O movimento dos partidos do Centrão nas eleições de 2026 ganhou novos contornos com a decisão de algumas das principais legendas do grupo de manter distância formal da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) e, ao mesmo tempo, preservar canais de diálogo com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A estratégia, porém, não está limitada à disputa pelo Palácio do Planalto.
União Brasil, PP, Republicanos e MDB adotam posição de neutralidade
Entre os partidos que optaram por não declarar apoio formal a uma candidatura presidencial estão União Brasil e PP, reunidos na federação União Progressista, além de Republicanos e MDB.
No Republicanos, a decisão foi tomada internamente e terminou com 17 votos favoráveis à neutralidade, nove pela candidatura de Flávio Bolsonaro e um voto pelo apoio a Lula.
A posição demonstra que as alianças nacionais não necessariamente seguem o mesmo desenho das coligações estaduais.
Em diferentes estados, os partidos podem estabelecer alianças distintas de acordo com as disputas locais.
Centrão busca preservar espaço para negociar em 2027
A estratégia adotada pelas legendas pode ser entendida também a partir da preocupação com o cenário posterior à eleição presidencial.
Independentemente de quem vencer a disputa pelo Palácio do Planalto, o próximo governo precisará construir maioria no Congresso para aprovar parte significativa de sua agenda.
Por isso, partidos do centro político procuram preservar autonomia para negociar com o eventual vencedor da eleição.
A força dessas legendas dependerá, em grande medida, do número de deputados e senadores eleitos em 2026.
Quanto maior a representação parlamentar, maior tende a ser o peso das bancadas nas negociações envolvendo projetos de governo, presidências de comissões, relatorias e composição da administração federal.
Estados apresentam alianças diferentes
A neutralidade nacional não significa que União Progressista, Republicanos ou outras siglas estejam afastadas de todas as candidaturas presidenciais nos estados.
Levantamentos sobre as alianças estaduais mostram que partidos que mantêm neutralidade na disputa nacional podem apoiar candidatos diferentes nas eleições para governos estaduais.
No caso da União Progressista, por exemplo, a legenda aparece em alianças com o PL em alguns estados e com partidos ligados ao campo governista em outros.
Isso reforça uma característica histórica das eleições brasileiras: as estratégias nacionais e estaduais nem sempre seguem a mesma lógica.
Experiência de Lula em 2023 mostra importância do Congresso
A relação entre o Executivo e o Congresso durante o terceiro mandato de Lula ajuda a explicar por que a composição parlamentar é considerada fundamental para o próximo governo.
Quando voltou ao Palácio do Planalto em 2023, Lula não possuía maioria própria no Congresso.
Um dos primeiros grandes testes ocorreu durante a votação da medida provisória que reorganizou a estrutura dos ministérios.
A proposta enfrentou resistência e precisou ser negociada com lideranças da Câmara e partidos do chamado Centrão.
O texto acabou sendo aprovado pelo Congresso no limite do prazo de validade da medida provisória.
Durante a tramitação, os parlamentares também promoveram mudanças na estrutura originalmente proposta pelo governo.
Partidos do Centrão ganharam espaço no governo Lula
Depois das negociações no Congresso, integrantes de partidos do centro político passaram a ocupar ministérios importantes durante o governo Lula.
Entre os nomes que assumiram cargos estavam representantes de União Brasil, PP e Republicanos.
A movimentação demonstrou como a composição do Congresso pode influenciar diretamente a formação da base de apoio do governo federal.
Para o próximo mandato presidencial, a situação poderá se repetir caso o vencedor da eleição não consiga formar uma bancada suficientemente ampla.
PL tenta ampliar sua força no Congresso
Do outro lado da disputa, o PL busca ampliar sua representação parlamentar.
Atualmente, o partido possui uma das maiores bancadas da Câmara dos Deputados e também trabalha para aumentar sua presença no Senado.
A estratégia bolsonarista não está concentrada apenas nos candidatos do próprio PL.
Flávio Bolsonaro declarou apoio a candidatos ao Senado de diferentes partidos, incluindo nomes de siglas que também fazem parte do centro político.
