ACRE

Criança infarta na Fundhacre, Samu nega ambulância e médica paga Uber até o PS

Por

16 Nov de 2019 do YacoNews


Denúncia feita com exclusividade ao Diário do Acre revela uma série de trapalhadas cometidas pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), na última quinta-feira (13). A negligência dos servidores do órgão poderia ter, inclusive, custado a vida de uma criança que recebia atendimento na Fundação Hospitalar. Ela só não morreu porque a médica, a cardiopediatra Melissa Chaves Vieira, pagou do próprio bolso a corrida de Uber até o Pronto Socorro do Hospital de Urgência e Emergência de Rio Branco (Huerb).

De acordo com relato feito por uma servidora da Secretaria de Estado de Saúde (Sesacre), a criança estava com a mãe na Fundhacre e foi submetida a um ecocardiagrama. Através deste se identificou o princípio de infarto.  

A doutora Melissa então acionou o Samu, mas seu pedido de transporte até o Pronto Socorro foi recusado. Como a paciente começou a passar mal minutos depois, e a mãe não dispunha de meios para arcar com a condução, a médica se viu obrigada a chamar um Uber a bordo do qual encaminhou a vítima ao Huerb.

“A mãe da criança não tinha condições, a criança era cardíaca, estava infartando, não tinha condições nenhuma de [se fazer a] desfribilação na Fundação. A doutora mais do que depressa ligou pro Samu, e o Samu se recusou a ir buscar a criança”, sustenta a funcionária em um áudio que pode ser conferido ao final desta reportagem.

Através da narrativa é possível vislumbrar uma série de erros cometidos por servidores do Samu e nomeados para cargos de confiança na Sesacre. E se pode entrever também que os serviços de saúde, ao passo que não estão acessíveis a muitos acreanos que aguardam atendimento (em alguns casos até a morte), são facilitados a outros, graças às relações que mantêm com os poderosos de plantão.

O áudio enviado ao site começa com a notícia de um paciente encaminhado de Cruzeiro do Sul à Fundação Hospitalar depois de um acidente não especificado. Graças à amizade que ele mantém com a família Cameli, seu translado foi garantido pela empresa que presta serviços de transporte aéreo para o setor do TFD (Tratamento Fora de Domicílio).  

Acamado, e sob risco de ficar paraplégico, o paciente teria chegado à capital sob recomendações feitas pelo próprio governador Gladson. Uma delas era de que necessitava de uma cama especial que em Rio Branco só existe na Maternidade Bárbara Heliodora. O equipamento então foi removido de lá e levado à Fundação.    

Na última quinta-feira, o paciente recebeu alta médica e seu regresso foi marcado para às 11h40, quando o chamado Aeromed pousaria no aeroporto da capital para levá-lo de volta ao Juruá.

Aconteceu, porém, que a turma de nomeados pelo governador na Sesacre esqueceu de avisar à direção do Samu, e quando uma ambulância foi solicitada, por volta das 11h, o motorista – que não sabia de quem se tratava – teria se recusado a buscar o protegido de Cameli para deixá-lo no aeroporto, sob a justificativa de que estava próximo ao horário de almoço.

“Quando descobriram quem era o paciente todo mundo ficou desesperado”, diz a denunciante, que em seguida avisa: “Vai ser uma bomba na segunda-feira. Uma bomba!”.

A reportagem editou o áudio para distorcer a voz da servidora, resguardando-a de possíveis retaliações – e também para preservar nomes de pessoas envolvidas nos episódios narrados por ela. 

Archibaldo Antunes, do Diário do Acre