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Cracolândia: como a arte é usada por coletivos na abordagem a usuários

Por Nicole Braga
Cassio Rothschild

O atendimento aos frequentadores da Cracolândia, na região central da capital paulista, não se restringe a equipes do governo do estado e da Prefeitura de São Paulo. Organizações não governamentais e coletivos sem fins lucrativos também atuam na área há anos, oferecendo alternativas de tratamento, lazer e educação. Um dos métodos mais utilizados por esses grupos é a chamada Redução de Danos — estratégia implementada no Brasil na década de 1980, inicialmente em Santos, no litoral paulista, em meio à epidemia de HIV.

A partir de maio de 2025, no entanto, com o “espalhamento” dos dependentes químicos, essas organizações tiveram que adaptar sua forma de atuação para continuar dando acolhimento a essa população.

Coletivos como o “Teto, Trampo e Tratamento” (TTT) e o “Pagode na Lata”, por exemplo, reorganizaram suas frentes e concentraram sua atuação em locais específicos, como os Centros de Atenção Psicossocial (Álcool e Drogas). Ainda assim, segundo representantes dos grupos, o volume de assistidos diminuiu significativamente.

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Bateria do “Teto, Trampo e Tratamento” na Praça General Osório

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Bateria do “Teto, Trampo e Tratamento” na Praça General Osório

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Bateria do “Teto, Trampo e Tratamento” na Praça General Osório

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Bateria do “Teto, Trampo e Tratamento” na Praça General Osório

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Bateria do “Teto, Trampo e Tratamento” na Praça General Osório

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Dependentes químicos em cruzamento da Rua dos Protestantes com a Rua dos Gusmões, na Cracolândia

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Cracolândia antes, na região onde fica a atual Praça do Triunfo

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Cracolândia antes, na região onde fica a atual Praça do Triunfo

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Ferro velho na Cracolândia

Reprodução/MPSP10 de 13

Estudo identificou beneficiários do Bolsa Família entre frequentadores da cracolândia

Divulgação/Ricardo Nunes11 de 13

Fluxo da Cracolândia entre a Rua dos Gusmões e dos Protestantes

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Guardas municipais observam movimento de dependentes químicos em cruzamento da Rua dos Protestantes com a Rua dos Gusmões, na Cracolândia

William Cardoso/Metrópoles13 de 13

Usuários da Cracolândia se aglomeram ao redor da Estação da Luz, em São Paulo

Reprodução

Arte e resistência

Ambos os coletivos apostam em iniciativas de arte e educação como principal forma de criar vínculo com os usuários, oferecendo um ponto de apoio e dignidade. Segundo os ativistas, a política do trabalho é antiproibicionista — ou seja, os usuários não precisam, necessariamente, estar em abstinência total para receber o atendimento.

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do Metrópoles SP

O objetivo principal, de acordo com Lydia Gama, advogada e coordenadora do TTT, é fazê-los voltarem a se enxergar como seres humanos e a enxergar outras perspectivas de vida, mesmo que ainda sejam usuários de substâncias.

“Tudo que falaram para ela [a pessoa que frequentava as cenas de fluxo] é que ela é um zumbi, que está errada… O nosso trabalho não é só fazer com que a sociedade entenda, é fazer com que eles entendam também que são humanos”, diz Lydia.

O “Teto, Trampo e Tratamento” oferece, durante a semana, oficinas e encontros para os participantes, abordando temas como Letramento e pensamento crítico e Ritmo e escrevivências. Além disso, o coletivo estimula a educação financeira, através de frentes de trabalho organizadas pela Operação Trabalho (POT). Em parceria com a prefeitura, o POT disponibiliza vagas com foco em inclusão social e qualificação profissional às pessoas em situação de vulnerabilidade.

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Lydia conta que o que mais conecta os participantes ao TTT é a arte, principalmente os encontros de bateria que, atualmente, acontecem na praça General Osório, nas tardes de segunda a sexta-feira. O estímulo à produção artística, segundo ela, também abre caminhos para a profissionalização. Ao transformar o interesse pela música ou pela arte em uma oportunidade de geração de renda, os participantes encontram meios para se reorganizar e se restabelecer. Ao acessar novos ambientes, eles se distanciam do cenário de vulnerabilidade social e encontram trajetórias mais dignas.

O “Pagode Na Lata” segue a mesma premissa e, atualmente, é formado por 10 pessoas, sendo seis delas ex-moradores ou frequentadores da Cracolândia. O coletivo, que antes tocava apenas gratuitamente dentro do fluxo, hoje se apresenta em diversos ambientes e serve como fonte de renda aos participantes.

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Grupo “Pagode Na Lata” se apresentando no antigo território da Cracolândia

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Grupo “Pagode Na Lata” se apresentando no antigo território da Cracolândia

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Grupo “Pagode Na Lata” se apresentando no antigo território da Cracolândia

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Grupo “Pagode Na Lata” se apresentando no antigo território da Cracolândia

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Grupo “Pagode Na Lata”

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Grupo “Pagode Na Lata” se apresentando no antigo território da Cracolândia

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Grupo “Pagode Na Lata” se apresentando no antigo território da Cracolândia

Cassio Rothschild

Leonardo dos Santos, integrante do grupo e ex-orientador socioeducativo do programa De Braços Abertos, diz que o impacto das rodas não se restringe aos músicos fixos. Engloba também, segundo ele, todos aqueles que param para acompanhar o show. O grupo também oferece aos participantes escuta ativa, informações sobre onde encontrar tratamento e momentos de lazer acessíveis, prática essencial dentro da política de Redução de Danos.

“Por exemplo, quando a gente vai no bar da Nice [ponto de encontro frequente do grupo], a gente também cuida do entorno, porque é naquele momento que as pessoas deixam de usar a substância, nem que seja o mínimo possível, para curtir uma roda de samba”, conta Leonardo “Tinha um homem que dizia que, em uma hora, usava 80 pedras de crack. Se ele está há uma hora, duas horas em uma roda de samba, ele deixou de usar 160 pedras”, afirma.

O que é a terapia de Redução de Danos

  • A estratégia de Redução de Danos foi usada pela primeira vez na Cracolândia, como projeto oficial, através do programa De Braços Abertos (DBA), instaurado na gestão do ex-prefeito Fernando Haddad (PT), em 2014.
  • Esse tipo de política é ancorado no realismo e nos direitos humanos. O foco primordial não é erradicar o uso da droga, mas garantir que esses usuários possam preservar sua integridade e sua vida enquanto fazem uso da substância.
  • Profissionais da área destacam que, para lidar com adictos, é importante entender primeiro a situação social daquela pessoa. “Eu acho que, para além do uso da substância, que é só a cereja do bolo […] É a falta de educação, é a falta de trabalho, é a falta de assistência social, é a falta de acesso à saúde clínica e mental […] A situação de vulnerabilidade alcança essas pessoas antes de elas conhecerem a droga”, diz Leonardo dos Santos, integrante do coletivo “Pagode na Lata” — iniciativa cultural e de Redução de Danos que atua no território — e ex-orientador socioeducativo do DBA.
  • Essa lógica trouxe resultados promissores. De acordo com a pesquisa Potencialidades e desafios de uma política pública intersetorial em drogas: o Programa De Braços Abertos de São Paulo, Brasil, realizada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), aponta que 87,90% dos respondentes reduziram o uso de crack.
  • Antes do programa, 12% deles consumiam 60 a 80 pedras da droga por semana. Após o De Braços Abertos, apenas 1% continuou a consumir essa quantidade. Além disso, 83,73% declararam estar em tratamento de saúde.

Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Nicole Braga.