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Depois da Volkswagen: os homens que sobreviveram à escravidão na Amazônia

Por Camila Xavier

os homens que sobreviveram à escravidão na Amazônia

Em meio a estradas esburacadas e pontes precárias, construídas parte em madeira, parte em concreto,
esconde-se a Vila do Cristalino, no Pará. As ruas são de chão batido, repletas de casinhas de madeira
intercaladas com alguns casarões de tijolo, como se o tempo tivesse parado em um intervalo qualquer da década
de 1970. Se não fossem os morros ao fundo, recobertos por uma mata remanescente — mistura de Floresta
Amazônica densa com a vegetação mais rala do Cerrado —, seria impossível imaginar o que aquela paisagem foi um
dia.

Os largos pastos de gado que dominavam o horizonte deram lugar a um tapete de soja e sorgo. Aqui e ali, uma
ou outra cabeça de gado sobrevive. Valdeci Fumeiro, 74 anos, chegou em 1979 e nunca mais saiu. Quando vê fotos
antigas, inclina-se e aponta o que já não existe mais. “Hoje virou só soja, acabou tudo.” 

Para quem vem de fora, é difícil acreditar que entre 1974 e 1986 essa vila pacata, onde quase todo mundo se
conhece, foi o coração da Fazenda Vale do Rio Cristalino, mais conhecida como Fazenda Volkswagen.

De fala mansa e memória afiada, Edmilson Pereira, 74, lembra da primeira derrubada como se ainda ouvisse o
estalo da madeira. Chegou quando tudo era apenas projeto e mata fechada. Conta que ajudou a erguer, em 1974,
as primeiras paredes de pau a pique e os telhados cobertos de palha de bananeira que improvisaram a sede. 

Luís Nova / Metrópoles

Edmilson Pereira chegou em 1974 à região em que seria implantada
a Fazenda Vale do Rio Cristalino, conhecida como Fazenda Volkswagen

A guarita permanece quase intacta, apenas encoberta por uma camada de mato alto. Os casarões espalhados pela
vila guardam, por trás das fachadas, a história de diretores e altos funcionários que viveram ali. 

No antigo escritório da fazenda, um casal transformou salas em quartos de pousada. Mas é a escola municipal
que carrega, na porta, a marca mais explícita do projeto alemão: até hoje o estabelecimento de ensino se chama
Wolfgang Sauer, nome do então presidente da Volkswagen do Brasil e da Companhia Vale do Rio São Cristalino, a
subsidiária que comandou a fazenda. 

Luís Nova / Metrópoles

Legenda aqui

Quem atravessou o chamado milagre econômico talvez ainda se lembre dos slogans da Ditadura Militar para
justificar a ocupação da Amazônia por grandes grupos empresariais: “Integrar para não entregar” e “Amazônia:
terra sem homens para homens sem terra”. Foi nesse clima de propaganda oficial que a Volkswagen chegou ao sul
do Pará. A compra e a ocupação de um terreno de aproximadamente 139 mil hectares, um pouco maior do que a
cidade do Rio de Janeiro, só se tornaram possíveis graças a investimentos diretos e incentivos fiscais,
articulados sobretudo pela Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) e pelo Banco da Amazônia. O
Ministério Público do Trabalho (MPT) calcula que o montante das benesses ultrapassou R$ 700 mil, em valores
atualizados de 2026.

Propaganda: em revistas da época, montadora alemã explicita aliança com a
ditadura militar

Homens em busca de trabalho

Luís Nova / Metrópoles

Raul Batista e dois de seus irmãos foram aliciados por “gatos” para
trabalho análogo à escravidão: “Nós confiou”

Às margens do Rio Tocantins, em Porto Nacional, cidade histórica a cerca de 420 quilômetros da fazenda, um
grupo de oito jovens ouviu, em 1986, uma promessa que parecia mais promissora do que qualquer outra que já
tinham recebido. Fariam serviço para uma multinacional e ganhariam mais do que nas roças da região. O convite
veio de um vizinho, Hiltomar, o “gato” encarregado de levá-los. Não houve tempo para dúvidas: aceitaram quase
de imediato. 

Raul Batista, 68, foi um deles. Seus irmãos Raimundo, 55, e Juldemar, 72, também. Na época, eles tinham 26,
16 e 32 anos, respectivamente. O pai fora obrigado a vender a pequena fazenda em Monte do Carmo, a 44
quilômetros de Porto Nacional, onde a família sempre viveu, e o caminho os levou à cidade vizinha. Sem roça e
sem renda, a saída parecia ser subir no caminhão que os levaria ao Pará. 

“Nós confiou que ia ganhar um bom dinheiro pra poder voltar pra casa”, explica Raul. Alto, sempre com uma
piada pronta, ele fala sorrindo. Quando a conversa inclui a palavra “Volkswagen”, a voz baixa, o sorriso se
apaga e os olhos marejam.

Luís Nova / Metrópoles

Arapuca no Pará: Manoel Melquíades tinha 22 anos quando saiu de Porto
Nacional (TO) rumo à Fazenda Volkswagen

Manoel Melquíades, 65, entrou no mesmo caminhão, naquela data, com 22 anos. Também atrás de trabalho: em
Porto Nacional, “era ruim de serviço”. Alto como Raul, costuma rir das piadas do amigo. Quando fala da
Volkswagen, as frases ficam mais curtas, o tom endurece, como se as palavras não dessem conta do que viu. Além
deles, foram na mesma leva Lourival Bezerra, Julio Bezerra, Edmar Ribeiro e João Corado. 

