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Câncer leva homem a descobrir síndrome genética: “Achei que era o fim”

Por Isabella França
Arquivo Pessoal

Claudir Inácio da Silva, 45 anos, de Sapucaia do Sul (RS), já investigava havia quatro meses as dores persistentes nos ossos da coluna quando recebeu, em 2021, o diagnóstico de câncer de pulmão. Embora nunca tivesse fumado, ele conhecia de perto a doença: um irmão havia morrido pelo mesmo tipo de tumor aos 27 anos.

“Passou um filme na minha cabeça. Lembrei das cenas dele no hospital, do seu sofrimento, da angústia pela cura e da espera pela cirurgia”, conta. Na época, porém, ele não imaginava que os dois casos pudessem ter uma ligação hereditária.

A resposta começou a aparecer após um teste genético identificar a variante R337H no gene TP53, associada à síndrome de Li-Fraumeni, condição hereditária que aumenta a predisposição ao desenvolvimento de diferentes tipos de câncer, inclusive em idades mais jovens do que o habitual.

“Fiquei abalado novamente. Sinceramente, quando li sobre a síndrome, achei que era o meu fim. Descobrir que havia uma condição hereditária por trás de tudo foi difícil, porque senti a responsabilidade e a obrigação de comunicar meus irmãos e outros familiares de que eles também poderiam ter a mutação”, relata Silva.

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Por que a alteração aumenta o risco de câncer

O gene TP53 produz a proteína p53, considerada uma das principais “guardiãs do genoma”. Na prática, ela funciona como um mecanismo de proteção: diante de danos importantes no DNA, pode interromper a divisão celular para permitir o reparo ou provocar a morte da célula comprometida.

Quando uma pessoa nasce com uma variante patogênica no TP53, o mecanismo pode funcionar de maneira inadequada, permitindo que células com alterações genéticas sobrevivam e se multipliquem.

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do Metrópoles Saúde e Ciência

“Por essa razão, não existe apenas “um câncer da Li-Fraumeni”. A predisposição envolve diferentes órgãos e pode estar associada, por exemplo, a câncer de mama, sarcomas, tumores cerebrais, tumores adrenocorticais, entre outros”, explica Denise Ferreira, médica radio-oncologista e diretora de Comunicação da Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT).

No Brasil, a variante TP53 R337H merece atenção particular porque apresenta frequência maior do que em outras populações, principalmente nas regiões Sul e Sudeste, segundo dados da Sociedade Brasileira de Mastologia.

A estimativa apresentada pela especialista é de que ela possa estar presente em aproximadamente uma a cada 300 a 500 pessoas nessas regiões. A presença da alteração, no entanto, não significa que o portador necessariamente terá câncer.

Entenda a Li-Fraumeni

  • O que é: uma síndrome hereditária relacionada, na maioria dos casos, a variantes patogênicas no gene TP53, que aumentam a predisposição ao desenvolvimento de diferentes tumores.
  • Quais cânceres estão associados: entre os mais relacionados estão câncer de mama, sarcomas, tumores cerebrais e tumores adrenocorticais, além de outras neoplasias.
  • Quais são os sinais de alerta: não há um conjunto específico de sintomas da síndrome. A suspeita pode surgir diante de câncer em idade incomumente jovem, de mais de um tumor primário na mesma pessoa, de tumores raros ou vários casos de câncer na família.
  • Ter a variante significa desenvolver câncer: não. O risco e a apresentação podem variar entre os portadores, portanto, o resultado precisa ser interpretado individualmente.
  • Como é feita a investigação: diante de um histórico sugestivo, o aconselhamento genético avalia a indicação do teste e as implicações do resultado para o paciente e os familiares.
  • O que muda após a identificação: o acompanhamento pode incluir protocolos específicos de vigilância e exames periódicos, entre eles a ressonância magnética de corpo inteiro, com o objetivo de detectar possíveis tumores precocemente.

Histórico familiar pode levar à investigação

Alguns padrões ajudam os médicos a identificar quando uma predisposição hereditária deve ser considerada. “São sinais de alerta: câncer em idade incomumente jovem, mais de um tumor primário na mesma pessoa, vários familiares acometidos, tumores raros ou um padrão familiar sugestivo. Nesses casos, o ideal é encaminhar o paciente para aconselhamento genético, que avaliará se há indicação de teste”, afirma Denise.

No câncer de pulmão entre pessoas que nunca fumaram, a predisposição hereditária pode estar envolvida em uma parcela dos casos, mas a maioria não é explicada pela Li-Fraumeni. A combinação entre diagnóstico muito precoce, múltiplos tumores e histórico familiar importante pode justificar uma investigação especializada.

Após descobrir a própria variante, Silva foi o primeiro da família a incentivar os parentes a procurarem avaliação. Duas irmãs estão em contato com médicos e aguardam autorização do plano de saúde para realizar o exame, enquanto um irmão avalia fazer o teste de forma particular e precisará percorrer cerca de 200 quilômetros por não haver geneticista nem laboratório que realize a análise na região onde mora.

“A minha família recebeu a notícia com tranquilidade, mas, ao mesmo tempo, todos estão apreensivos. Ressaltei a importância do diagnóstico precoce, para que, caso seja necessário, seja possível iniciar um acompanhamento e um tratamento mais eficientes”, diz.

Claudir Inácio da Silva descobriu a síndrome de Li-Fraumeni após investigar uma possível predisposição genética ao câncer na família

Vigilância passa a fazer parte da rotina

A identificação de uma alteração relacionada à Li-Fraumeni pode mudar o acompanhamento médico, porque existem estratégias de vigilância voltadas à detecção precoce de tumores. Os familiares também podem precisar de avaliação genética, principalmente quando a variante já foi identificada na família.

“A presença de uma mudança genética não significa necessariamente que a pessoa desenvolverá câncer. A interpretação do resultado e das implicações para o paciente e sua família deve ser feita em conjunto com um médico geneticista”, reforça Denise.

Nos cinco anos desde o diagnóstico, Silva passou por terapia-alvo, quimioterapia, radioterapia e pela retirada do pulmão esquerdo. Também concluiu a graduação em engenharia, em 2023, e reorganizou prioridades que antes estavam concentradas no crescimento profissional.

Hoje, ele valoriza acontecimentos que antes poderiam parecer corriqueiros, como acompanhar a filha completar 15 anos e ver os outros filhos conseguirem a carteira de habilitação. “São conquistas que parecem normais, mas é assim que me sinto vivo. São pequenos momentos, mas muito satisfatórios”.

A experiência também mudou a relação com o trabalho, a família e o futuro. “Hoje levo a vida com mais leveza, menos trabalho, menos cobranças, mais parceria e cultivando amizades mais próximas.”


Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Isabella França.