processo questiona duas medidas: uma tarifa adicional de 25%, estabelecida após investigação do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), e outra sobretaxa de 12,5%, relacionada a uma investigação sobre suposto uso de trabalho forçado.
Somadas, as medidas podem elevar a tarifa sobre determinados produtos brasileiros a até 37,5%.
Washington já aceitou o pedido brasileiro para iniciar consultas na OMC e informou estar disponível para discutir o tema com representantes de Brasília. Ainda não há, porém, uma data definida para as conversas.
A disputa ganhou uma dimensão adicional com a decisão da China de solicitar participação nas consultas entre Brasil e Estados Unidos.
Em documento enviado à OMC, Pequim afirmou ter “interesse comercial substancial” no caso. O governo chinês argumentou que medidas americanas relacionadas à investigação sobre trabalho forçado também atingem produtos de origem chinesa vendidos nos Estados Unidos.
Pelas regras da OMC, países que demonstrarem interesse comercial substancial podem solicitar participação nas consultas de uma disputa. A entrada da China, contudo, depende da aceitação de Brasil e Estados Unidos.
Em documento divulgado pela Casa Branca, Washington classificou o Brasil, além de Argentina, Chile, Colômbia e Peru, como parte dos chamados “corredores latino-americanos” de uma suposta rede de triangulação de produtos chineses.
Segundo os Estados Unidos, o Brasil seria uma “plataforma regional de produção e logística de maior porte”, capaz de facilitar o redirecionamento de fluxos comerciais ou a transformação de produtos em determinadas categorias.
A China, por sua vez, está submetida a uma tarifa americana de 50% sobre determinadas importações. O Brasil também está entre os países submetidos a uma das maiores cargas tarifárias impostas pela administração Trump.
Espaço estratégico
Para Vitor de Pieri, professor e especialista em geografia humana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a importância adquirida pela América Latina precisa ser compreendida dentro de uma transformação mais ampla da ordem internacional.
“Estamos diante de uma transição de um sistema fortemente marcado pela primazia norte-americana para uma configuração mais multipolar, na qual a China se consolidou como um dos principais polos econômicos, tecnológicos e políticos do mundo”, afirmou.
Nesse cenário, a região deixa de ser vista apenas como fornecedora de matérias-primas e passa a ocupar posição estratégica nas cadeias globais de alimentos, energia, minerais críticos, infraestrutura, logística, tecnologia e transição energética.
O especialista, porém, ressalta que Pequim apresenta oficialmente sua política para a América Latina não como uma estratégia de confronto com Washington, mas sob os conceitos de cooperação Sul-Sul, multipolaridade, soberania e não intervenção.
Isso não significa, segundo De Pieri, ausência de interesses estratégicos. A China precisa garantir mercados, fontes de energia, alimentos, minerais e espaço para suas empresas e cadeias produtivas. A diferença estaria nos instrumentos utilizados.
Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Manuela de Moura.




