Geral

Ex-funcionário alertou Anac que Voepass reaproveitava peças em aviões

Por Madu Toledo
Secretaria de Segurança de São Paulo

Um ex-inspetor da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) alertou a agência, antes do acidente da Voepass em Vinhedo (SP), sobre o suposto reaproveitamento irregular de peças em aeronaves da companhia. A denúncia foi revelada pelo Fantástico neste domingo (9/8).

O ex-servidor, que trabalhou por 16 anos na Anac e foi exonerado em 2025, afirmou ter identificado problemas relacionados à manutenção e à utilização de componentes sem a devida avaliação de segurança de voo.

Segundo documentos obtidos pelo programa, em 2019, ele recomendou, pela primeira vez, a suspensão da autorização de voo da MAP Linhas Aéreas, empresa que posteriormente se fundiu à Passaredo e deu origem à Voepass.

Na ocasião, o inspetor relatou haver evidências de que peças estavam sendo utilizadas sem avaliação adequada. A recomendação, porém, não foi seguida pela agência.

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Em 2022, o servidor voltou a alertar sobre possíveis irregularidades. Dessa vez, afirmou que peças de uma aeronave envolvida em um acidente em Rondonópolis (MT), em 2016, estariam sendo reaproveitadas de forma irregular.

Sem obter providências internas, o então inspetor encaminhou os relatos a órgãos internacionais, entre eles a Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA) e a Agência da União Europeia para a Segurança da Aviação (EASA).

Segundo o Fantástico, a Anac posteriormente o desautorizou perante essas instituições. O servidor acabou respondendo a um processo administrativo por insubordinação e foi exonerado no ano passado.

As denúncias são reveladas dois anos após a queda do voo 2283, da Voepass, em Vinhedo. O acidente ocorreu em 9 de agosto de 2024 e matou as 62 pessoas que estavam a bordo.

A aeronave, um ATR-72, havia decolado de Cascavel (PR) com destino ao Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP) quando caiu em uma área residencial de Vinhedo.

PF conclui investigação

Na última quinta-feira (6/8), a Polícia Federal concluiu a investigação do acidente e indiciou, ao todo, 16 pessoas. Entre elas pilotos, funcionários de solo, gerentes, diretores e o presidente da companhia, que podem responder por crimes relacionados à segurança do transporte aéreo e falsidade ideológica.

De acordo com a investigação, a empresa apresentava problemas estruturais e uma cultura interna que, segundo os investigadores, priorizava a operação em detrimento da segurança.

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Segundo André Ribeiro, delegado de PF e chefe da Delegacia da Polícia Federal em Campinas, a investigação identificou uma “cultura organizacional de não reporte” na empresa. “Havia ali uma cultura realmente de omissão, uma cultura implementada na empresa, que ia em todas as cadeias.”

O documento, ao qual o Metrópoles teve acesso, tem 200 páginas e detalha a análise técnica das autoridades, incluindo exames no local do acidente, registros meteorológicos e o funcionamento de sistemas de proteção da aeronave.

A investigação também apontou que o sistema de degelo da aeronave apresentou falhas pelo menos 15 vezes antes do acidente. Os problemas, contudo, não teriam sido registrados no diário técnico.

Caso as falhas tivessem sido registradas, a aeronave não poderia ter decolado, segundo a apuração apresentada pelo programa.

Anac abriu processo interno

A Polícia Federal pediu à Justiça Federal o compartilhamento das provas com a Anac. A corporação também solicitou o envio do material à Procuradoria da República no Distrito Federal para avaliar eventuais responsabilidades de agentes públicos.

A Anac só cassou a autorização da Voepass em junho de 2025, dez meses após o acidente.

Em nota exibida pelo Fantástico, a agência afirmou que os achados relacionados à aeronave acidentada em Rondonópolis foram analisados e que as peças passaram por verificações conforme as normas aplicáveis. A Anac também informou ter aberto um processo interno para apurar eventuais responsabilidades de servidores.

A Voepass afirmou que a segurança sempre foi prioridade, que seus treinamentos seguem os protocolos estabelecidos e que colabora com as autoridades responsáveis pelas investigações.


Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Madu Toledo.