“Iam trabalhar, iam ganhar dinheiro, mais do que estavam habituados. Era um passeio também, iam
conhecer outro estado, outro município. Então, tudo parecia muito interessante para esses jovens”, explica o
padre Ricardo Rezende, hoje professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenador do
Grupo de Pesquisa Trabalho Escravo Contemporâneo (GPTEC). 

⁠Fotos da época em que o empreendimento funcionou anexadas ao
processo judicial

Ricardo integrava a Comissão Pastoral da Terra quando a Fazenda Volkswagen funcionava e foi um dos principais
responsáveis por levar as denúncias dos rincões do Pará para o Brasil afora. 

O esquema da empresa repetia o das grandes fazendas da região. A Volkswagen assinava contratos com
empreiteiros — os “gatos” —, e estes contratavam peões para derrubar a floresta, abrir pastos e levantar a
sede e os currais. Francisco Andrade Chagas, o Chicô, e Abílio Dias Araújo, o Abilião, eram os principais
“gatos”. Outros nomes completavam a lista, como Dilson de Souza Monteiro, Hiltomar de Souza Monteiro e
Batista. De Goiás e Tocantins – ainda era um só estado –, de Mato Grosso, do Piauí, do Ceará, vinham rapazes
muito jovens, alguns adolescentes, carentes de terra e de dinheiro.

Wolfgang Weihs/ Getty Images

⁠Aliança com o poder: empreendimento de 1.393,92 km² era destinado à
pecuária

Do nordeste de Mato Grosso, outro grupo tomou o mesmo rumo. Cinco rapazes de Canabrava do Norte – Francisco
Rezende, José de Ribamar, José Libório, José Pereira e Pedro Vasconcelos – se conheciam do grupo de jovens da
igreja e dos jogos de futebol dos fins de semana. O que os convenceu não foi só o dinheiro. O “gato” Batista,
morador da mesma cidade, falou em um campo gramado na fazenda. “Levamos a chuteira e tudo”, lembra Pedro
Vasconcelos, 60, um homem de poucas palavras que esqueceu quase tudo daquele tempo em que tinha 17 anos,
exceto a imagem da chuteira que nunca calçou.

Luís Nova / Metrópoles

 Expectativas frustradas: Pedro Vasconcelos tinha 17 anos e sonhava em
jogar futebol na fazenda

Para os rapazes de Canabrava do Norte, os primeiros sinais do golpe apareceram ainda na estrada. A poucos
quilômetros da saída, na primeira parada, encontraram um homem dormindo bêbado no chão. Batista o ergueu e o
jogou na traseira do caminhão. Mais adiante, o rapaz acordou, desnorteado, e quis saber para onde estava indo.
Quando ouviu “Fazenda Volkswagen”, reagiu: não tinha recebido um centavo e agora estava sendo levado para um
serviço. A história é desenhada com riqueza de detalhes por José de Ribamar, 60. O senhor, que naquele tempo
também tinha 17 anos, tem fala mansa, mas sabe dosar a força das palavras para contar sobre aquele trajeto que
lembra como se tivesse feito ontem. 

Mais de 300 quilômetros depois, em Barreira de Campo, a cidade mais próxima da fazenda naquele tempo, outro
homem bêbado, rastejando, foi recolhido e somado ao grupo. “Nós fiquemos todo mundo olhando com os olhos
grande, sem falar nada”, diz Ribamar. Na chegada à fazenda, passaram de caminhão ao lado do campo de futebol.
A grama, vista de longe, parecia um tapete. As chuteiras permaneciam na bagagem. “Nós não foi nenhuma vez no
campo de bola. Ficava longe, uns 100 quilômetros para dentro da mata”, ele lembra.

Luís Nova / Metrópoles

Francisco Rezende, do grupo de Canabrava do Norte, guarda memórias
sofridas: “Foi luta”

Um terceiro do grupo, Francisco Rezende, 63, tinha 23 anos quando foi para a fazenda.Ele se esforça hoje para
articular as palavras. Fala baixo, como se engolisse as sílabas. As poucas que saem inteiras são as que
guardou da fazenda: “sofrimento”, “foi duro”, “luta”.

Até mesmo Edmilson, acostumado a empreitadas desde 1970, acabou fisgado pela fama da firma alemã. Trabalhou
para cinco “gatos”, entrou e saiu da fazenda mais de uma vez, até descobrir, muitos anos depois, o nome do que
viveu ali.

Trabalho, medo e sobrevivência

Apesar de terem chegado em anos diferentes e por estradas que não se cruzaram, os homens que passaram pela
Fazenda Volkswagen contam a mesma história. O dia começava cedo e terminava tarde: de segunda a sábado, eram
10 ou 11 horas desbravando a floresta. O grupo se virava como podia. Não havia cozinheiro para os peões: a
cada semana, um ficava no barraco de lona, cuidando das panelas, enquanto os outros cuidavam das foices e dos
machados. 

Trabalhadores da Fazenda Volkswagen

Ir até a sede, não era permitido. Sair da fazenda, muito menos. Visitar os barracos de outros peões, só entre
uma brecha e outra da vigilância dos pistoleiros. “Quando nós chegou lá, nós não podia ir no barraco dos
outros. Mas, peão é bicho teimoso, né? Num vacilinho, nós ia no barraco dos outro e aí a gente conversava ali
rapidinho e saía”, lembra Raul.

