Quando o Monte Vesúvio entrou em erupção, no ano 79 d.C., Pompeia e cidades próximas foram soterradas por cinzas e fragmentos vulcânicos. Quase 2 mil anos depois, materiais preservados pela tragédia estão ajudando cientistas a descobrir quais aromas faziam parte dos rituais religiosos realizados nas casas romanas.
Um estudo publicado na revista científica Antiquity, da Cambridge University Press, analisou resíduos queimados preservados dentro de dois incensários de terracota.
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do Metrópoles
O que as cinzas revelaram
- Madeira: foi queimada nos dois recipientes, como combustível ou oferenda;
- Plantas: há vestígios de frutas de caroço ou plantas da família do louro;
- Incenso: foram encontradas resinas aromáticas originárias da Ásia ou da África Subsaariana;
- Uvas ou vinho: um dos recipientes apresentou sinais que podem estar relacionados a uvas ou vinho;
- Rituais domésticos: os achados ajudam a entender quais materiais eram queimados em cerimônias religiosas dentro das casas.
Para descobrir o que havia nos recipientes, pesquisadores de instituições da Alemanha, Zurique e da Irlanda combinaram diferentes métodos. A equipe examinou pequenos restos preservados nas cinzas e utilizou técnicas químicas capazes de identificar moléculas deixadas pelos materiais queimados.
A descoberta mais importante foi a presença das resinas da família Burseraceae. Segundo os cientistas, elas provavelmente chegaram à região por rotas comerciais de longa distância, já que plantas da família são encontradas na Ásia e na África Subsaariana.
O achado representa a primeira evidência arqueológica de oferendas de incenso em cultos domésticos na região de Pompeia. A prática já era conhecida por textos e imagens da época, mas faltavam provas físicas preservadas nos próprios recipientes.
Religião dentro de casa
A Pompeia possuía centenas de pequenos espaços religiosos domésticos, conhecidos como lararia. Neles, moradores faziam oferendas a divindades ligadas à proteção da família e da casa.
Registros antigos indicam que incenso, vinho, frutas, cereais e flores podiam fazer parte das cerimônias. A nova análise oferece evidências materiais de algumas dessas práticas.
Em um dos incensários, os pesquisadores encontraram compostos relacionados à uva que poderiam indicar a presença de vinho ou outro produto feito da fruta. Os autores, porém, alertam que ainda não é possível confirmar que vinho tenha sido usado no ritual
Uma nova forma de conhecer Pompeia
Os pesquisadores destacam que ainda existem limitações. O histórico dos objetos após as escavações no século 20 não é totalmente conhecido, o que exige cautela na interpretação de alguns resíduos.
Mesmo assim, a pesquisa permite reconstruir uma parte pouco conhecida da vida romana. Durante determinados rituais domésticos, o ambiente poderia reunir fumaça de madeira, plantas e o aroma de resinas trazidas de regiões distantes.
Mais do que revelar um único “cheiro de Pompeia”, as cinzas mostram como os aromas faziam parte da religião e do cotidiano dos moradores antes da erupção do Vesúvio.
Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Isabella França.




