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Entenda por que “mulher de Flávio” virou Gaspar. Kássio tentou ajudar

Por Reinaldo Azevedo
Entenda por que “mulher de Flávio” virou Gaspar. Kássio tentou ajudar

Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, participou de uma sabatina nesta terça promovida por extremistas de direita e afirmou que ele teria mais facilidade para se relacionar com o Congresso, se vitorioso, do que Lula porque, inferiu, o Parlamento continuará mais afinado com as suas ideias do que com as do atual presidente. A escolha do deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) como vice expõe não apenas um articulador político desastrado como a falácia da sua, vá lá, teoria… Ele foi largado na chuva por PP, União Brasil (Federação União Progressista), Podemos, Republicanos…  A expectativa, há alguns meses, era contar com um latifúndio contra Lula no horário eleitoral e acabou com menos tempo do que o petista. Houve até figurão do STF tentando ajudar. Não adiantou.

“Então Lula já ganhou?” É claro que não! Eleição acaba quando termina. Na pesquisa Quaest divulgada hoje, há uma diferença de cinco pontos em favor do petista. A penca de inquéritos na boca da urna contra Lulinha já dominava o noticiário quando se fez o levantamento. Não dá para saber se tudo está precificado nem o que vem da peneira de vazamentos.  Pode-se tirar uma outra conclusão: Flávio é bom de voto porque tem o sobrenome que tem, mas é, nas qualidades que lhe são intrínsecas, um péssimo candidato. E quem disse que o pior não pode vencer? A história do Brasil, obviamente, não me autoriza a dizê-lo.

O fato: há poucos meses, Flávio tentava lavar a óbvia misoginia de seu grupo de “articuladores e pensadores” com o anúncio de que pretendia ter uma mulher como vice. E se pretendia alguém que ou acenasse a um setor forte da economia — a senadora Tereza Cristina (PP-MS), por exemplo, uma agrovovozinha… Nota: o candidato referiu-se à senadora como a sua vovó. Creio que acha a coisa elogiosa.

Também se especulou uma alternativa que amenizasse um pouco os contornos reacionários do próprio postulante. Nesse caso, não conseguiram chegar a ninguém. A mulher do campo bolsonarista que tem dito ultimamente coisas próprias ao menos ao consumo humano, depois de um passado desastroso na área, é a senadora Damares Alves (Republicanos-DF). Mas ela é odiada pelo núcleo norte-americano da campanha… De resto, o Republicanos também quis ficar fora dessa.

Assim, a “mulher” do campo reacionário chega na forma algo surpreendente de Gaspar. Vale dizer: as saliências reacionárias de Flávio se tornam ainda mais angulosas. Se vai dar certo para eles e errado para o Brasil, não sei. Não faço previsões. A receita do bolo não parece ser boa.

No anúncio do nome, Flávio entregou o jogo: Gaspar, que foi relator do circo ruim disfarçada de CPMI do INSS, é aquele que pediu a prisão preventiva de Lulinha…  Está clara qual será a peça de resistência da campanha. Parece ter a certeza de que pode contar com vazamentos seletivos contra o filho do presidente e nenhum oriundo do inquérito do “Dark Horse”, em que ele próprio é investigado.

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do Metrópoles

HISTÓRIA

Lula teve e tem dificuldades com o Congresso, sim. Mas coisas importantes se aprovaram nesses quatro anos, não? Reforma tributária; arcabouço fiscal — que tem de passar por correções —; taxação dos super-ricos; voto de qualidade no Carf. Nas demandas sociais, houve derrotas importantes porque temos um Congresso com dois terços de conservadores e reacionários. Jair Bolsonaro aprovou o quê? Colocou nas mãos de Arthur Lira o Orçamento Secreto e fui cuidar de dar um golpe de Estado…

A nova legislatura tende a ser igual a esta, quiçá pior… Nos valores, não duvido de que houvesse maior identidade com Flávio. Mas atenção! Já há hoje. E por que o Centrão desertou e preferiu a neutralidade? Há certas questões, sim, que dizem respeito ao peso que algumas legendas têm no Nordeste, onde o senador mal existe como candidato.

Mas há mais. Na tal live da extrema direta, o postulante do PL voltou a acenar com o confronto com o Supremo, sugerindo uma articulação em favor do impeachment de ministros do STF. E pôs em dúvida a isenção de magistrados como Alexandre de Moraes (claro!), Flávio Dino e Cristiano Zanin. E aí veio a conversa: Bolsonaro teria sido julgado por seus inimigos. A propósito: quando puderem, façam uma pesquisa sobre o “Direito Penal do Inimigo” só para que constatem como os bolsonaristas nem sequer sabem a essência da teoria. Mas volto ao ponto.

Se esses ministros fossem naturalmente suspeitos para julgar Bolsonaro e qualquer coisa que diga respeito ao bolsonarismo, qual seria a isenção de André Mendonça para ser relator de dois inquéritos que investigam Lulinha e de outro, o da “Dark Horse”, em que o próprio Flávio é investigado? Quando foi aprovado pelo Senado, Mendonça foi orar em línguas (glossolalia) com Michelle. Quando assumiu o Ministério da Justiça, em 29 de abril de 2020, substituindo Sergio Moro, que foi demitido porque Bolsonaro queria intervir (e interveio) na PF, chamou o chefe de “Profeta da Segurança Pública”. Segundo o próprio Flávio, o que torna Mendonça “isento”, e os demais ministros “parciais”? Deixo claro: esses critérios são dele, não meus.

Como se nota, nem o centrão quer um candidato que prometa, de saída, confronto com o Supremo e vingança. Por mais que possam comungar de alguns valores.

DE VOLTA A GASPAR. E KÁSSIO?
O deputado Arthur Lira (PP-AL) certamente participou da articulação em favor de Gaspar. Resolve problemas de seu próprio palanque em Alagoas. O ex-presidente da Câmara, diga-se, entrou firme na articulação para tentar levar a federação União Progressista para a coligação de Flávio. Ciro Nogueira e Antônio Rueda resistiram.

Aliás, até Kássio Nunes Marques, ora vejam!, se mobilizou em favor do apoio. Como se nota, não faltou a Flávio nem mesmo a mãozinha de um ministro do STF e atual presidente do TSE, que, obviamente, na função de articulador de alianças, estava costurando pra fora…

Não deu certo. A “mulher” que viria dar um ar “moderno” à campanha de Flávio tem a cara de Alfredo Gaspar, pensa como Alfredo Gaspar, tem corpo de Alfredo Gaspar, comporta-se como Alfredo Gaspar. Acho que se trata mesmo de… Alfredo Gaspar.


Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Reinaldo Azevedo.