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Ex-advogado de Padilha dirige ONG que ganhou contrato bilionário na Saúde

Por Vinicius Passarelli
Ricardo Stuckert

A entidade ganhadora de um contrato de R$ 1,95 bilhão no Ministério da Saúde para gerir o novo Hospital Inteligente do SUS tem entre seus diretores um ex-advogado do ministro Alexandre Padilha (PT). Criado em março deste ano, o Instituto Tecnológico de Medicina Inteligente do Brasil (ITMI) foi declarado o vencedor do chamamento público em publicação no Diário Oficial da União do último dia 3 de setembro.

Com histórico profissional ligado ao PT, o advogado Antonio Pedro Lovato consta como um dos diretores do instituto, criado em março deste ano, de acordo com dados da Receita Federal. O ITMI tem como presidente a médica cardiologista Ludhmila Hajjar, uma das idealizadoras do projeto do Hospital Inteligente.

Além de Lovato, também são diretores da entidade o neurocirurgião Carlos Gilberto Carlotti Júnior, reitor da USP até janeiro deste ano; o empresário Guilherme Pellegrini Mammana; e os médicos Tarcisio Eloy Pessoa de Barros Filho, Fábio Biscegli Jatene e Giovanni Guido Cerri, ligados à Faculdade de Medicina da USP.

Atuação na prefeitura

Em 2016, na gestão de Fernando Haddad (PT) na Prefeitura de São Paulo, Antonio Pedro Lovato atuou ao lado de Alexandre Padilha na Autarquia Hospitalar Municipal. O advogado ocupou o cargo de chefe de gabinete da autarquia, enquanto Padilha era o superintendente.

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do Metrópoles

Depois, Lovato passou a atuar como advogado de Padilha em processos no Tribunal de Contas do Município (TCM) relacionados à atuação do atual ministro na Secretaria Municipal de Saúde, pasta que o ministro chefiou.

Documentos oficiais do TCM registram a Lovato Advogados Associados e Antonio Pedro Lovato como representantes de Alexandre Padilha em processos ligados a contratos de gestão de organizações sociais em unidades de saúde do município.

Em ata de uma sessão realizada em abril de 2025, Lovato consta nas notas taquigráficas como o representante legal de Padilha em um processo datado de 2017, sobre um contrato emergencial feito pela pasta municipal.

O advogado também ocupou o cargo de Secretário Municipal de Assuntos Jurídicos da prefeitura de Mauá, na grande São Paulo, durante a gestão de Oswaldo Dias (PT), entre o final dos anos 1990 e começo dos anos 2000. Há também registro do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP), de 2022, em que Lovato consta como advogado do PT de Rio Grande da Serra, cidade da região metropolitana.

A coluna fez contato com Lovato, que não quis comentar. Em nota, o Ministério da Saúde afirmou que a seleção da Organização Social foi realizada por meio de edital público, com ampla concorrência e critérios objetivos, cumprindo estritamente a legislação.

“A avaliação das propostas foi feita por comissão independente composta também por integrantes de outros órgãos – como do BNDES, Ministério do Desenvolvimento, Indústria a Comércio e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação”, disse a pasta.

O ministério ainda afirmou que cabe exclusivamente às organizações e entidades sem fins lucrativos indicarem ou selecionarem sua diretoria. “A instituição vencedora reúne profissionais e professores de diferentes instituições brasileiras com expertise em gestão hospitalar de alta complexidade, saúde digital e inovação no setor”, completou.

Entidade criada em março

O Metrópoles mostrou que o edital de chamamento do contrato saiu pouco mais de três meses depois da criação do ITMI, entidade presidida pela coordenadora do projeto do novo Hospital Inteligente, Ludhmila Hajjar, da Faculdade de Medicina da USP. O instituto foi o primeiro colocado na disputa.

A segunda colocada no chamamento foi a Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM), entidade criada em 1971 e que possui contratos para gerir centenas unidades de saúde espalhadas por São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Ceará.

À época, a reportagem tentou contato com Ludhmila Hajar. O espaço segue aberto para manifestação.