O isolamento era quase completo. Nem com os empregados diretos da fazenda havia muita conversa. “Como os
funcionários tinha a farda e eles não tinha, já não entrosava com os outros”, conta Teodoro Nogueira, 70, que
serviu à fazenda na cozinha, mas via, da porta do refeitório, o abismo que existia entre os uniformizados e os
“peão de gato”, como eram chamados os recrutados. 

Luís Nova / Metrópoles

Teodoro Nogueira lembra da distinção entre funcionários e “peões de
gato” – estes últimos eram tratados de forma mais precária

A alimentação seguia a mesma lógica da dívida que os aprisionava à fazenda. Quanto mais carne no prato, maior
o saldo negativo com os “gatos”. “Peão bom come carne, peão ruim come osso”, Ribamar lembra de ouvir dos
pistoleiros. Para matar a sede, compartilhavam com o gado a água barrenta do córrego que corta a fazenda. À
noite, os peões se abrigavam em barracos cobertos de lona ou de palha das árvores e se estendiam em redes
penduradas a pouca distância do chão. Não havia parede que segurasse chuva, frio, onça, cobra. A maior parte
deles pegou malária pelo menos uma vez. Muitos viram companheiros definhar até o delírio. Alguns entravam numa
crise de riso incontrolável; chamavam aquilo de “malária risadinha”. 

O cotidiano na fazenda

A forma como cada “gato” tratava seus peões variava, mas não por acaso. José Vargas, advogado do Coletivo
Veredas – grupo de advocacia popular que atuou para algumas das vítimas –, explica que a distância de onde
vinham os trabalhadores ajudava a medir o grau de violência. Quem era aliciado ali mesmo, na região, podia, em
tese, fugir para um município vizinho, por isso a relação tendia a ser menos brutal. Já quem vinha de outros
estados tinha o vínculo com a casa e a família quase rompido. “Aí tinha uma outra relação, muito mais
violenta”, resume. 

Edmilson conta que nunca foi diretamente ameaçado. Ainda assim, hoje reconhece que naquele tempo viveu algo
que não sabia nomear: “escravidão”. Dormia em barraco embrenhado no meio do mato, “sujeito a cobra, a onça, a
tudo que não prestava”. Na época, tudo lhe parecia normal. Só anos depois entendeu o resultado da matemática
dos “gatos”. “Foice, machado, facão, lima, tudo que você precisasse, arroz, feijão, carne, tudo que nós
pegasse lá, nós pagava para ele”, conta. Até a lona dos barracos entrava na conta. Querendo escapar de mais
essa dívida, Edmilson preferia cobrir o teto com palha de bananeira.

Manoel e os amigos descobriram cedo que a conta nunca fechava. Trabalhassem o quanto trabalhassem,
continuariam devendo. Com a turma do Mato Grosso foi igual. Na saída de Canabrava, o “gato” garantira que as
ferramentas, a moradia e a alimentação ficariam por conta da fazenda. “Quando nós chegou lá, eles descontava
tudinho de nós”, afirma Pedro. Ao final do terceiro serviço, sempre com a notícia de que continuavam no
vermelho, finalmente receberam. Para a decepção deles não era dinheiro, o pagamento foi apenas uma latinha de
goiabada. Era o agrado reservado aos “menino bão”. 

Reclamar não era alternativa. Depois de roçar alguns lotes sem ver qualquer dinheiro, o grupo do Mato Grosso
foi até a cantina. Lá, deu de cara com um peão com a perna baleada. Perguntaram o que tinha acontecido. O
homem respondeu que ele havia questionado a falta de pagamento. “Reclamei para eles, eles pegou e atirou na
minha perna”, ouviu Ribamar. 

O que é trabalho análogo à escravidão

No Brasil, o trabalho análogo à escravidão é considerado crime pelo Código Penal. A prática é definida no
art. 149, que cita como principais características desse tipo de exploração:

Uma das principais formas de trabalho análogo à escravidão é a servidão por dívida.

Com uma dívida a ser quitada, o empregador impede que o empregado vá embora, forçando a pessoa a manter o
vínculo mesmo quando ela deseja ir embora.

Foram quatro meses de fazenda. O suficiente, na conta deles, para ver de tudo. Ainda na chegada, os rapazes
de Mato Grosso viram um peão baleado ser amarrado na cantina. Depois, sumiu. Colegas com malária não tinham
direito a remédio. Morriam queimando em febre, suando e rindo de delírio ou desespero. Pouco antes de irem
embora, viram um corpo na carroceria de uma caminhonete, “todo picadinho”, descreve Ribamar. Francisco
completa com o que guarda de memória, lembra que os peões apanhavam, alguns eram baleados, outros amanheciam
amarrados em troncos de madeira por tentar fugir. 

A estrada de acesso à fazenda era cercada por um pedaço de mata fechada que hoje se transformou em pasto. O
vaqueiro Valdeci lembra que, quando iam para a cidade, cruzavam sempre com restos de mortos. “Tinha cabeça de
gente lá todo o dia. E nós pegava as cabeças, ainda tava com os queixos junto aí, nós pegava aquilo e
sacudia.” Na lembrança dele, os que não morriam de doença, de fome ou de exaustão não escapavam da mira dos
pistoleiros. 

Luís Nova / Metrópoles

⁠Fome, malária e exaustão: Valdeci Fumeiro diz que mortes entre os
trabalhadores eram comuns

Entre fardas e barracos de lona

Na hierarquia da fazenda, nem todo mundo era escravo de uma dívida sem-fim. Os cerca de 300 funcionários
contratados diretamente pela empresa tinham, em tese, outro tipo de vida: salário fixo, liberdade para sair
nas folgas e a possibilidade de pedir demissão. O contracheque parecia regular, mas quem viveu na fazenda
Volkswagen lembra que a realidade era bem diferente da imagem da fachada. 

