Com gostinho de “quero mais”, “Marrom, o Musical” multiplica Alcione no palco
Nova montagem do espetáculo aposta nas raízes maranhenses com um elenco de vozes poderosas; entre acertos, biografia cede mais espaço ao show
Antes de Marília Mendonça ensinar uma geração inteira a sofrer cantando, Alcione já fazia o brasileiro transformar desilusão amorosa em coro coletivo. É difícil ouvir “Você Me Vira a Cabeça” ou “Estranha Loucura” e não sentir que, em algum momento da vida, Marrom cantou diretamente para você. E é justamente a dimensão dessa artista que “Marrom, o Musical” tenta colocar no palco.
O portal LeoDias acompanhou, na última quinta-feira (10/9), o ensaio aberto da nova montagem do espetáculo, no Teatro Claro+, em São Paulo, e conversou com idealizador, direção e elenco. A produção estreia oficialmente nesta sexta-feira (11/9) e ficará em cartaz até 25 de outubro, antes de seguir em turnê pelo país. O musical tem texto de Miguel Falabella, idealização de Jô Santana e, nesta remontagem, direção conjunta de Falabella e Iléa Ferraz. No total, são 23 artistas em cena.
Veja as fotos
“Marrom, o Musical” celebra 50 anos de carreira de AlcioneCrédito: Caio Galucci Coletiva de imprensa com cenas de “Marrom, o Musical”Crédito: Heloísa Cipriano/Portal LeoDias Coletiva de imprensa com cenas de “Marrom, o Musical”Crédito: Heloísa Cipriano/Portal LeoDias Coletiva de imprensa com cenas de “Marrom, o Musical”Crédito: Heloísa Cipriano/Portal LeoDias Jô Santana e Miguel Falabella com AlcioneCrédito: Reprodução Instagram @marromomusical
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Falar de Alcione sem falar do Maranhão seria quase como tentar explicar Marrom sem samba. Talvez uma das maiores qualidades de Jô Santana enquanto idealizador de musicais biográficos seja justamente a capacidade de entender que uma pessoa não começa no momento em que fica famosa. Ela começa no lugar de onde veio. Foi assim recentemente ao levar aos palcos a história de Fafá de Belém e acontece novamente aqui.
No caso de Alcione, a porta de entrada é o Bumba Meu Boi. Jô contou ao portal LeoDias que a ideia nasceu quando conheceu de perto a manifestação popular em São Luís, no Maranhão. “Eu fui ver o festival de cinema e vi o boi, eu enlouqueci! Aí eu chamei Miguel [Falabella] para escrever o texto, Miguel topou e disse: ‘Vamos contar a história através do boi’”, lembrou.
Não se trata apenas de decoração regional. Na dramaturgia, Catirina e Pai Francisco, personagens tradicionais da narrativa do Bumba Meu Boi, atravessam a história de Alcione e funcionam como fio condutor, recurso que já estava presente na montagem original, de 2022.
Quem costura esse universo agora é também Cazumbá, vivido por Eduardo Guimarães. Figura ligada à tradição do Bumba Meu Boi, ele abre e encerra a narrativa como uma espécie de mestre de cerimônias entre o real e o encantado. Em seu primeiro musical, Eduardo encontrou no corpo o caminho para construir o personagem. “A primeira coisa que eu peguei foi a gestualidade do ritmo, do pé de dança dele pra marcar isso e trazer pra compor meu personagem junto com o texto”, explicou. E é justamente aí que “Marrom” escapa, por alguns minutos, da lógica tradicional do musical biográfico.
Há momentos em que o corpo conta aquilo que a palavra não precisa explicar. Quando o boi surge, por exemplo, não é necessário colocar literalmente um animal em cena para que ele exista. O ator empresta sua anatomia à criatura, remontando ao que se estuda do diretor francês Antonin Artaud. No século XX, Artaud foi um dos artistas que se rebelaram contra a supremacia do texto no teatro, defendendo uma linguagem cênica em que gestos, sons, luz, espaço e fisicalidade também produzissem significado. Isto não significa que “Marrom” seja um espetáculo artaudiano, pois não é, mas o boi é um belo exemplo de como o corpo pode dizer antes da palavra.
Também não espere encontrar aquela biografia organizada como uma página da Wikipédia: nasceu, cresceu, começou a cantar, fez sucesso e fim. A narrativa é não linear, recurso incorporado ao teatro moderno e contemporâneo depois das inúmeras rupturas do século XX com a dramaturgia tradicional.
Em “Marrom”, conhecemos Alcione por fragmentos: a menina do Maranhão; a filha de João Carlos e Filipa; a irmã em uma casa abarrotada de crianças, já que ela cresceu entre nove irmãos; a jovem que parte para o Rio de Janeiro; a mulher que ama e que sofre; e a artista.
As várias Alciones
Além disso, não existe uma atriz incumbida de “ser Alcione”. Ester Freitas, Letícia Soares e Lilian Valeska estão entre as intérpretes que assumem diferentes momentos e faces de Marrom. Outras mulheres do elenco também passam por ela ao longo da montagem. A proposta repete um princípio existente desde a versão original: Alcione pode ser muitas.
