Belo Horizonte — Foram quase três anos, cerca de 39 mil quilômetros, 16 países e uma rotina de até nove horas por dia na estrada até Lucca Cardoso Borges Rosa, de 27 anos, alcançar de bicicleta um destino que, durante a infância em Araxá, no Alto Paranaíba, parecia distante demais até para virar sonho: o Alasca.
O mineiro, formado em Engenharia Civil pela Universidade de São Paulo (USP), trabalhava com marketing digital em uma multinacional antes de iniciar a viagem.
“Chorei pra caramba. Foi um momento em que desabei mesmo, porque minha vida está voltada para essa viagem e para esse objetivo há sete anos”, contou ao relembrar a chegada ao destino final, em julho, sem avião ou carro, mas pedalando cada quilômetro do percurso.
A chegada ao Alasca, no entanto, ainda não encerrou a aventura. Lucca pretende continuar pedalando até setembro. A previsão é retornar ao Brasil na primeira semana de outubro, com aproximadamente 41 mil quilômetros percorridos.
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do Metrópoles
A paixão pela bicicleta
A bicicleta faz parte da vida do mineiro desde muito cedo. Filho de uma professora de educação física e de um pai apaixonado por esportes, ele aprendeu a pedalar ainda criança.
Mas foi durante a faculdade que ele começou a olhar as possibilidades de um pedal de forma diferente. Na época, Lucca morava em uma república e costumava pedalar com um colega. Os passeios eram curtos, normalmente de cerca de uma hora, até que o amigo o convidou para uma viagem. “Eu nem sabia que dava para viajar de bicicleta”, lembrou.
Em 2019, os dois foram de ônibus até a fronteira entre Brasil e Uruguai e passaram duas semanas pedalando pela costa. A experiência mudou os planos de Lucca, que decidiu que queria viajar pelo mundo, percebeu que queria fazer isso sobre duas rodas.
Anos de preparação
A partir daí, a vida passou a ser organizada em torno desse projeto. Ainda na faculdade, Lucca decidiu que precisava concluir o curso, economizar e se preparar fisicamente.
Dois anos depois da primeira experiência, usou o dinheiro que havia conseguido durante um estágio para fazer outra viagem, dessa vez por Santa Catarina e Paraná. A jornada, em janeiro de 2021, serviu para confirmar que era aquele o caminho que queria seguir.
Depois de se formar, conseguiu emprego na área de marketing digital e intensificou os treinos. Pedalava de três a quatro vezes por semana e aproveitava o trabalho remoto para economizar.
O plano inicial era mais modesto: “E aí começou com a ideia de fazer seis meses pela América do Sul, mas achei que seria pouco. Então, passou para um ano. Aí eu pensei: ‘Poxa, se eu vou fazer a América do Sul, sair do meu trabalho e ficar um ano viajando, vamos fazer a América Central e ir até o México’. Depois pensei: ‘Se eu vou até o México, já vai ser um ano e meio’. Falei: ‘Ah, vou até o Alasca’.”
A escolha pelo Alasca como destino final não surgiu por acaso. Desde criança, Lucca passou a ter muita curiosidade pelo lugar:
“Eu via filmes sobre o Alasca, via aqueles documentários no Discovery Channel. Sempre foi um lugar meio místico. A gente tem essa coisa na cabeça do brasileiro de: ‘Caramba, parece o lugar mais inóspito do mundo. Como as pessoas vivem lá? As pessoas vivem lá?,” questionava.
A ideia ganhou ainda mais sentido quando decidiu iniciar a viagem em Ushuaia, na Argentina, no extremo sul do continente. Chegar ao Alasca significaria atravessar as Américas praticamente de uma ponta à outra. “Eu sempre gostei dessas ideias dos extremos”, resumiu.
O início da viagem
Em 1º de outubro de 2023, Lucca embarcou em São Paulo rumo a Ushuaia, na Terra do Fogo. De lá, começou a longa jornada de bicicleta.
Desde então, passou por Argentina, Chile, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, El Salvador, Guatemala, Belize, México, Estados Unidos e Canadá. Nesta semana, enquanto conversava com a reportagem, estava no Canadá e somava cerca de 39 mil quilômetros.
E, durante esse longo trajeto, não há uma rotina fixa na estrada, já que clima, relevo e estrutura mudam de um país para outro. Na maior parte do tempo, porém, Lucca dorme em uma barraca, geralmente em locais gratuitos e em meio à natureza.