A tentativa é formar uma bancada mais ampla e ideologicamente próxima no Congresso Nacional.
Uma bancada maior poderia alterar as negociações
Caso o PL consiga ampliar significativamente sua bancada e Flávio Bolsonaro vença a eleição presidencial, o próximo governo poderia iniciar 2027 com um grupo parlamentar mais alinhado ao presidente.
Isso não eliminaria a necessidade de negociação com partidos de centro.
Entretanto, uma bancada governista maior poderia modificar a relação de forças no Congresso e reduzir a dependência do Executivo em determinadas votações.
Por outro lado, se Lula conquistar um novo mandato e não obtiver maioria parlamentar, a negociação com partidos do Centrão deverá continuar sendo importante para a governabilidade.
Caso Banco Master entrou no cálculo político
As investigações relacionadas ao Banco Master também passaram a fazer parte do ambiente político que envolve algumas das principais legendas do centro.
O avanço das apurações e as repercussões envolvendo políticos e empresários contribuíram para modificar algumas articulações que estavam sendo discutidas antes do início oficial da campanha.
Entre os políticos citados no contexto das investigações está o senador Ciro Nogueira (PP-PI), que nega irregularidades.
O caso adicionou mais um elemento às disputas internas e às estratégias eleitorais dos partidos.
Ciro Nogueira declara apoio pessoal a Flávio
Apesar da posição de neutralidade adotada pelo PP, Ciro Nogueira declarou apoio pessoal a Flávio Bolsonaro.
A situação evidencia a diferença entre a posição institucional de um partido e as escolhas individuais de suas principais lideranças.
O mesmo fenômeno pode ocorrer em outras legendas, especialmente nos estados, onde candidatos e dirigentes possuem alianças políticas próprias.
Gilberto Kassab afirma que Centrão está com Lula
O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, também entrou no debate sobre a posição do centro político.
Kassab afirmou que, na avaliação dele, o Centrão estaria atualmente mais próximo de Lula.
A declaração, entretanto, não significa que todas as legendas classificadas como integrantes do Centrão tenham formalizado apoio ao presidente.
A composição desse grupo é ampla e reúne partidos com posições diferentes, além de lideranças que podem adotar estratégias distintas.
Eleição para o Congresso será decisiva
Com a campanha eleitoral oficialmente iniciada, a disputa pelas vagas na Câmara dos Deputados e no Senado ganha importância ainda maior.
Além da escolha do presidente e dos governadores, os eleitores definirão a composição do Legislativo para os próximos quatro anos.
A distribuição dessas cadeiras poderá influenciar diretamente a capacidade de qualquer futuro presidente de aprovar projetos e implementar sua agenda.
Por isso, partidos que optaram pela neutralidade na disputa presidencial também concentram esforços na eleição de deputados federais e senadores.
O que está em jogo para o Centrão
A estratégia dos partidos de centro envolve, portanto, mais do que escolher um candidato presidencial.
Há uma disputa simultânea por:
- vagas na Câmara dos Deputados;
- cadeiras no Senado Federal;
- governos estaduais;
- participação nas mesas diretoras do Congresso;
- presidências de comissões;
- relatorias de projetos importantes;
- espaço na formação do próximo governo federal.
A eleição de 2026 poderá redefinir o equilíbrio de forças entre direita, esquerda e centro no Congresso Nacional.
Cenário será definido pelas urnas
A decisão de partidos como União Brasil, PP, Republicanos e MDB de preservar maior liberdade na eleição presidencial mantém aberto o cenário de alianças para 2027.
Ao mesmo tempo, a disputa por uma bancada numerosa pode ser ainda mais importante para essas legendas.
O resultado das urnas determinará não apenas quem ocupará a Presidência da República, mas também qual será a correlação de forças no Congresso Nacional.
Assim, a estratégia do Centrão nas eleições de 2026 deverá continuar sendo acompanhada até o fim da campanha, especialmente pelas movimentações estaduais e pela formação das bancadas que tomarão posse em 2027.




