Os depoimentos colhidos pela Polícia Federal (PF) na investigação sobre a queda do avião da Voepass, em Vinhedo (SP), revelam relatos de uma rotina de pressão sobre funcionários da companhia para manter aeronaves em operação, mesmo diante de problemas técnicos. O acidente ocorreu em 9 de agosto de 2024 e matou as 62 pessoas que estavam a bordo.
As informações fazem parte do relatório final do inquérito policial, concluído e apresentado pela PF nessa quinta-feira (6/8). O documento reúne 35 oitivas de pilotos, mecânicos, coordenadores e ex-funcionários da companhia e agora será analisado pelo Ministério Público Federal (MPF), que decidirá se oferece denúncia à Justiça.
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do Metrópoles
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Destroços do avião que caiu em Vinhedo
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Retirada dos destroços do avião da Voepass em Vinhedo (SP)
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A queda durou 1 minuto
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Avião ficou totalmente destruído
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Copiloto perguntou o que estava acontecendo antes da queda
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Pressão para liberar aeronaves
Entre os depoimentos reunidos pela investigação está o do engenheiro aeronáutico e ex-coordenador de manutenção Alex de Souza Leandro. Ele foi indiciado pela Polícia Federal por atentado contra a segurança de transporte aéreo e por atentado contra a segurança de transporte aéreo qualificado pela destruição ou queda da aeronave com resultado morte.
Em depoimento prestado em junho deste ano, Alex afirmou que havia pressão para recolocar as aeronaves em operação rapidamente e disse que discutia com gestores porque se recusava a liberar aviões em desacordo com os procedimentos previstos nos manuais.
“A pressão existia, porque eles queriam que se liberasse a aeronave. […] O Juliano [Flores Pacheco, gerente do Centro de Controle de Manutenção] me ligava — a gente brigou várias vezes, eu e o Eric [Cônsoli, ex-diretor de manutenção da Voepass] também — porque, às vezes, atrasava o avião […]. A empresa era muito falha com peças, então tínhamos que ficar procurando, às vezes, uma congênere, tipo a Azul, que tivesse para poder emprestar […] uma ferramenta”, afirmou.
Ao detalhar como funcionavam as cobranças, Alex disse que os gestores insistiam para que todas as alternativas fossem esgotadas antes de manter um avião parado. Questionado sobre a atuação do então coordenador Juliano Flores, afirmou que as discussões eram frequentes.
“Ele ficava muito bravo — a gente discutia bastante, porque ele dizia que não tinha como. ‘Tem que dar um jeito.’ Eu falava: ‘Não tem como eu inventar no chão. Eu consigo liberar o avião dessa forma, de acordo com o manual; fora disso, eu não me responsabilizo por nada’”, declarou.
Apesar dos relatos de pressão para acelerar a liberação das aeronaves, Alex afirmou à PF que nunca recebeu orientação para deixar de registrar falhas de manutenção. Segundo ele, quando pilotos relatavam problemas apenas verbalmente, exigia que o registro fosse formalizado. “Se não tem report, não tem pane. O livro está aqui, escreve, por favor, para a gente poder tomar uma ação”, disse.
Diretoria queria “avião voando”
Os depoimentos colhidos pela Polícia Federal também apontam relatos de uma pressão interna para evitar que aeronaves ficassem paradas para manutenção. Segundo o auxiliar de manutenção Guilherme Pereira, essa cobrança partia da diretoria da Voepass e chegava aos pilotos e mecânicos por meio das chefias.
“Ela não queria ver avião parado, ela queria avião voando”, afirmou Guilherme aos investigadores.
Segundo ele, a pressão envolvia nomes da cúpula da empresa, como o então diretor de manutenção, Eric Cônsoli, o chefe do Centro de Controle de Manutenção (MCC), Juliano Flores Pacheco , e o chefe dos pilotos, Raphael Limongi de Figueiredo.
“O Eric era um, né, que era o diretor responsável ali. Ele até ligava para os encarregados, os líderes da noite, colocando pressão”, declarou.
Sobre Limongi, Guilherme afirmou que ele atuava diretamente junto às tripulações quando havia resistência em seguir com voos por causa de problemas técnicos. “O comandante falava que iria reportar algum item e iria, assim, por ele não iria seguir no voo. (…) Aí ele ligava para a chefia dele, que era, na época, o Limongi. (…) E o próprio Limongi, eu não sei o que falava para eles e tudo mais, que, por fim, a tripulação resolvia seguir com a aeronave”, relatou.