Entre as atribuições, o ITMI deverá executar atividades de “apoio à implementação da rede de UTIs Inteligentes” e do Instituto Tecnológico de Emergência (ITE), nome oficial do Hospital Inteligente. A unidade será instalada dentro do complexo do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

O projeto foi viabilizado após o governo federal tomar empréstimo de R$ 1,7 bilhão no Banco do Brics, que desde 2023 é presidido pela ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

A assinatura do contrato foi celebrada em janeiro deste ano, em evento com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), do ministro da Saúde, Alexandre Padilha (PT), de Dilma e de Ludhmila.

Polêmica com pesquisadores

O projeto de instalação do Hospital Inteligente causou polêmica entre pesquisadores de São Paulo após correr a notícia de que a nova unidade seria construída onde hoje se encontra o Instituto Adolfo Lutz (IAL), laboratório público ligado à Secretaria Estadual da Saúde (SES).

O governo paulista é parceiro no projeto e responsável por oferecer o terreno em que será instalado o Hospital Inteligente.

O Metrópoles mostrou que a diretoria do IAL calcula que a mudança de sede do órgão custaria cerca de R$ 446 milhões aos cofres estaduais e levaria três anos para ser concluída. As informações constam em documento assinado pela atual diretora geral do Lutz, Adriana Bugno, em resposta a ofício da deputada estadual Beth Sahão (PT).

De acordo com o Lutz, a construção de novo prédio para abrigar toda a estrutura do instituto custará R$ 322 milhões e levaria 30 meses. Depois dessa etapa, serão necessários mais seis meses e R$ 124,25 milhões para fazer o transporte dos ativos dos laboratórios. Referência na área de vigilância epidemiológica e sanitária, o instituto realiza, atualmente, cerca de 600 tipos de exames.

O documento assinado pela diretora geral do Adolfo Lutz afirma que o cálculo dos valores necessários para a mudança foi solicitada pelo secretário de Saúde do governo Tarcísio, Eleuses Paiva (PSD).

Os pesquisadores do Adolfo Lutz tiveram conhecimento da possível mudança de local do órgão por meio de postagem nas redes sociais feita pela própria Ludhmila Hajjar. Atualmente, o terreno abriga seis prédios de laboratórios do Lutz. A medida gerou reação dos pesquisadores, organizados por meio da Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC).

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Segundo a diretoria do instituto, à exceção de dois prédios que são tombados, o restante da estrutura deve ser demolida. De acordo com o governo federal, o projeto arquitetônico prevê edifício de 150 mil m², “com padrões internacionais de sustentabilidade e segurança, soluções de logística avançada e ambientes humanizados para pacientes e equipes”.

A Secretaria de Saúde do Governo de São Paulo afirma que ainda não definiu o local de implantação da unidade. “O projeto está em fase de detalhamento técnico, e as alternativas seguem em análise pelas áreas responsáveis e pelas instituições envolvidas, considerando viabilidade operacional, estrutural, assistencial e orçamentária”, diz a pasta.

Em relação ao Instituto Adolfo Lutz, a secretaria afirmou que “qualquer decisão será precedida de planejamento técnico, com preservação das atividades laboratoriais, de vigilância, pesquisa e referência”. “O processo é conduzido em diálogo com as instituições envolvidas, com respeito ao patrimônio público e à continuidade dos serviços essenciais”, completou.

Hospital Inteligente

  • De acordo com o governo federal, o ITMI será o primeiro hospital inteligente do país, integrando tecnologias como inteligência artificial, internet das coisas, big data, telessaúde e sistematização de processos.
  • A expectativa, segundo os idealizadores, é que se torne um centro de excelência em saúde digital, combinando as ferramentas com ambulâncias conectadas em 5G, automação hospitalar, integração com prontuários eletrônicos e sistemas preditivos de gestão assistencial.
  • O ITMI terá 800 leitos dedicados à emergência de adultos e crianças nas áreas de neurologia, neurocirurgia, cardiologia, terapia intensiva e outras urgências.
  • No final do ano passado, o Senado autorizou a contratação de empréstimo junto ao Banco do Brics, de cerca de US$ 320 milhões para custear a construção do novo hospital.

Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Vinicius Passarelli.