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Diarista sofre cortes por linha de pipa em Rio Branco e diz: “Nasci de novo”

Mulher precisou pilotar com uma mão enquanto tentava retirar a linha do rosto; filha de 18 anos estava na garupa e não se feriu.

Camila Souza Por

Uma diarista de 37 anos sofreu cortes no rosto e no pescoço após ser atingida por uma linha de pipa enquanto pilotava uma motocicleta na Rua Franco Ribeiro, no bairro Wanderley Dantas, em Rio Branco. A filha dela, de 18 anos, estava na garupa e não ficou ferida.

A diarista sofreu cortes por linha de pipa em Rio Branco no sábado (22), quando seguia pela rua e percebeu várias pessoas soltando pipas na região. Ela estava com a viseira do capacete levantada quando a linha atingiu primeiro o pescoço e depois subiu em direção ao rosto.

Os cortes atingiram a região da sobrancelha, próximo ao olho e ao nariz. Segundo a vítima, ela ainda percorreu entre 100 e 200 metros antes de conseguir se livrar da linha.

“Que dor horrível. Parecia óleo quente. Eu poderia ter morrido se o corte tivesse atingido uma parte mais profunda do pescoço”, relatou.

Durante o trajeto, a mulher precisou conduzir a motocicleta com uma das mãos enquanto tentava retirar a linha do rosto. O capacete também ficou danificado pelo corte e uma grande quantidade do material acabou presa à motocicleta.

“Eu só queria tirar aquilo do meu rosto. A dor era muito forte. Tive que pilotar com uma mão e tentar remover a linha com a outra”, contou.

Após conseguir parar a motocicleta, a diarista permaneceu sentada em uma calçada, nervosa e com o rosto sangrando. Moradores acionaram a Polícia Militar, que esteve no local e informou que reforçaria as rondas na região.

A vítima recebeu orientações sobre como registrar a ocorrência, mas decidiu não fazer um boletim de ocorrência por medo de possíveis represálias. Segundo ela, as pessoas que soltavam pipas deixaram o local após o acidente.

“Eu fiquei com muito medo. Medo de morrer e medo de fazer o boletim e depois sofrer represálias. Passou um filme pela minha cabeça e naquele momento eu me lembrei dos meus filhos e das pessoas que já morreram por causa disso. Eu poderia ter sido mais uma vítima”, afirmou.

A mulher não procurou atendimento médico depois do acidente. Ela fez a limpeza dos ferimentos em casa e utilizou medicamentos para aliviar a dor.

A motociclista comprou a moto há cerca de três meses e afirmou que pretende instalar uma antena de proteção para tentar evitar novos acidentes. Ela disse que já pensava em adquirir o equipamento por causa de notícias anteriores envolvendo linhas cortantes.

“Eu já pensava em comprar uma antena porque sempre via notícias desses casos. Foi um livramento”, disse.

Depois do episódio, a diarista também mudou o trajeto que utiliza diariamente. Embora o novo caminho seja mais longo, ela afirma que se sente mais segura.

Mãe de quatro filhos, a mulher contou que costuma passar pelo bairro Wanderley Dantas e que vê pessoas soltando pipas com frequência naquele trecho. Segundo ela, a prática ocorre principalmente na via principal.

“Não é uma coisa isolada. É todos os dias. Eles ficam ali na principal soltando pipa. Meu intuito é ajudar outras pessoas, porque a gente sabe que essa situação está ficando cada vez mais séria e pode tirar mais vidas”, afirmou.

A diarista também relatou que existe um comércio próximo ao local onde pessoas costumam comprar linhas e empinar pipas. Ela, no entanto, disse não saber informar se o estabelecimento comercializa cerol ou outro tipo de linha cortante.

O uso de cerol e da chamada linha chilena é proibido no Acre desde 2024. A Lei Estadual nº 4.394 proíbe o uso, a posse, a comercialização, a fabricação e a importação desses materiais.

Além da legislação estadual, o artigo 132 do Código Penal prevê punição para quem expõe a vida ou a saúde de outra pessoa a perigo direto e iminente, com pena de detenção de três meses a um ano.

O caso da diarista é o segundo registrado em menos de 15 dias envolvendo uma pessoa em motocicleta atingida por linha cortante em Rio Branco.

No dia 11, o jardineiro e motociclista de aplicativo Obedy Edom Melo Silva, de 28 anos, sofreu um corte profundo no pescoço após ser atingido por uma linha com cerol enquanto trafegava pela Rua Dezenove de Outubro, no bairro Sobral.

O Acre também já registrou casos fatais relacionados ao uso de linhas cortantes.

Em julho de 2025, a bióloga Jéssica Souza dos Santos, de 33 anos, morreu após ter o pescoço atingido por uma linha com cerol enquanto pilotava uma motocicleta em Cruzeiro do Sul. O corte foi profundo e a vítima morreu no local.

Em 2023, Fernando Moraes Roca Junior, de 25 anos, morreu após ser atingido por uma linha com cerol na Rua São Mateus, no bairro Nova Esperança, em Rio Branco. Segundo a Polícia Militar, a veia jugular foi atingida.

Cinco dias depois da morte do jovem, a Assembleia Legislativa do Acre aprovou um projeto de lei que regulamentou espaços exclusivos para a prática de soltar pipas. A medida foi sancionada posteriormente pelo governo estadual e recebeu o nome de Fernandinho.

O episódio recente voltou a chamar atenção para os riscos das linhas cortantes, principalmente para quem utiliza motocicletas. Para a diarista, o acidente poderia ter terminado de forma mais grave.

“Eu poderia ter morrido”, afirmou.

Com informações do G1 Acre.