Ainda segundo o mecânico, em algumas situações, falhas identificadas nas aeronaves não eram registradas imediatamente no local onde o problema era constatado. “Às vezes não reportava aqui, em Ribeirão, mas reportava na base seguinte. Eles queriam tirar o avião daqui de toda forma”, disse.
Guilherme também afirmou que a pressão para manter a operação poderia afetar a rotina da manutenção. Segundo ele, com pouco tempo de solo entre os voos, algumas tarefas acabavam sendo adiadas ou feitas sem a profundidade necessária.
“A aeronave, ela chega, no caso, nesse dia, ela chegou, ela ficou com muito pouco tempo de solo, então assim, as tarefas que tinham que ser feitas, muitas tarefas, não eram feitas mais detalhadamente. (…) Muita coisa, às vezes, passava batido por questão de tempo mesmo, porque eles não queriam deixar a aeronave parada”, afirmou.
Outro depoimento citado pela PF foi o da comissária Alessandra Moralez. Ela relatou que havia uma cobrança constante para que a operação fosse mantida, mesmo diante de dificuldades envolvendo manutenção.
Ela também relatou que ouvia de colegas sobre orientações para evitar registros que pudessem impedir a continuidade dos voos. “Eu já ouvia muito isso. ‘Ah, eu tenho que prosseguir porque o diretor pediu’. ‘Ah, não vou poder colocar isso agora porque só quando chegar em Ribeirão Preto para colocarmos, senão vai atrapalhar a malha’”, afirmou.
Laudo pericial apontou sequência de falhas
As oitivas integram um conjunto maior de provas reunidas pela Polícia Federal. O laudo pericial elaborado pelo Instituto Nacional de Criminalística (INC) concluiu que havia indícios de falhas sucessivas no sistema de degelo da aeronave em voos anteriores ao acidente, além da ausência de registros formais dessas ocorrências e de uma sequência de omissões que permitiu que o avião continuasse operando.
Segundo a perícia, os problemas no sistema de degelo se repetiram antes da queda, mas deixaram de ser registrados no diário de bordo, impedindo que fossem formalmente encaminhados para manutenção. Os investigadores também identificaram indícios de uma cultura organizacional de normalização de desvios operacionais.
Quem são os indiciados
A investigação da Polícia Federal sobre o acidente da Voepass indiciou 16 funcionários e ex-funcionários da empresa pelos crimes de atentado contra a segurança do transporte aéreo, sinistro aéreo com resultado morte e falsidade ideológica.
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Veja como cada um foi indiciado:
- Edson Serra Martins: indiciado por falsidade ideológica.
- Luciano Alves de Macedo: indiciado por sinistro aéreo com resultado morte.
- Oderlino de Campos Figueiredo: indiciado por atentado contra a segurança do transporte aéreo, por duas vezes.
- John Major Viana: indiciado por atentado contra a segurança do transporte aéreo.
- Marcos Hiroyuki Sato: indiciado por sinistro aéreo com resultado morte.
- Alex de Souza Leandro: indiciado por atentado contra a segurança do transporte aéreo, por duas vezes, e por sinistro aéreo com resultado morte.
- William Schmidt Agatz: indiciado por atentado contra a segurança do transporte aéreo, por três vezes, e por sinistro aéreo com resultado morte.
- Juliano Flores Pacheco: indiciado por atentado contra a segurança do transporte aéreo, por três vezes, e por sinistro aéreo com resultado morte.
- Raphael Limongi de Figueiredo: indiciado por atentado contra a segurança do transporte aéreo, por três vezes, e por sinistro aéreo com resultado morte.
- Marcel Sarquis Moura: indiciado por atentado contra a segurança do transporte aéreo, por três vezes, e por sinistro aéreo com resultado morte.
- Tiago Passucci Morani: indiciado por atentado contra a segurança do transporte aéreo, por três vezes, e por sinistro aéreo com resultado morte.
- Carlos Alberto Costa: indiciado por atentado contra a segurança do transporte aéreo, por três vezes, e por sinistro aéreo com resultado morte.
- Eric Consoli: indiciado por atentado contra a segurança do transporte aéreo, por três vezes, e por sinistro aéreo com resultado morte.
- Rafael Gimenez Rodrigues: indiciado por atentado contra a segurança do transporte aéreo, por três vezes, e por sinistro aéreo com resultado morte.
- David da Costa Faria Neto: indiciado por atentado contra a segurança do transporte aéreo, por três vezes, e por sinistro aéreo com resultado morte.
- José Luiz Felício Filho: indiciado por atentado contra a segurança do transporte aéreo, por três vezes, e por sinistro aéreo com resultado morte.
Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Giovanna Estrela.