Valdeci, que cuidava do gado como vaqueiro, guarda não só na memória o tempo em que trabalhou para os
“alemão”, como todos costumam se referir à Volkswagen na Vila do Cristalino. Em meio a pastas e envelopes
guardados em uma mala gasta, preserva até hoje a carteira de trabalho e os contracheques. Ao se deparar com um
dos holerites, lembra dos descontos que apareciam todo mês sem que entendesse bem a origem. “Muitas vezes, se
nós não pegava remédio, nós tinha certeza que não tinha pegado remédio, mas pagava”, revela. Na conta,
entravam alimentos e medicamentos vendidos no armazém da sede. O salário chegava, mas nunca inteiro. 

Luís Nova / Metrópoles

Valdeci, que trabalhava como vaqueiro, reclama de abusos da montadora:
“Salário nunca era inteiro”

Depois de rodar por dezenas de empreitadas com “gatos”, Edmilson conseguiu, em 1980, ver sua carteira
assinada pela Volkswagen. Virou ajudante de serraria. No papel, parecia um avanço. Na rotina, os primeiros
meses chegaram a lembrar a rotina anterior. O gerente queria uma jornada que se estendia das 7h às 21h ou 22h,
sem qualquer tipo de pagamento adicional ou compensação. “O serviço era muito pesado, o cara era muito
ignorante, queria tratar a gente de qualquer maneira, queria obrigar a gente a fazer a hora, sem pagar a hora,
eles pagavam só o salário”, conta.

Luís Nova / Metrópoles

Carteira de trabalho não representou avanço que Valdeci esperava:
jornada começava no amanhecer e se estendia até as 21h

A espera de quem ficou para trás

A história da Fazenda Volkswagen também foi escrita por pessoas que jamais chegaram a ultrapassar a sua
porteira. Em Porto Nacional, um dos capítulos começou por causa das ausências. Não só de quem tinha ido até o
Pará, mas de notícias e do dinheiro prometido.

Izaltina Bezerra, 63, nunca viu os pastos da Volkswagen, mas guarda na memória as marcas de quem ficou
esperando. Além do marido, Manoel, viu os irmãos Julio e Lourival arrumarem as trouxas e saírem de casa em
busca de uma vida melhor. Primeiro foram dias sem notícia, depois semanas. Até que Izaltina e a mãe decidiram
que precisavam fazer algo. “Todo dia, nós ia na porta do Hiltomar procurar notícia”, relata. Hiltomar era o
“gato” que tinha levado os rapazes. Em resposta, dizia que eles estavam bem. “O Manoel parece que mandou um
dinheirinho, ele nem me entregar, me entregou. Chegou lá falando pro Manoel que tinha feito uma cesta pra
mim”, conta Izaltina. 

Luís Nova / Metrópoles

Aliciado por “gatos”, o marido de Izaltina a deixou em Porto Nacional
(TO) com uma filha de colo

Com uma filha pequena no colo e esperando um dinheiro que nunca chegava, Izaltina viu os meses passarem sem
ter como se sustentar. A dona da casa que ela alugava ainda permitiu que ficasse três meses sem pagar. Depois,
mãe e filha tiveram de sair. Do imóvel alugado, foram para um barraco de lona e papelão erguido nos fundos do
terreno de sua mãe.

Para Andréia Silvério, advogada do Coletivo Veredas, histórias como a de Izaltina mostram que o raio da
fazenda é muito maior do que a cerca limita. “Ficaram em casa esperando que eles fossem para o Pará, que
tivessem uma condição de trabalho que viabilizasse o retorno deles com recurso para ajudar na manutenção da
família. E o que aconteceu foi exatamente o contrário. Quando essas pessoas voltaram, elas voltaram não só sem
dinheiro ou adoecidas, mas elas voltaram também com um abalo psicológico que é muito significativo.”

Luís Nova / Metrópoles

Andréia Silvério, advogada do Coletivo Veredas: “Exploração
deixou as pessoas adoecidas”

Sem resposta do “gato”, nem apoio do delegado, que se conformava
com as explicações de Hiltomar, Izaltina, a mãe e familiares de outros rapazes procuraram a Comissão Pastoral
da Terra (CPT). Contaram o caso ao frei Henri des Roziers, que, junto com o padre Ricardo, passou a cobrar
explicações de quem aliciou os homens. “Quero que tragam o Manoel. Vivo ou morto, nem que seja a ossada dele,
eu quero”, ela se recorda de ter ouvido o frei dizer isso ao recrutador. 

Rumo à liberdade

Parte da fazenda virou assentamento. O restante segue sendo usado
para criar gado e plantar soja e sorgo

Os caminhos até a fazenda e os meses passados ali se parecem muito nas histórias de quem chegou de outros
cantos do Brasil. A saída era individual. Cada grupo precisou encontrar a sua própria porta. 

Às vésperas de completar o 4º mês de trabalho, o grupo de Mato Grosso resolveu usar a própria Ditadura
Militar a seu favor. Disseram aos pistoleiros que, em um mês, os três rapazes maiores de idade – Francisco,
José Libório e José Pereira – deveriam se apresentar para o alistamento militar. Tinham se inscrito em Barra
do Garça, município a cerca de 600 quilômetros da cidade deles, e por isso teriam de voltar para casa.