Ester Freitas, que entrou nesta segunda montagem, resume bem essa ideia: “Nunca foi minha intenção imitar a Alcione. Eu acho que a minha ideia é trazer a Alcione que tem dentro de mim e eu acho que cada pessoa tem, sabe?”, contou ao portal Leo Dias.
Lilian Valeska sabe disso melhor do que ninguém. Integrante também do elenco de 2022, ela interpreta primeiro Dona Filipa, mãe da cantora, antes de assumir uma Alcione madura no segundo ato. “Imitar Alcione é impossível. Ou você nasce com aquele DNA, com aquele timbre… Então a gente fez uma homenagem, a gente tenta internalizar o que a gente vê, o que a gente ouve, o que a gente sabe dela”, disse.
Já Letícia Soares, que também participou da primeira versão, reencontrou a personagem quatro anos depois e percebeu que parte dela continuava guardada no corpo. “No primeiro ensaio eu pensei: ‘Gente, eu dançava isso? Eu cantava isso?’. Na hora que começava a música eu cantava como se tivesse estado ali. Foi muito bonito reencontrar um trabalho que foi bem sedimentado na montagem anterior e não só em vários momentos de ‘Marrom’”, contou.
Mudanças na nova montagem
Quatro anos depois, o boi, a estrutura fragmentada e várias das ideias fundamentais permanecem, mas Jô Santana aponta uma diferença importante: os corpos que ocupam o palco. “Nós adaptamos para o momento de hoje. Eu acho que a gente tem corpos pretos, têm uma travesti também. Na coreografia a gente fala desse momento nesses corpos reais”, afirmou.
A questão não é pequena para um projeto que nasceu justamente de uma inquietação do idealizador com a ausência de artistas negros nos grandes musicais brasileiros. “Eu queria me ver representado”, disse Jô, ao recordar o ponto de partida da chamada Trilogia do Samba, iniciada com “Cartola – O Mundo é um Moinho”, seguida por “Dona Ivone Lara – Um Sorriso Negro” e encerrada originalmente por “Marrom”. A trilogia e sua cronologia são registradas também nos materiais da montagem de 2022.
Iléa Ferraz também chama atenção para esse aspecto da remontagem: a possibilidade de colocar artistas negros não como exceção, mas no centro da cena. “O primeiro elenco já tinha uma excelência enorme. Esse mantém essa excelência, essa qualidade de artistas fenomenais que cantam, dançam, atuam com muito virtuosismo”, destacou ela.
Mais música, menos história
As vozes são marcantes, o elenco tem presença, os números coletivos têm força e existe uma segurança de palco que apareceu até nos pequenos deslizes naturais de um ensaio aberto. Houve troca ou tropeço em fala? Segue o baile!
Mas o mesmo problema que já rondava a primeira montagem continua por aqui: queremos saber mais sobre Alcione e, muitas vezes, recebemos outra música dela no lugar. As canções são tão boas que você se diverte. O problema é justamente esse: em especial no segundo ato, “Marrom, o Musical” vai deixando a produção biográfica de lado e se aproximando cada vez mais de um show-tributo. E a vida dessa mulher de unhas gigantes? Fica aquele gostinho de “quero mais”.
Maurício Xavier, que interpreta João Carlos, pai da cantora, entrega uma das pistas de como essa intimidade poderia render mais. “Eu costumo dizer que o pai da Marrom é uma responsabilidade muito grande porque ele significa aquilo que a gente também tem na nossa casa, a herança dos nossos pais, de comportamento, de como se portar no mundo. E ele passa pra ela o talento, ele que dá o primeiro instrumento pra ela, e dá esse grande incentivo”.
E cadê “Meu Ébano”?. Uma das músicas mais consagradas da carreira de Alcione novamente ficou fora do repertório. A ausência já havia provocado comentários do público na primeira temporada. Quatro anos se passaram, nova montagem, novo elenco e continuamos sem “tirar o chapéu”.
A vontade de ter uma biografia mais detalhada pode também ser preciosismo pessoal. Existe uma tendência de o público esperar que um musical biográfico entregue uma trajetória cronológica, mas teatro do último século trabalhou justamente para provar que não precisa ser assim.
“Marrom” prefere perguntar “Quem é Alcione?”, em vez de simplesmente responder: “O que aconteceu com Alcione?”. Nesse sentido, a montagem sabe exatamente o que quer ser.
A iluminação merece atenção especial. Com desenho de luz assinado por Paulinho Medeiros, o recurso não parece existir apenas para tornar os atores visíveis, mas para completar as cenas. Quando a história encontra a Mangueira, escola de samba do coração de Alcione, não é preciso explicar muito mais, e o palco ganha verde e rosa.
No fim das contas, talvez “Marrom, o Musical” consiga realizar exatamente aquilo que Jô Santana disse ao portal Leo Dias sobre Alcione: “Ela canta todos os todos os tipos de amor. Desde o amor mais romântico, mais aconchegante, até um amor mais conturbado”.
Você pode sair como eu, querendo saber muito mais sobre a mulher Alcione, sentir falta de cantar “moleque levado, sabor de pecado, menino danado”, e pode achar que o musical virou show. Mas dificilmente sairá indiferente! O mais provável é deixar o teatro cantarolando “Marrom” pelo corredor.
Nota: 9/10
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Conteúdo reproduzido originalmente em: Leo Dias por Heloísa Cipriano.