Pela manhã, prepara o café, desmonta o acampamento, organiza os equipamentos na bicicleta e volta à estrada. A meta costuma ser pedalar cerca de seis horas por dia. Com as pausas para comer, fotografar, descansar e conhecer os lugares, o percurso ocupa de oito a nove horas.
Por volta das 17h, começa a procurar onde passar a noite. Monta novamente a barraca, prepara o jantar e, normalmente, às 20h30 ou 21h já está dormindo.
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Os maiores desafios
Apesar dos milhares de quilômetros percorridos, Lucca diz que a maior dificuldade da viagem não foi física. O corpo, segundo ele, se adapta ao esforço. “A maior dificuldade mesmo é ficar longe da família. Ficar tanto tempo longe, ficar longe das pessoas que você ama, conviver com a solitude, né? Porque eu tô, muitas vezes, muito sozinho em cima da minha bicicleta.”
Isso não significa que o caminho tenha sido simples. Na Cordilheira dos Andes, enfrentou altitudes entre 4 mil e 5 mil metros, falta de ar e risco de mal de altitude. Já na Patagônia, a principal dificuldade foi o vento, forte a ponto de provocar interdições de estradas pelo risco de empurrar veículos para fora da pista.
As boas surpresas, e as diferenças culturais
A parte de que mais gostou, segundo Lucca, foi justamente perceber as diferenças culturais entre os países. “Tem alguns países em que é muito louco, assim, parece que você faz uma viagem no tempo. Tipo a Bolívia e a Nicarágua, parece que você está nos anos 1950. Eu estava pedalando por essas estradas de terra e passava por lugares em que as casas não tinham nem energia, eram casas de barro, com chão de barro e tudo mais”, contou.
Ele cita como exemplo o contraste que percebeu ao sair da Nicarágua e entrar na Costa Rica, muito mais moderna. O mineiro também observou grandes diferenças entre a América Latina e os Estados Unidos e o Canadá. “Mas posso dizer que, apesar das diferenças, vi muitas coisas similares.”
Para Lucca, uma dessas semelhanças está na disposição das pessoas em ajudar quem encontram pelo caminho. “A bicicleta traz essa solidariedade nas pessoas. Ela acaba despertando o melhor nas pessoas”, disse.
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Principalmente na América Latina, ele encontrou pessoas abertas e dispostas a recebê-lo. Lucca conta que, ao dizer que pretendia acampar, muitas vezes era convidado por moradores a dormir na casa deles. “As pessoas eram muito abertas e eu senti muito parecido com o Brasil.”
Ele conta que também foi muito bem recebido nos outros paises, mas notou diferenças na forma como as pessoas se aproximavam. “Eu parava a minha bicicleta em um mercado no México e todo mundo fazia uma roda ao meu redor, de gente curiosa querendo saber o que estava acontecendo”, contou.
Nos Estados Unidos e no Canadá, ele percebeu que as pessoas eram mais distantes no primeiro contato. “Você para e é só mais um. Acho as pessoas um pouco mais distantes, pelo menos nesse primeiro contato. Depois você começa a conversar e são seres humanos como todo mundo, independentemente do país. Acho que uma das minhas maiores lições, e que me surpreendeu muito, foi realmente encontrar essa bondade em todos os lugares”, contou.
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Economias e ajuda de seguidores
Lucca começou a se preparar financeiramente em 2019 e trabalhou por cerca de três anos para juntar dinheiro. Segundo ele, cerca de 90% dos gastos da viagem foram pagos com essas economias. Também recebeu um pequeno patrocínio no primeiro ano e doações de seguidores. Em momentos de maior necessidade, como para trocar equipamentos e chegar ao Alasca, recorreu a vaquinhas.
Mesmo após alcançar o destino final, a jornada de Lucca ainda não terminou, e ele precisa de apoio para se manter na estrada. Com as economias praticamente no fim, o ciclista conta com contribuições de seguidores para concluir o trecho pelo Canadá, onde pedala até setembro, antes de retornar ao Brasil em outubro. Quem quiser ajudar pode contribuir via Pix ou pela plataforma Buy Me a Coffee, com links disponíveis em seu perfil no Instagram (@hermanodasamericas).
Agora, ele ainda tenta assimilar a conquista. “Às vezes olho as fotos, olho no mapa e falo: ‘Cara, será que é verdade mesmo? Será que eu cheguei lá mesmo?’. Acho que só quando eu estiver no Brasil vou entender tudo o que aconteceu.”
Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Larissa Ricci.




