Geral

Apuração do MPSP sobre contratos de estradas ultrapassa 100 ações abertas

Por Vinicius Passarelli
Divulgação/Governo de SP

As investigações do Ministério Público de São Paulo (MPSP) que miram aditivos de contrato do governo paulista no âmbito de um programa de melhorias em estradas rurais ultrapassaram nesta semana a marca de 100 ações civis públicas abertas.

A promotoria apura indícios de irregularidades em cerca de 150 aditivos do programa Melhor Caminho assinados no final de 2022, no apagar das luzes do governo Rodrigo Garcia.

As suspeitas foram denunciadas pela própria Secretaria de Agricultura no início de 2023, mas a pasta recuou do entendimento após a troca do secretário Antônio Junqueira, cuja equipe foi a responsável por um relatório apontando as inconsistências, por Guilherme Piai (Republicanos). À época da denúncia, a pasta calculou possível prejuízo de R$ 50 milhões aos cofres do estado.

O relatório foi encaminhado ao Ministério Público, que passou a investigar os contratos. Ao todo, foram 147 inquéritos abertos, um para cada contrato colocado em suspeita. Em 2025, a promotoria abriu 15 ações, tendo os servidores Ricardo Lorenzini Bastos e Henrique Fraga como alvos.

Entre no canal de WhatsApp
do Metrópoles

O primeiro era o chefe de gabinete da Secretaria de Agricultura à época da assinatura dos aditivos.  Já Henrique Fraga era o coordenador de Logística Rural da pasta. Em 2026, o MPSP avançou nas investigações e, até a tarde da última terça-feira (22/9), havia aberto 86 ações. Além dos dois servidores mencionados, o ex-secretário Francisco Maturro também passou a figurar no polo passivo das ações.

Em nota, a Secretaria de Agricultura e Abastecimento afirmou que concluiu as apurações sobre os aditivos contratuais e que os relatórios foram encaminhados à Controladoria Geral do Estado de São Paulo (CGE-SP), à Procuradoria Geral do Estado (PGE) e ao Ministério Público para eventuais providências. Disse ainda que os servidores citados foram exonerados.

“As ações se referem a contratações firmadas entre 2021 e 2022. Desde o início da atual gestão paulista, não houve novas contratações no âmbito do programa. Com base em recomendações da CGE-SP, a Secretaria revisou critérios de medição e pagamento dos serviços e reforçou os mecanismos de controle e fiscalização. A Pasta acompanha as medidas cautelares determinadas pela Justiça e permanece à disposição dos órgãos de controle para qualquer esclarecimento”, completou.

O Metrópoles procurou a defesa de Maturro e Henrique Fraga. O espaço segue aberto para manifestação.

“Conflito de interesses”

Servidor de carreira da pasta, Lorenzini tem tido sua defesa no caso tocada pela própria Procuradoria-Geral do Estado, o que já foi apontado por um desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) como possível conflito de interesse. Em meio às investigações, o chefe de gabinete chegou a ser alvo de bloqueio de bens pela Justiça.

Nos autos, Lorenzini argumentou que atuou regularmente como chefe de gabinete da Secretaria de Agricultura, “amparado por pareceres jurídicos e orientações institucionais, razão pela qual a própria Procuradoria Geral do Estado deferiu sua representação judicial por reconhecer a convergência entre sua atuação e o interesse público”. Ele ainda sustenta que a ação se baseia em relatório apócrifo e em conclusões equivocadas do órgão técnico do Ministério Público que apontou irregularidades nos aditivos.

Já a PGE afirma que a representação é precedida de “análise técnica individualizada acerca do preenchimento dos pressupostos legais autorizadores e dos requisitos de conformidade”.

“No caso em questão, o requerimento formulado pelo mencionado agente público foi examinado pelos órgãos competentes desta PGE/SP, que reconheceram a presença dos requisitos legais necessários à realização de sua representação judicial, bem como a inexistência de conflito de interesses entre a Administração Pública estadual e a conduta específica do agente”, disse o órgão.

Entenda o caso

  • No início de 2023, a então nova gestão da Secretaria da Agricultura denunciou a presença de indícios de irregularidades em aditivos de contrato do programa Melhor Caminho, assinados a toque de caixa em dezembro de 2022, no apagar das luzes do governo de Rodrigo Garcia, à época no PSDB.
  • Segundo estimativa da secretaria na ocasião, os aditivos foram assinados de forma suspeita em cerca de 150 contratos e teriam causado prejuízo próximo de R$ 50 milhões aos cofres do estado.
  • O então secretário Antonio Junqueira produziu relatório com as suspeitas de irregularidades, que foi enviado ao governador e aos órgãos de controle em 2023.
  • Ao todo, foram abertos 147 inquéritos, que deram origem até o momento 101 ações civis públicas abertas pelo Ministério Público de São Paulo. Os processos miram especialmente dois servidores responsáveis à época pela assinatura dos aditivos: Henrique Fraga, então coordenador de logística rural, e Ricardo Lorenzini, então chefe de gabinete da pasta.
  • Um parecer técnico do MPSP considerou que os aditivos foram formalizados de modo padronizado e sem análise individualizada, por meio de critérios genéricos, como a pandemia e o preço do diesel.
  • Além disso, o MPSP alega que os eventos citados ocorreram antes das licitações, o que configuraria manipulação contratual e dano ao erário. Ainda segundo os autos, houve indícios de cancelamento ilegal de empenhos de outras obras para viabilizar esses pagamentos.
  • O Metrópoles também mostrou que, diante de pressões, Antonio Junqueira acabou deixando a Secretaria de Agricultura ainda em 2023, após a demissão de servidores responsáveis pela investigação interna. Seu sucessor, Guilherme Piai, atuou para engavetar a apuração, mas a averiguação prosseguiu no Ministério Público.
  • Com o avanço das ações na promotoria, o MPSP também decidiu abrir inquérito de improbidade administrativa contra o secretário de Agricultura na época das assinaturas, Francisco Maturro, além dos servidores citados. Além disso, Piai também virou alvo do MPSP devido à sua atuação em relação à apuração que havia dentro da pasta.

Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Vinicius Passarelli.