Alguns teólogos e padres têm por hábito, neste tempo de Natal, aludir ao subjetivismo simbólico do nascimento de Jesus. Referem-se à pobreza, sem outros adornos. E estou com eles. Não imagino um hebreu nascido na Judeia, o sul da Palestina, nas condições documentais que a Novo Testamento reporta (em nada diferentes das de outras crianças judias – incluindo o “nosso” Brian), a ter sinais exteriores de outra coisa. Outros exegetas, excessivos e dramáticos, preferem ir mais longe: falam no silêncio de um Deus hierático e grave – nem é bom pensar nisso. Daí até se recrearem nas subtilezas do despojamento, da liberdade do repouso cristãos vai um pequeno passo. Só que não é de sobriedade aquilo para que os evangelhos apontam: isso é sofisticado e habita apenas as mentes de alguns padres de homilia engraçadona. É de pobreza pura e dura. Jesus era um pobre. E como criança, como toda criança humana, só pode ter pecado, isto é, vivido em espontaneidade.
A retórica do capitalismo moderno, perfeitamente integrada no Tempo Comum da Igreja Católica (Natal-Quaresma/Páscoa-Advento), não só é abjeta como perigosa. Pretende fazer-nos crer na humanidade do consumo (“humaniza-te”, aconselha mesmo uma grande empresa que nos esbulha diariamente) e no calendário da bondade, usando a pretensa inocência das crianças: este é um tempo de ser bom…
Todos nós reconhecemos o momento em que a nossa mente resvala para o pecado da conivência com um mundo classista, injusto e antidemocrático, sem, contudo, o admitirmos. Preparamo-nos para pecar, quando nos iludimos com esta grande beleza do mundo: Gaza, Sudão, Ucrânia, Síria, Somália, Etiópia, etc., etc., etc. Os pobres, os miseráveis, as vítimas não têm fim. Têm silêncio.
Preparamo-nos para pecar, “enganando-nos a nós mesmos de que vamos fazer outra coisa e odiando-nos pelas intenções ocultas que não assumimos, nem perante nós mesmos”, elegendo um Natal de Centros Comerciais, de casacos e cachecóis elegantes, de luzinhas nas ruas, de mega-árvores de Natal – I would like a December with Christmas lights off and people’s lights on, desabafava Bukowski, agora estafado nas redes sociais. Queimamos o cabelo a outros homens, sem-abrigo e indefesos, na rua, e filmamos. Fazemos todos parte destas outras luzes, desta humanidade, destas novas fogueiras.
Primo Levi lembrou que a sobrevivência, em Auschwitz, dependia de algo elementar como lavar a cara e o corpo. Ainda há tempo: antes, durante e depois do Natal. É mesmo possível lavar o nosso rosto mais íntimo, o rosto do perdão e da gratidão e da solidariedade e do combate. O rosto que se agiganta contra os canalhas (os bastardos do Ken Loach), os sacanas gabarolas que vamos sabendo quem são. O rosto que se apieda de quem sofre, seja rico, seja pobre. Lembra Santo Agostinho que “muitos pecados são cometidos por gente que chora e geme”. E tem razão. Estamos lá todos.
Feliz Natal.
(Transcrito do PÚBLICO)




