A decisão do governo americano de punir o Brasil por meio da imposição de uma tarifa adicional de 50% sobre todas as nossas exportações, numa atitude excessiva mesmo para os padrões de Donald Trump, além de causar danos severos a amplos setores de nossa economia, pode ainda ter o efeito perverso de colocar brasileiros contra brasileiros.
A decisão do governo americano é polêmica sob qualquer ponto de vista. A política de impor tarifas aos países que exportam para os Estados Unidos tinha o objetivo de conter os elevados e crescentes déficits comerciais americanos com o resto do mundo. A maioria dos economistas discorda da tese de que o aumento das tarifas necessariamente eliminaria os déficits e traria de volta as indústrias. Para isto seria necessário que os americanos consumissem menos e poupassem mais, inclusive o Governo, o que parece impossível.
Pelo que já está dito e pelo que se pode supor, a penalização ao Brasil tem o propósito de interferir na nossa vida interna, interrompendo a regulação das Big Techs e trancando o processo contra Jair Bolsonaro. São duas tarefas para as quais o governo brasileiro não tem competência, pois o Brasil hoje é diferente dos Estados Unidos, aqui há separação de Poderes e o Judiciário é independente. Elas não podem ser objeto de negociação diplomática, sem que a nossa democracia se arruíne e sem que a nossa soberania seja descartada, o que não é certamente o que os brasileiros desejam.
Há quem diga que o protagonismo verbal do Presidente Lula na reunião dos BRICS seja o motivo principal. Sem dúvida nosso Presidente fala muito e costuma ser inconsequente. Além disso, o BRICS está se tornando claramente um clube de ditadores. Mas esta é uma questão sobre a qual os brasileiros devem decidir.
Qualquer que seja a causa, uma coisa não poderia estar acontecendo: brasileiros celebrando a penalização injusta e imotivada de empresas e trabalhadores brasileiros. O governo Trump passará; esta traição não passará.
Roberto Brant, ex-ministro da Previdência Social do governo Fernando Henrique Cardoso