“Naquelas épocas, eles iam atrás. Por exemplo, se eu alistasse e ficasse negando de representar no quartel,
eles iam ver o que tinha acontecido”, conta Ribamar. Ele acredita que o fiscal teve medo de se indispor com o
Exército ou de que vissem as reais condições a que os peões eram submetidos, por isso se comprometeu a
conversar com Chicô, “gato” responsável por eles.

Luís Nova / Metrópoles

Legenda aqui

Chicô resolveu ceder. O fiscal chegou a sugerir que apenas os mais velhos fossem embora, mas os amigos
bateram o pé: ou saíam juntos ou não saía ninguém. Ganharam. O “gato” liberou, inclusive, Pedro e o próprio
Ribamar, que eram menores de idade.

No último dia, não houve acerto de contas. Mais uma vez, não tiveram saldo nem receberam pagamento algum
pelos quase três meses de serviço. Os fiscais, no entanto, resolveram oferecer um almoço de despedida. Era o
prêmio por serem “muito bons”. Na pressa de ir embora, ninguém se lembrou de pegar a autorização por escrito —
o papel que, na teoria, teria de ser apresentado aos seguranças na guarita para que pudessem deixar a fazenda,
uma espécie de “carta de alforria”. 

Quando o caminhão encostou na saída, o guarda estranhou. O motorista que topou levá-los explicou que os
rapazes tinham sido liberados por Chicô, mas não tinham recebido documento nenhum. O segurança hesitou e, por
fim, ergueu a cancela.

Luís Nova / Metrópoles

Francisco (foto) e os amigos José Libório e José Pereira usaram
artimanha para escapar dos gatos

Foram dias de viagem até chegarem ao município de onde saíram com a esperança de conseguir uma vida melhor.
Sem dinheiro, percorreram os mais de 380 quilômetros entre a fazenda e Canabrava do Norte a pé e com a sorte
de algumas caronas no caminho. Ao encontrarem o padre espanhol Manuel Luzón, vigário da paróquia em que
participavam do grupo de jovens, foram questionados: “Uai, vocês estavam para onde?”. Contaram que tinham ido
trabalhar em uma fazenda no Pará e que voltaram com menos do que levaram, já que tinham deixado até pertences
pessoais para trás. “Não, isso não pode ficar assim. Isso é trabalho escravo. Vocês têm que receber o dinheiro
de vocês”, reagiu o padre Manuel. 

Foi por meio dele que a história chegou à CPT e que o padre Ricardo encontrou os jovens e levou a história
deles à imprensa e às autoridades da época. Ricardo conhecia a Fazenda Volkswagen desde 1977, mas até então as
denúncias sempre chegavam atrasadas, anos depois dos fatos. Nunca conseguia fazer um flagrante. 

Luís Nova / Metrópoles

⁠Padre Ricardo consulta seus arquivos na Universidade Federal
do Rio de Janeiro (UFRJ)

Em 1983, o telefone tocou: uma representante da CPT, advogada
Maria José, avisou que estava com cinco rapazes recém-chegados do Pará. Eram Francisco Rezende, José de
Ribamar, José Libório, José Pereira e Pedro Vasconcelos. O padre comprou a passagem para o Mato Grosso e foi
ouvi-los pessoalmente. “Eles estavam muito emocionados, um pouco assustados, tinham tido uma experiência
terrível”, lembra.

Da esquerda para a direita: Pedro Vasconcelos, José Libório
e Francisco em foto da época

Orientados pelos agentes da CPT, os trabalhadores moveram ação trabalhista pedindo o pagamento do que lhes
era devido. “A Justiça do Trabalho reconheceu que havia, sim, uma violação naquele sentido meramente
trabalhista, e eles receberam esse pagamento das verbas”, explica a advogada Daiana Adorno, também do Coletivo
Veredas. Na prática, os rapazes receberam o valor correspondente ao salário que lhes era devido. Não houve, no
entanto, o reconhecimento de que haviam sido submetidos a trabalho em condição semelhante à de escravos nem o
pagamento de uma indenização pelos abusos que sofreram. 

Edmilson, por outro caminho, também deixou a fazenda. A saída definitiva ocorreu em 1984, quando o chefe
passou a “implicar” com Edmilson por ele se recusar a fazer tarefas que não faziam parte de sua função. No fim
da temporada, trabalhava como operador de motosserra, derrubando madeira na mata e tratando as toras na
serraria. Após a derrubada, o chefe exigia que ele empilhasse a madeira no pasto, serviço dos auxiliares.
Mesmo com a carteira assinada, Edmilson diz não ter recebido tudo o que tinha direito. “Eles me pagaram do
jeito que quiseram” e ficou por isso mesmo, resume. 

O grupo de Raul, do Tocantins, ainda estava aprisionado quando a Volkswagen decidiu vender a fazenda, em
1986. No processo de saída da empresa, funcionários diretos e “gatos” ficaram sem receber. Sob essa
justificativa, os intermediários disseram que não teriam como pagar Raul e os amigos, que, na prática, já
trabalhavam há meses sem ver um centavo. 

Luís Nova / Metrópoles

⁠Raul foi explorado em duas fazendas: na Volkswagen e na São
Geraldo

Foram quatro dias de espera. O “gato” entrava e saía da fazenda prometendo que estava atrás de novo serviço
para o grupo. No quarto dia, apareceu com a notícia de que havia encontrado uma fazenda que pagaria muito bem.
Em um lampejo de lucidez, Raul perguntou: “Ô, Dilson, você não vendeu nós, não?”. O “gato” reagiu rapidamente,
chamou o peão de “doido”. Nesse momento, o grupo foi dividido em propriedades diferentes, estratégia usada
para evitar que os peões se juntassem contra os recrutadores.

