Hamlet, escrita por William Shakespeare, é uma das mais importantes criações teatrais de todos os tempos. Considerada a tragédia mais conhecida, adaptada e representada da história do teatro mundial, a história chega de maneira triunfal à cidade de São Paulo com uma concepção impecável em um espaço que utiliza os destroços para potencializar a dramaticidade.
A trama acompanha os eventos que sucedem a morte do rei da Dinamarca, o príncipe Hamlet (Gabriel Leone) vê seu tio Claudio (Eucir de Souza) assumir o trono e casar-se com sua mãe Gertrudes (Susana Ribeiro). Suspeitando das circunstâncias da morte do pai, Hamlet decide fingir loucura para investigar a verdade e testar os limites do poder, das paixões humanas e da própria razão.
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A peça é encenada em meio as obras do futuro Nu Cine Copan – previsto para inaugurar em 2027. Mas, antes disso, esse local que parou no tempo, vê sua ruína ganhar vida – e não existia ambiente melhor para a nova montagem de um clássico.
Hamlet é um deslumbre visual do momento em que chegamos ao foyer, com as paredes grafitadas com trechos do texto, até a hora que o espetáculo se encerra. Rafael Gomes, diretor do espetáculo, soube usar ao seu favor todo o espaço de um cinema com ares de abandono, forçando o olhar do público para todos os cantos. O uso criativo de plataformas sobre um trilho no qual os atores deslizam de uma extremidade para a outra é um dos elementos que auxiliam esse olhar.
Com uma cenografia caprichada, um figurino clássico com elementos modernos e uma trilha sonora marcante, é a iluminação criada por Wagner Antônio, que merece destaque maior. O público é transportado para diversos ambientes diferentes em cada cena com as alterações da luz, a impressão é que estamos vendo os enquadramentos de um filme ao vivo com cada recorte que é feito pela iluminação. Todos esses elementos criam um Hamlet urbano, que é fiel à obra original, mas, que consegue ter o DNA da cidade de São Paulo. Um verdadeiro espetáculo!
De nada adiantaria essa concepção artística sem um elenco incrível e, no caso, caro leitor, o que não falta é talento em cena. Samya Pascotto, que vive Ofélia, emociona o público em uma das sequencias mais marcantes; Eucir de Souza e Susana Ribeiro, intérpretes de Rei Claudio e Rainha Gertrudes, estão em ótima sintonia; Fafá Renó faz um Laertes odioso. Todos brilham!
No entanto, o destaque maior recai sobre Gabriel Leone, que entrega um Hamlet visceral. No papel do “príncipe da Dinamarca”, Leone domina o palco com uma entrega absoluta, equilibrando com maestria a melancolia, a loucura fingida e a fúria existencial que o personagem exige. É uma performance magnética que ancora toda a produção e justifica, por si só, o ingresso.
Essa montagem prova que Hamlet nunca fica velho. Ver o texto ganhar vida entre os destroços e o concreto do futuro Nu Cine Copan é um daqueles encontros raros entre o clássico e a energia urbana de São Paulo que a gente não vê todo dia. A produção é um lembrete poderoso de que Shakespeare continua atual, e quando a entrega do elenco e a estética do espaço conversam tão bem, o teatro deixa de ser só uma peça para virar uma experiência viva e imperdível.
Nota: 10/10




