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Brasil inicia processo de reciprocidade contra tarifas dos EUA

Governo brasileiro notificará Washington e iniciará consultas diplomáticas, mas abertura do processo não significa retaliação imediata.

Samoel Andrade Por Samoel Andrade

O governo brasileiro informou nesta quinta-feira (13) que iniciou formalmente o processo de reciprocidade contra os Estados Unidos diante das medidas tarifárias adotadas pelo governo do presidente Donald Trump.

A decisão envolve a análise das tarifas norte-americanas à luz da Lei da Reciprocidade Econômica, aprovada pelo Brasil em 2025.

O Ministério das Relações Exteriores também deverá notificar formalmente o governo norte-americano e solicitar a realização de consultas diplomáticas.

Processo não significa retaliação imediata

Apesar da abertura do procedimento, o governo brasileiro esclareceu que a medida não representa a aplicação automática de novas tarifas ou outras retaliações contra produtos e empresas dos Estados Unidos.

O processo ainda deverá passar por diferentes etapas de análise previstas na regulamentação da Lei da Reciprocidade.

A legislação estabelece mecanismos que podem permitir ao Brasil adotar contramedidas diante de ações unilaterais de outros países que prejudiquem a competitividade brasileira no comércio internacional.

Antes de qualquer decisão, deverão ser avaliados os impactos econômicos das medidas norte-americanas e os setores brasileiros afetados.

Brasil vai notificar o governo Trump

A Câmara de Comércio Exterior (Camex) compartilhou o pedido com os integrantes do Comitê-Executivo de Gestão do órgão.

Paralelamente, o Ministério das Relações Exteriores iniciou os procedimentos para a notificação formal dos Estados Unidos.

O governo brasileiro também pretende solicitar consultas diplomáticas com Washington.

Segundo o governo, o objetivo principal é tentar reduzir ou eliminar os efeitos das medidas comerciais adotadas pelos Estados Unidos e evitar uma escalada das tensões entre os dois países.

EUA aplicaram tarifa adicional de 25%

Em 22 de julho, os Estados Unidos aplicaram uma tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros.

A medida está relacionada a uma investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), com base na Seção 301 da legislação comercial norte-americana.

O mecanismo permite aos Estados Unidos investigar práticas comerciais de outros países que considere injustas ou prejudiciais aos interesses norte-americanos.

A investigação vinha sendo conduzida desde 2025.

USTR apresentou críticas às políticas brasileiras

Segundo a justificativa apresentada pelo governo norte-americano, determinadas políticas brasileiras poderiam gerar desvantagens competitivas para empresas dos Estados Unidos.

Entre os temas analisados estavam:

  • comércio digital;
  • tarifas preferenciais;
  • combate à corrupção;
  • processamento de patentes;
  • combate à pirataria;
  • etanol;
  • desmatamento ilegal.

O USTR afirmou que essas políticas poderiam criar insegurança jurídica ou restringir o acesso de empresas norte-americanas ao mercado brasileiro.

O governo brasileiro, entretanto, rejeita essa interpretação.

Brasil contesta justificativas norte-americanas

Segundo o governo brasileiro, foram apresentadas ao longo do último ano diversas argumentações para contestar as acusações feitas pelos Estados Unidos.

O Planalto afirma que tentou convencer o USTR a encerrar a investigação baseada na Seção 301.

Na avaliação oficial brasileira, as tarifas norte-americanas são consideradas injustificadas e arbitrárias.

O governo afirma que continuará defendendo sua posição por meio das instâncias diplomáticas e comerciais disponíveis.

Investigação norte-americana recebeu centenas de manifestações

O USTR informou que recebeu mais de 360 manifestações escritas durante o processo de consulta pública.

Também foram ouvidas 77 testemunhas em audiências realizadas antes da decisão sobre a tarifa adicional.

Após a análise das contribuições, o órgão norte-americano concluiu que determinadas políticas brasileiras seriam, na avaliação dos Estados Unidos, “não razoáveis” e poderiam restringir ou onerar o comércio norte-americano.

A posição brasileira é diferente e deverá ser apresentada novamente durante as consultas diplomáticas.

Lei da Reciprocidade permite contramedidas

A Lei da Reciprocidade Econômica foi sancionada em abril de 2025 e regulamentada posteriormente.

O mecanismo permite, em determinadas circunstâncias, que o Brasil suspenda concessões comerciais, de investimentos e obrigações relacionadas a direitos de propriedade intelectual em resposta a medidas unilaterais de outros países.

A legislação estabelece, portanto, um instrumento jurídico para que o governo brasileiro possa responder a medidas consideradas prejudiciais à competitividade nacional.

O processo iniciado nesta quinta-feira coloca formalmente as tarifas norte-americanas sob análise desse mecanismo.

Medidas podem atingir parte das exportações brasileiras

Segundo dados apresentados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, as medidas da Seção 301 atingem, isolada ou conjuntamente, aproximadamente 23,1% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos, considerando como referência o comércio realizado em 2024.

Em cerca de 16,5% das exportações, as duas sobretaxas podem ser acumuladas, levando a uma incidência total de 37,5%.

Os números mostram a dimensão do impacto potencial das medidas para empresas brasileiras que dependem do mercado norte-americano.

Governo diz priorizar negociação

Apesar da abertura do processo de reciprocidade, o governo brasileiro afirma que pretende priorizar a negociação.

As consultas diplomáticas deverão servir para discutir as medidas norte-americanas e buscar alternativas para reduzir seus efeitos sobre empresas e trabalhadores brasileiros.

A estratégia também envolve a tentativa de diversificar os mercados de destino das exportações brasileiras.

Plano Brasil Soberano também é citado

O governo afirmou que continuará adotando medidas de proteção aos setores afetados pelas tarifas por meio do Plano Brasil Soberano.

A iniciativa tem como objetivo reduzir os impactos econômicos das medidas externas e preservar empregos e a capacidade produtiva brasileira.

Ao mesmo tempo, o governo pretende ampliar a busca por novos mercados e diversificar os parceiros comerciais do país.

O que acontece agora?

Com a abertura do processo, algumas etapas ainda precisam ser cumpridas antes de eventual adoção de contramedidas.

De maneira geral, o procedimento deverá considerar:

  1. Identificação das medidas norte-americanas consideradas prejudiciais;
  2. Análise dos setores brasileiros afetados;
  3. Estimativa do impacto econômico;
  4. Consultas diplomáticas com os Estados Unidos;
  5. Avaliação das possíveis medidas de resposta;
  6. Eventual adoção de contramedidas, caso sejam consideradas necessárias e juridicamente cabíveis.

Portanto, a abertura do processo não significa que produtos norte-americanos passarão imediatamente a sofrer novas tarifas.

Brasil e Estados Unidos entram em nova fase da disputa comercial

A decisão desta quinta-feira representa uma mudança na resposta brasileira às medidas comerciais adotadas pelo governo Trump.

De um lado, os Estados Unidos defendem que determinadas políticas brasileiras prejudicam empresas e interesses comerciais norte-americanos.

Do outro, o governo brasileiro considera as tarifas injustificadas e busca utilizar os mecanismos diplomáticos e jurídicos disponíveis para contestá-las.

A partir de agora, as negociações entre os dois países deverão definir se haverá uma solução diplomática para o impasse ou se o processo brasileiro poderá avançar para a adoção de eventuais contramedidas.