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Guerra deixa marcas na saúde mental de 10 milhões de pessoas na Ucrânia

Por Junio Silva
Nina Liashonok/Ukrinform/NurPhoto via Getty Images

Depois de quase dois anos de guerra, o sono de Andrei Kurkov se tornou ansioso e instável. Eram efeitos diretos de uma crise de saúde mental instalada no país que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), atinge atualmente 10 milhões de pessoas na Ucrânia. 

“Mesmo que nosso corpo não tenha sido capturado pelo inimigo, nosso corpo foi”, afirma o escritor ucraniano em um dos últimos capítulos do livro “Ucrânia: diário de uma guerra”.

Lançada em 2025, a obra é um registros dos primeiros dois anos de guerra. Nas cerca de 400 páginas, Kurkov descreve como o conflito passou a impactar o cotidiano, e as mentes, de milhares de ucranianos.

Ao Metrópoles, o doutor Jarno Habicht, que atuou como representante da Organização Mundial da Saúde (OMS) na Ucrânia nos últimos 8 anos, revela que 1 em cada 5 pessoas que vivem em áreas afetadas pela guerra relataram algum tipo de condição de saúde mental adversa após o início da guerra.

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do Metrópoles

“Para entender a situação, é importante reconhecer as condições em que o povo da Ucrânia vive atualmente”, explica o médico. “Existe uma ameaça constante à vida e à saúde, ataques  dia e noite, interrupções no sono, preocupação com entes queridos que servem nas forças armadas ou vivem em regiões no front de batalha, o impacto econômico mais amplo da guerra, entre outros fatores. Tudo isso afeta inevitavelmente a saúde mental e o bem-estar das pessoas”.

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Guerra se arrasta por mais de quatro anos

  • A guerra na Ucrânia começou em 24 de fevereiro de 2022, após a Rússia lançar uma invasão em larga escala contra o país vizinho.
  • De acordo com a Organização das Nações Unidas, cerca de 1,4 milhão de militares, de ambos os lados, morreram.
  • O número de vítimas civis gira em torno de 14 mil, enquanto mais de 37 mil pessoas ficaram feridas.
  • A violência também forçou mais de 9 milhões de pessoas a fugirem de suas casas na Ucrânia. Deste número, 5,9 milhões buscaram refúgio em outros países, informou a Agência da ONU para Refugiados (Acnur). Outros 3,7 milhões de ucranianos estão deslocadas dentro do próprio país.
  • Rússia e Ucrânia começaram a negociar um possível acordo de paz em meados de 2025, com a mediação dos Estados Unidos.
  • Mas, apesar dos esforços e da promessa do presidente Donald Trump de encerrar o conflito, as conversas não avançaram.

Homens, mulheres, meninos e meninas. Os impactos psicológicos negativos do conflito não escolhem gênero ou idade, e afetam a população ucraniana muito antes da guerra em grande escala que começou em 2022.

O antigo chefe do escritório da Organização Mundial de Saúde (OMS) na Ucrânia, que deixou o posto no início deste mês, alerta que o processo de deterioração da saúde mental de ucranianos começou em 2014. Naquele ano, a Rússia iniciou uma invasão em pequena escala na região da Crimeia, onde viviam aproximadamente 2 milhões de pessoas.

De lá para cá, as necessidade de apoio psicológico na Ucrânia aumentaram com uma explosão de casos após a ofensiva russa em 2022.

Segundo dados recentes da OMS, 76% da população ucraniana relataram problemas de saúde mental entre fevereiro de 2025 e o mesmo mês deste ano.

Um estudo do Médicos Sem Fronteiras (MSF), publicado em 2025, aponta que a ansiedade é a principal complicação psicológica provocada pela guerra, atingindo 70% dos moradores da Ucrânia. O estresse é a segunda maior queixa, afetando 22% da população ucraniana.

Mesmo diante de um cenário incerto sobre quando a guerra pode terminar, Jarno Habicht alerta que o fim dos bombardeios na Ucrânia não significará uma cura instantânea para ucranianos afetados psicologicamente pelos anos de destruição. A OMS alerta que os efeitos negativos da guerra para a saúde mental podem durar anos, e atingir diversas gerações.

Por isso, a organização defende o fortalecimento do sistema de saúde ucraniano, com o objetivo de preparar o país para lidar com o pós-guerra.

O processo já têm sido implementado no país, em esforços conjuntos do governo ucraniano, organizações internacionais e países aliados, há alguns anos.

Em 2019, a OMS implantou o Programa de Ação para Lacunas em Saúde Mental (mhGAP) no país. Desde então, mais de 9 mil profissionais de atenção primária à saúde receberam treinamento para lidar com casos relacionados a saúde mental.

O governo ucraniano, por sua vez, lançou o Programa Nacional de Saúde Mental “Como vai você?” em 2022, em parceria com a OMS, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e países parceiros de Kiev. A iniciativa, idealizada pela primeira-dama Olena Zelenska, fornece apoio psicossocial para afetados pela violência no país.

Apesar disso, o ex-chefe do escritório da OMS na Ucrânia alerta que tais esforços enfrentam grandes obstáculos: as bombas, mísseis, drones e artilharia que continuar a ser lançados contra o território ucraniano pela Rússia.

“Desde o início da invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia até o momento, a OMS verificou 3.257 ataques contra a assistência à saúde, incluindo ataques a instalações de saúde, ambulâncias, armazéns e outras infraestruturas médicas”, afirma o antigo representante da OMS no país. “Esses ataques resultaram na morte de 246 pessoas, e deixaram mais de 1.079 profissionais de saúde e pacientes feridos”.


Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Junio Silva.