Tempos depois, ao cobrar seu pagamento na nova fazenda, a São Geraldo, Raul recebeu a confirmação que não
havia enlouquecido. O novo “gato” disse que ele só poderia ir embora quando quitasse o valor que havia sido
pago por ele e pelos companheiros que chegaram juntos. “Ele tinha comprado nós”, revelou Raul, que ainda se
surpreende com o ocorrido.

Hoje, transformou parte da história em anedota. Quando está com os amigos, diz que ele e Manoel, dois homens
de mais de um metro e oitenta, deviam ter sido comprados por um valor mais alto do que o dos demais, todos
mais baixos. O riso, porém, não resiste quando ele se lembra da fuga. A voz embarga, e os olhos se enchem de
água. “Dessa última fazenda, que fugi, passei nove dias na mata, sem comer. A única coisa que tinha era um
pacote de sal. Eu e outro rapaz pegava o sal e botava na boca pra poder beber água. E aí, nós saímos na Volks
de novo. Só que tinha mudado tudo, né? E eu não me identifiquei.” 

O legado da Volkswagen

Luís Nova / Metrópoles

⁠Carcaça de kombi, em Santana do Araguaia (PA)

Em 1986, um ano depois da reabertura democrática, a Volkswagen se desfez da fazenda e vendeu a área ao grupo
paranaense Matsubara. “Aí a companhia obviamente não tem essa certeza de que vai ter com o novo governo um
relacionamento estreito como tinha anteriormente”, analisa José Vargas, advogado das vítimas. Segundo a
própria empresa, o que pesou foi o fato de o negócio não ter dado o lucro esperado. 

Para o padre Ricardo, o que importa nessa história independe dos motivos por trás da saída. Na avaliação
dele, o rastro da Volkswagen no sul do Pará combina terra concentrada, trabalho degradante e floresta
derrubada. “Ela produziu concentração fundiária sobre uma terra cuja titulação não era muito clara,
desobedeceu à legislação trabalhista, contratou empreiteiros que cometeram a escravidão por dívida, há
informações de violências físicas, cortou madeira, devastou o meio ambiente, pegou madeira da terra dos
indígenas…”. 

Depois da saída da montadora, a fazenda ainda trocou de mãos algumas vezes e fez parte da política de reforma
agrária. Em 1998, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) desapropriou toda a área, mas
a decisão foi revogada no ano seguinte. Em 2004, o Incra voltou a olhar para o local, desta vez com
desapropriação parcial: quase 88 mil hectares, cerca de 60% da fazenda, destinados ao assentamento de
aproximadamente 1.300 famílias. A disputa pela terra, no entanto, não se resolveu no papel. Entre 2010 e 2017,
pelo menos oito pessoas foram assassinadas em conflitos relacionados à área. 

Vista aérea da Fazenda Volkswagen

“É uma região da luta pela terra, (…) é aqui que a gente tem os maiores índices de violência no
campo. Então, assim, achar que, como a Volkswagen vendeu e se retirou e uma parcela da fazenda virou
assentamento, você pacificou, é um grande equívoco. Os males que a Volkswagen trouxe para a terra subsistem
até hoje”, diz José Vargas. 

Quanto aos trabalhadores, o saldo também se vê até hoje. A maior parte não concluiu o ensino médio. Alguns
pegam uma caneta para assinar o próprio nome com esforço notável – não chegaram a aprender a ler nem a
escrever. “Sei que fui enganado nessa trajetória de vida e poderia hoje ser uma outra pessoa, diferente, mas
não tive essa oportunidade”, lamenta Edmilson. 

A maioria vive com o básico, em casas simples; outros não têm nem o essencial, como uma geladeira ou um
fogão. Francisco, por exemplo, depois de voltar da fazenda, mergulhou no alcoolismo. Nunca conseguiu se firmar
em um emprego nem sair da casa da mãe, com quem vive até hoje. Depois de quebrar a perna, passou a depender de
um andador para se locomover. A perda da audição dificulta ainda mais a comunicação.

Luís Nova / Metrópoles

Consequências da exploração: trabalhadores tiveram sequelas
físicas e emocionais causadas pelo trabalho análogo à escravidão

O irmão de Raul, Juldemar, tampouco voltou o mesmo do Pará. De lá, carregou, além da malária, uma doença que
não se cura com remédios: esquizofrenia – diagnosticada depois do retorno. A condição o tirou do mundo do
trabalho e o tornou dependente da família: primeiro da mãe; com a morte da matriarca, passou a depender da
irmã, que hoje responde por ele. Os laudos médicos tentam traduzir em termos técnicos as vozes de um passado
que ainda o assombra: “alucinações visuais e auditivas” e “humor deprimido”. 

Mesmo os que conseguiram construir algum tipo de vida depois da fazenda seguem assombrados pelas lembranças
daqueles meses no Pará. “Até hoje tem noite que a gente acorda, aí o sentido vai, que não tem jeito para a
gente esquecer totalmente. Aí, quando o sentido bate no que a gente passou lá, a gente perde até a noite de
sono”, desabafa Raul. 

