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Brasil investe R$ 2,3 bilhões em inteligência artificial e aposta em supercomputadores

Pacote bilionário amplia capacidade brasileira de processamento de IA e ocorre em meio à disputa tecnológica entre Estados Unidos e China.

Samoel Andrade Por Samoel Andrade

O governo brasileiro anunciou na última quinta-feira investimentos de aproximadamente R$ 2,3 bilhões em inteligência artificial, com recursos destinados à expansão da infraestrutura de supercomputação do país. A estratégia inclui projetos no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Norte e parcerias envolvendo empresas da China e dos Estados Unidos.

A iniciativa pretende ampliar a capacidade brasileira para desenvolver modelos de inteligência artificial, aplicações para diferentes setores e tecnologias consideradas estratégicas para a economia e a soberania digital.

R$ 1,3 bilhão será destinado a projeto com empresas chinesas

A maior parcela dos recursos anunciados, de aproximadamente R$ 1,3 bilhão, será destinada a um projeto de infraestrutura de supercomputação no Rio de Janeiro.

O empreendimento será desenvolvido em parceria com as empresas chinesas Huawei e iFlytek.

Segundo o governo federal, a estrutura deverá ser utilizada principalmente para o desenvolvimento de modelos de linguagem de uso geral e aplicações de inteligência artificial voltadas a diferentes setores.

A previsão é que essa infraestrutura comece a operar a partir de julho do próximo ano.

Brasil prepara supercomputador entre os mais poderosos do mundo

Outros R$ 1 bilhão serão destinados a um edital para a construção de um novo supercomputador de inteligência artificial.

A expectativa do governo é que a máquina esteja entre as dez mais poderosas do mundo para processamento de inteligência artificial.

O equipamento será instalado no Rio Grande do Norte, escolhido, segundo o governo, por apresentar elevado potencial energético.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou do anúncio dos investimentos no estado.

A previsão é que o supercomputador entre em operação até o final do próximo ano.

Nvidia é cotada para fornecer tecnologia

Embora o processo de contratação ainda dependa do edital e da disputa entre os fornecedores, integrantes do governo afirmaram, sob condição de anonimato, esperar que a norte-americana Nvidia seja vencedora da concorrência.

A ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, já havia mencionado anteriormente a expectativa de que a empresa fornecesse a tecnologia para o projeto.

A Nvidia é uma das principais empresas mundiais no desenvolvimento de chips e sistemas utilizados em aplicações de inteligência artificial.

Governo quer evitar dependência de um único país

Ao anunciar os investimentos, o governo federal destacou que a estratégia não pretende concentrar a infraestrutura tecnológica brasileira em uma única empresa ou país.

“A estratégia não é depender de uma única empresa, tecnologia ou país”, afirmou o governo federal em nota.

A justificativa é ampliar a autonomia tecnológica do Brasil e fortalecer a capacidade nacional de processamento e armazenamento de dados.

Segundo o governo, os investimentos também buscam aumentar a soberania nacional sobre dados gerados por serviços públicos e privados brasileiros.

Brasil tenta equilibrar relações entre China e Estados Unidos

A distribuição dos projetos entre empresas chinesas e a possibilidade de participação de uma companhia norte-americana ocorre em um cenário de disputa global pela liderança tecnológica em inteligência artificial.

A China ampliou sua presença econômica no Brasil nos últimos anos e se consolidou como um dos principais parceiros comerciais do país.

Os Estados Unidos, por outro lado, continuam sendo uma das principais fontes de investimento estrangeiro direto no Brasil.

O governo Lula busca manter relações estratégicas com os dois países, evitando uma dependência tecnológica exclusiva de qualquer uma das potências.

Investimento ocorre em meio à disputa global pela IA

A inteligência artificial se tornou uma das principais áreas de competição tecnológica entre Estados Unidos e China.

A capacidade de desenvolver modelos avançados depende, entre outros fatores, de grandes estruturas de processamento, chips especializados, armazenamento de dados e acesso a energia.

Nesse cenário, a criação de grandes centros de supercomputação é considerada estratégica para países que pretendem desenvolver tecnologia própria e reduzir a dependência de infraestrutura estrangeira.

Recursos virão do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico

Os investimentos anunciados serão financiados pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT).

Os recursos serão liberados de forma parcelada, conforme o andamento dos projetos.

A utilização do fundo coloca a infraestrutura de inteligência artificial dentro da política brasileira de financiamento à ciência, tecnologia e inovação.

Governo também anuncia parceria com a Espanha

Além dos projetos de supercomputação, o governo brasileiro anunciou uma parceria com a Espanha para o desenvolvimento de chips utilizando a arquitetura aberta RISC-V.

A tecnologia permite o desenvolvimento de processadores a partir de uma arquitetura de conjunto de instruções aberta, utilizada em diferentes projetos de inovação tecnológica.

A iniciativa amplia a estratégia brasileira para além da infraestrutura de inteligência artificial e inclui também o desenvolvimento de componentes necessários para a cadeia tecnológica.

Brasil planeja serviço nacional de computação em nuvem

Outra frente anunciada pelo governo envolve a criação de um serviço brasileiro de computação em nuvem.

A proposta deverá ser desenvolvida por meio de parcerias público-privadas.

A iniciativa pretende ampliar a capacidade de processamento e armazenamento de dados e criar uma infraestrutura que possa atender tanto órgãos públicos quanto empresas.

Centro de transparência algorítmica também está previsto

O governo anunciou ainda a futura criação de um Centro Nacional de Transparência Algorítmica e Inteligência Artificial Confiável.

A estrutura deverá ser operada pelo Centro de Pesquisa Aplicada em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

O objetivo é ampliar a pesquisa e o acompanhamento dos impactos dos sistemas de inteligência artificial, especialmente em relação à transparência e à confiabilidade dos algoritmos.

Lula defende autonomia estratégica

O pacote de investimentos ocorre dentro da estratégia defendida pelo presidente Lula de ampliar a autonomia estratégica brasileira diante das grandes potências.

A política também ganha dimensão eleitoral em 2026.

O principal adversário de Lula na disputa presidencial, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), defende uma aproximação maior do Brasil com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, caso seja eleito.

Nesse contexto, os investimentos em tecnologia também passam a integrar o debate sobre o posicionamento internacional do Brasil.

Supercomputação pode ampliar capacidade brasileira de inovação

Com os projetos anunciados, o governo pretende criar uma infraestrutura capaz de atender à crescente demanda por processamento de inteligência artificial no país.

A expectativa é que os novos equipamentos contribuam para pesquisas científicas, desenvolvimento de modelos de linguagem e aplicações específicas para setores da economia e dos serviços públicos.

O desafio será transformar os investimentos em capacidade tecnológica permanente, formando profissionais, estimulando empresas brasileiras e garantindo que a infraestrutura construída seja utilizada para ampliar a inovação nacional.