Se para muitos parece normal que um presidente não reeleito planeje um golpe de Estado para permanecer no poder; que um deputado se licencie do mandato para conspirar em outro país contra os interesses do seu; e que a maioria do Congresso assista calada à intervenção de um estrangeiro em assuntos que não lhe cabe opinar; então por que soaria absurda a declaração de um general que tem por hábito digitalizar seus pensamentos e, em seguida, imprimi-los, só para não dar-se ao trabalho de lê-los em uma tela de computador?
A verdade é que é quase impossível digitalizar pensamentos sem ler simultaneamente o que está sendo escrito. A não ser no caso de um estenógrafo, coisa que o general não é. E por que imprimir o que pensou em formato de documento para dali a algum tempo simplesmente rasgá-lo sem o mostrar a ninguém? Foi o que disse que fez em depoimento ao Supremo Tribunal Federal o general Mário Fernandes, ex-secretário executivo da Secretaria-Geral da Presidência da República no governo de Bolsonaro.
Se o general de fato destruiu o documento, esqueceu de apagá-lo no arquivo do seu computador: “Esse arquivo digital nada mais retrata do que um pensamento meu que foi digitalizado. Um compilar de dados, um estudo de situação meu, uma análise de riscos que eu fiz e por costume próprio resolvi digitalizar. Não foi apresentado a ninguém e nem compartilhado com ninguém”. Quanto à impressão… Foi apenas por comodidade, para que pudesse ler melhor “e não forçar a vista”
Enfim, o general não enxerga, ou finge não enxergar, a gravidade do seu comportamento. Outra possibilidade: foi mal orientado por seu advogado de defesa, tão néscio quanto ele. Ou então o general prefere ser condenado e cumprir pena a ter que delatar quem quer que seja. Vai acabar assim virando herói entre seus companheiros de farda.