Memória e justiça

Luís Nova / Metrópoles

Parede em Barreira do Campo, cidade localizada próximo à Fazenda
Volkswagen

Quarenta anos depois da venda da fazenda, a conta ainda não fechou. Nem para a Volkswagen, nem para os que
nela foram explorados. Em 2014, a Comissão Nacional da Verdade – encarregada de investigar as violações de
direitos humanos ocorridas no Brasil entre 1946 e 1988, com foco na Ditadura Militar – acusou a montadora de
colaborar com a polícia política e de discriminar militantes sindicais durante o regime. 

O caso abriu caminho para que a matriz da Volkswagen, na Alemanha, contratasse, em 2016, o historiador
Christopher Kopper para investigar as violações de direitos humanos cometidas pela empresa. 

No relatório que leva seu nome, Kopper inclui a situação da Fazenda Vale do Rio Cristalino, mas evita
classificar os trabalhadores como “escravos ou servos”. Ele reconhece que o modelo de trabalho na fazenda
seguia o “modelo típico de paternalismo autoritário da VW do Brasil”; que o tratamento dado aos trabalhadores
submetidos aos empreiteiros constituiu a “principal injustiça social ocorrida na fazenda”; e que essas
relações eram “caracterizadas por violência”. O historiador conclui que a administração da fazenda tinha
conhecimento da situação e que a Volkswagen teve responsabilidade indireta pelas injustiças. 

Luís Nova / Metrópoles

Arquivo do padre Ricardo Rezende: papel da Comissão Pastoral da
Terra (CPT) foi essencial para responsabilizar a montadora

Paralelamente, extensa investigação conduzida pelos Ministérios Públicos Federal, de São Paulo e do Trabalho
levou, em 2020, à assinatura de um compromisso de ajustamento de conduta. No documento, a Volkswagen se
compromete a adotar ações em razão de “violações aos direitos humanos ocorridas no Brasil durante a ditadura
militar de 1964 a 1985, especialmente no que se refere aos ex-trabalhadores e ex-trabalhadoras da VW DO
BRASIL”. As investigações que embasaram o acordo, no entanto, tratavam especificamente da repressão e das
perseguições ideológico-políticas no período. 

Ao perceber esse movimento de reparação de injustiças passadas, o padre Ricardo decidiu reviver o caso que,
por muito tempo, acreditou que não teria um desfecho, o da Fazenda Volkswagen. “Se a Volks está agora tentando
resolver o problema de São Bernardo do Campo, por que não resolve o problema da fazenda?”, pensou. Reuniu,
então, o dossiê que guardara por mais de três décadas – quatro volumes de documentos, somando centenas de
páginas – e o entregou a Rafael Garcia, procurador que, à época, estava à frente da atuação do MPT no combate
a condições análogas à escravidão. 

Com base nesses documentos, o MPT montou um grupo, coordenado por Rafael, que investigou o caso e ingressou
com ação civil pública contra a Volkswagen. Em agosto de 2025, a Justiça do Trabalho do Pará reconheceu a
exploração de trabalho análogo à escravidão na Fazenda Vale do Rio Cristalino. A montadora foi condenada a
pagar R$ 165 milhões a título de danos morais coletivos. O Tribunal Regional do Trabalho manteve a decisão. O
processo, porém, ainda não terminou: a Volkswagen segue recorrendo. 

Mesmo sem a conclusão definitiva, o procurador Rafael Garcia já considera a condenação histórica, sobretudo
por se tratar de um caso ocorrido durante a Ditadura Militar, período em que tantos crimes ficaram sem
resposta. “Na luta contra o trabalho escravo, é um marco histórico a decisão, como também, como justiça de
transição, é uma decisão que, por vários motivos, tem caráter profundamente histórico, representativo”,
afirmou.

Para o padre Ricardo, a insistência da montadora em não admitir abertamente o erro pesa tanto quanto a demora
no pagamento de uma reparação. “Acho lamentável, primeiro, de ela não reconhecer logo que foi um erro e
demonstrar que está disposta a superar isso. Segundo aspecto, quanto mais ela demora, menos gente viva tem.
(…) Então, muita gente não vai ter em vida a possibilidade de ouvir um pedido de desculpa e de ter uma ajuda
para sua velhice”, ponderou. 

Luís Nova / Metrópoles

Kombi estacionada na Fazenda Volkswagen

Em 11 de junho deste ano, novas sentenças acrescentaram um capítulo à história. A Volkswagen foi condenada em
ações individuais propostas pelos irmãos Raul e Raimundo, do Tocantins, além de Ribamar e Pedro, do grupo de
Mato Grosso. Com a vitória na ação coletiva, eles ingressaram com pedidos de indenização no valor de R$ 2
milhões cada, montante que foi concedido pela Justiça do Trabalho. 

Reprodução

Boa notícia: chamada de vídeo
em que a advogada diz a Raul que a indenização individual foi concedida

Assim que a sentença foi publicada, a advogada Daiana Adorno ligou
para os irmãos Raul e Raimundo a fim de dar a notícia. Raul atendeu sentado na varanda de casa. Ao ouvir que
a Volkswagen havia sido condenada a indenizá-lo, os olhos encheram de lágrimas. Faltaram palavras. Entre um
sorriso e outro, conseguiu apenas dizer: “Que bom”. No quintal de casa, Raimundo também não conteve o choro.
“Chega estou arrepiado, Deus é maravilhoso”, disse à advogada.

O desafio da CPT e do Coletivo Veredas agora é encontrar vítimas que não tinham sido identificadas e
mostrá-las que ainda é possível pedir reparação, quatro décadas depois. No começo de junho, a reportagem
acompanhou uma reunião do coletivo com parte do grupo de trabalhadores do Tocantins.

