
Garantir emprego e renda para as famílias. Este é um dos principais pontos que podem levar as pessoas a olharem para o desenvolvimento sustentável de forma mais sensível. É o que defende o pesquisador Judson Valentim, que no Dia da Amazônia, celebrado nesta segunda-feira (5), fala sobre algumas técnicas que podem contribuir positivamente para este fim.
É que nesse conceito, ele explica que existe a alternativa tanto para o uso da floresta, como também de recuperação daquela que já foi desmatada. Como por exemplo, o manejo florestal, no caso da primeira situação, ou do uso de adubo e leguminosas para recuperação de solo degradado como ocorre em plantações da macaxeira, em Cruzeiro do Sul, ou mesmo a plantação do amendoim forrageiro que fortalece o pasto do criador de gado.
“Nesse contexto, o Portfólio Amazônia tem vários desafios de inovação que contempla os dois cenários tanto o de floresta (incluindo as pessoas: seringueiros, ribeirinhos, indígenas), quanto o das áreas que já foram desmatadas (produtores familiares, assentados, pequenos, médios e grandes produtores que estão fazendo atividades agropecuárias, ou agroflorestais nestas áreas”, pontua.
O desafio maior que se tem, no caso das áreas de floresta é desenvolver tecnologias de inovação para que a floresta em pé dê um retorno econômico igual ou superior às áreas desmatadas, segundo defende.
“A lógica aí é: se uma área de floresta tiver dando renda maior do que a desmatada, as pessoas não vão ter mais motivos para desmatar. Então, nesse contexto a gente busca primeiro desenvolver soluções de manejo florestal para as espécies madeireiras e não madeireiras”, conta.
Recursos florestais
Entre estes recurso que podem ser explorados no estado, Valetim destaca alguns exemplos como o açaí, cacau nativo, andiroba, copaíba, castanha-do Brasil, seringueira, buriti, tucumã.
“Há centenas de outros produtos. Os peixes nativos, que pode ser feito o manejo de pesca, temos por exemplo, o pirarucu que é uma das espécies mais conhecidas”, cita.
Depois dos recursos não madeireiros, ele pontua justamente o madeireiro e aí é quando entra aquela ideia já conhecida, de que toda árvore segue um fluxo: nascer, crescer e com o tempo morrer. E nas técnicas de manejo florestal o que é feito é colher parte destas espécies que já estão maduras, antes que elas morram. E quando se colhe estas árvores que têm valor econômico, na clareira que se retirou a árvore abre espaço para que outras árvores mais jovens cresçam.
“Aí temos essa dinâmica, faz-se o manejo de baixo impacto, você está colhendo estas árvores, mas mantendo a floresta e lógico, com o manejo dos recursos nativos, você consegue, por exemplo colher o açaí, sem destruir a floresta”, pontua.
O pesquisador cita o exemplo de que o manejo feito em uma área de 30 hectares de açaí, pode render uma renda mensal de R$ 2,5 mil, o que mostra que é possível, dentro de uma área pequena a subsistência, sem que seja necessário derrubar para tirar o sustento.
“Então, por exemplo, uma pessoa da Reserva Extrativista Chico Mendes, fazendo colheita de açaí, de castanha, látex da seringueira, andiroba, copaíba e outros produtos, ele consegue, com orientação técnica, gerar renda suficiente para ter uma vida digna”, explica.
Incentivar e ajudar
O pesquisador explica ainda que a ajuda, por meio do conhecimento é fundamental para que a sustentabilidade não seja um fracasso. Ele ressalta o exemplo da castanha-do-Brasil.
“A castanha, quando ela cai, se ficar muito tempo ali, com a chuva e tudo mais, começam a ser contaminadas por um fungo nativo daqui mesmo. Esse fungo começa a apodrecer os frutos, e produz uma toxina que além de apodrecer o fruto, pode ser cancerígena. Então, a Embrapa desenvolveu com outras instituições também técnicas não só para orientar, os extrativistas a como colher esta castanha, mas a armazenar em armazéns simples que permitam a ele coletar a castanha, colocar nos pequenos armazéns suspensos para reduzir ou mesmo eliminar essa contaminação”, compartilha.
Essa é a técnica que eles chamam de boas práticas de coleta e processamento da castanha que pode beneficiar muitas famílias, e já é desenvolvida há 15 anos, com treinamento para as famílias do Acre.
Na entrega da capacitação também foram desenvolvidos pequenos secadores para que ele possa secar a castanha lá mesmo, na floresta, antes de levar para a usina de beneficiamento. Com isso, são dois ganhos: o primeiro é que vai diminuir a perda por apodrecimento dos frutos e contaminação. Se ele diminui essa perda, ganha na produção. E essa castanha tem melhor valor de mercado. Então, reduz as perdas e agrega valor ao produto desse extrativista.
Áreas desmatadas
Nas áreas desmatadas, Valentim diz que a assistência técnica também é um diferencial na hora de ajudar produtores e pecuaristas a aprenderem manobras de recuperação do solo, para que ele não precise derrubar outra parcela para continuar executando sua atividade.
“O produtor familiar sem acesso à técnica e a crédito, é muito difícil ele fazer a agricultura de subsistência para gerar renda de forma sustentável. O que geralmente acontece: estes produtores quando recebem suas terras seus lotes dos assentamentos vão desmatando, fazendo seus roçados, e depois acabam montando um pasto, ou então tem como meta aumentar o valor de venda de seus lotes”, explica.
Um exemplo do que a Embrapa fez lá em Cruzeiro do Sul, por exemplo, é com a produtores de mandioca. O pesquisador diz que acontecia lá é que estes produtores mais antigos já estavam esgotando a área de mata que eles tinham para cortar, derrubar e fazer o plantio da mandioca. E a produção vinha caindo e o solo ficando degradado.
“A Embrapa, ao longo de mais de 10 anos desenvolveu um sistema que se chama de Sistema de Agricultura Conservacionista, que usa calcário, adubo e leguminosas com técnicas de plantio direto, que consegue pegar as áreas degradadas e recuperar, no qual o produtor pode voltar plantar a mandioca, depois o milho, e a leguminosa que é quem vai ajudar na recuperação do solo”, conta.
Hoje, no município, Valentim diz que tem muitos agricultores em Cruzeiro do Sul usando essa técnica conservacionista, e com isso ele não precisa mais fazer desmatamento e queimada porque a mesma área ele vai reutilizando.
Outro meio utilizado nas pastagens, por exemplo, que também é uma área que já foi desmatada é o usado o amendoim forrageiro junto com o capim, que faz parte desta mesma tecnologia.
“Ao consorciar a leguminosa junto com o capim, você consegue aumentar a qualidade do pasto porque a leguminosa aduba o solo e aduba também a pastagem que fica com mais qualidade, o boi ganha mais peso, a vaca produz mais leite e o pasto não degrada.”
Ele continua. “Temos hoje, no estado pastos com 30 a 35 anos que se mantêm produtivos com mais de três cabeças por hectare, quando a média do Brasil é de uma cabeça por hectare, e temos pequeno e grande produtor usando essa tecnologia que é simples. Além disso, reduz o tempo que esse boi fica no pasto, e ele consome menos metano porque ele desenvolve mais rápido.”