A advogada Andréia Silvério explicou, passo a passo, o que já tinha acontecido na Justiça e quais caminhos
restam. Enquanto a profissional falava de prazos, documentos e recursos, os homens reavivavam lembranças.
Trocavam perguntas, contavam pedaços de histórias que achavam já terem esquecido. 

Ao redor da mesa, além de Raimundo e Manoel, estava Nelson Gonçalves, que foi ao Pará no mesmo grupo. Depois
de um AVC sofrido no ano passado, Nelson perdeu a fala, mas entende cada palavra dita ao seu redor e concorda
quando os amigos contam o que passaram na Fazenda Volkswagen. 

Luís Nova / Metrópoles

Reunião do Coletivo Veredas com trabalhadores em Porto Nacional
(TO)

João Corado foi mais um integrante do grupo que contou a sua
experiência. Tímido, de poucas palavras e olhar voltado para o chão, João Corado revisitou um passado sombrio
ao contar o que vivenciou na fazenda. Até hoje ele sofre com dores das injeções que recebeu contra malária
quando trabalhava no Pará. “Isso ainda dói demais. Não aguento nem deitar desse lado”, fala enquanto levanta o
braço com esforço. “Passei oito dias sem dormir de noite de tanta dor”, lembra. 

Depois de passar meses incapacitado morando com a avó ao retornar da fazenda, João hoje vive em um
assentamento com Izaltina e Manoel. A meta do coletivo é replicar encontros como esse em outras regiões em que
vivem ex-trabalhadores da fazenda, para que saibam que ainda há portas abertas para um desfecho desse passado,
mesmo que tão distante. 

Luís Nova / Metrópoles

João Corado, que trabalhou na fazenda, pretende ingressar com ação
indenizatória

Exploração que ainda persiste

Assim como os mecanismos de denúncia e fiscalização, o número de pessoas encontradas em situação de trabalho
análogo à escravidão cresceu significativamente nos últimos 30 anos. Em 1995, 84 pessoas foram encontradas
nessa condição. Em 2025, foram 3.211. Ao todo, nesse período, quase 72 mil pessoas passaram por esse tipo de
exploração, segundo o Panorama do Trabalho Escravo no Brasil, da CPT. Quase metade dos casos, 42%, ocorreu na
Amazônia Legal.

Pessoas encontradas em trabalho escravo

O que mais preocupa hoje, no entanto, é o enfraquecimento de alguns mecanismos de denúncia e controle do
trabalho análogo à escravidão, explica o frei Xavier Plassat, coordenador da Campanha Nacional da CPT contra o
trabalho escravo. A exclusão da montadora chinesa de carros elétricos BYD da “Lista Suja do Trabalho Escravo”,
em abril deste ano, abre precedente perigoso, alerta o religioso. A empresa havia sido incluída na lista dias
antes, após ser considerada responsável direta por manter 163 trabalhadores chineses em condições semelhantes
às de escravidão no canteiro de obras de sua fábrica em Camaçari, na Bahia.

Na história do país, o trabalho análogo à escravidão aparece em ondas que se repetem em diferentes cenários.
O padre Ricardo costuma citar pelo menos três grandes momentos. O primeiro, no início do século XX, com a
coleta de seringa na Amazônia, sobretudo nos estados do Amazonas e do Pará. 

Depois, durante a Segunda Guerra Mundial, a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, em Rondônia, que
ganhou o apelido de “estrada do diabo” pela quantidade de mortes e doenças entre os trabalhadores. Por fim, os
anos 1970 e 1980, o “período da Sudam”, quando políticas oficiais de incentivo fiscal empurraram grandes
empresas para o interior da floresta. 

Luís Nova / Metrópoles

⁠A montadora Volkswagen segue recorrendo à Justiça, o que retarda
o pagamento da multa e a indenização aos trabalhadores

“É um período em que houve um projeto governamental que propiciou esses graves problemas. Então, não foi um
acidente. A Volks não estava lá acidentalmente”, explica.  Para os homens que se embrenharam nas matas da
Fazenda Volkswagen, a estatística tem rosto e cicatriz. Quando perguntados sobre o que viveram, a resposta é
quase sempre um aviso. “Não pode acontecer isso, nós é ser humano. Não é porque a pessoa é uma empresa, é uma
multinacional, que ela pode fazer isso com as pessoa, que não pode”, diz Ribamar. 

“Pra mim, foi uma grande falta de respeito. Nós era pobre, peão, mas era cristão igual eles”,
completa Manoel. 

A empresa, no entanto, não reconhece esse capítulo de sua história. Ao longo do processo, a Volkswagen sempre
se manifestou no sentido de afastar a sua responsabilidade das condições às quais os trabalhadores foram
submetidos na Fazenda Vale do Rio Cristalino. Procurada pela reportagem, a empresa afirmou que não se
manifestará sobre discussões judiciais em andamento. 

“Adicionalmente, a empresa ressalta que, com um legado de 73 anos, a Volkswagen do Brasil reafirma seu
compromisso permanente com o respeito absoluto à Constituição Federal, às leis brasileiras e aos princípios
internacionais de direitos humanos, que orientam sua atuação como uma das maiores empregadoras do País. A
empresa repudia qualquer forma de trabalho forçado, degradante ou análogo à escravidão e reitera sua dedicação
histórica à promoção de um ambiente laboral digno, ético e responsável”, afirmou em nota. 

Luís Nova / Metrópoles


Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Camila Xavier.