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Homem atingido por onda: como a força do mar pode lesionar a coluna

Por Fernanda Cavalcante
Material cedido ao Metrópoles

Um banho de mar e um mergulho nas ondas podem parecer inofensivos, mas a força da água em movimento pode provocar um trauma grave na coluna. Foi o que aconteceu com Filipe de Freitas, 41 anos, morador de Águas Claras (DF), que perdeu os movimentos das pernas e tem dificuldade para movimentar o braço direito após ser atingido por uma onda em 10 de agosto, na Praia de Macaraípe, durante uma viagem a Recife (PE).

Filipe sofreu um traumatismo raquimedular cervical, ou seja, uma lesão na medula espinhal na região do pescoço. Ele está internado no Hospital da Restauração Governador Paulo Guerra, em Recife, onde passou por cirurgia. Na mesma unidade, o neurocirurgião Nêuton Magalhães, preceptor da residência de Neurocirurgia, explicou como um acidente no mar pode provocar uma lesão desse tipo.

Entenda o caso

  • Filipe de Freitas, 41 anos, morador de Águas Claras (DF), foi atingido pelas costas por uma onda em 10 de agosto, enquanto tomava banho de mar em Recife (PE). O acidente aconteceu no primeiro dia da viagem com a família. Após o impacto, ele perdeu os movimentos e permaneceu dentro da água sem conseguir levantar a cabeça.
  • O sobrinho adolescente percebeu que Filipe não respondia e chamou ajuda. O Samu fez o atendimento e o encaminhou para um hospital público de Recife. Exames confirmaram um traumatismo raquimedular cervical, uma lesão na medula espinhal na região do pescoço.
  • Filipe passou por cirurgia em 14 de agosto e permanece internado no Hospital da Restauração Governador Paulo Guerra. Ele está consciente e consegue se comunicar. Atualmente, movimenta o braço esquerdo, tem dificuldade para mexer o direito e continua sem movimentos nas pernas.
  • A viagem para Recife havia sido planejada pela família após a morte do avô de Filipe, ocorrida pouco mais de 20 dias antes. Segundo a irmã, Paula Torres, os familiares queriam proporcionar momentos felizes à avó, que havia perdido o companheiro, em meio ao período de luto.

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Como uma onda pode causar uma lesão tão grave?

Segundo o neurocirurgião Nêuton Magalhães, o risco está na força que a onda transfere ao corpo. Quando uma pessoa é atingida de surpresa, principalmente pelas costas, pode ser empurrada para frente e para baixo. Em áreas rasas, existe ainda o risco de a cabeça atingir o fundo do mar.

“O que determina a gravidade não é apenas o tamanho da onda. A posição do corpo no momento do impacto e a forma como a cabeça e o pescoço se movimentam também são importantes”, explica.

Se a cabeça atinge o fundo, ela pode parar bruscamente enquanto o restante do corpo continua em movimento. Esse movimento pode sobrecarregar a coluna cervical e provocar fraturas, deslocamentos das vértebras e lesões da medula.

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“Quando existe esse movimento brusco, podemos ter uma lesão da medula por compressão, estiramento ou até por alterações na própria estrutura da coluna. O resultado depende da intensidade do trauma e de quais estruturas foram atingidas”, afirma Nêuton.

A medula espinhal passa pelo interior da coluna e funciona como uma ligação entre o cérebro e o restante do corpo. Uma lesão na região cervical pode, portanto, comprometer os comandos enviados aos braços e às pernas.

“Quanto mais alta é a lesão na medula, maior pode ser a quantidade de funções comprometidas. Na região cervical, podemos ter alterações nos quatro membros e também em funções importantes, como a respiração”, explica o neurocirurgião.

O especialista ressalta que a água rasa também exige atenção. A proximidade do fundo aumenta o risco de a cabeça sofrer um impacto durante a queda provocada pela onda. Por isso, a recomendação é evitar mergulhos de cabeça em locais cujo fundo seja desconhecido, não ficar de costas para a arrebentação e respeitar as orientações dos salva-vidas e a sinalização da praia.

Por que a lesão pode causar paralisia?

“A medula espinhal é uma estrutura que fica protegida dentro da coluna e faz a comunicação entre o cérebro e o restante do corpo. É por meio dela que os comandos do cérebro chegam aos braços e às pernas”, exemplifica o especialista.

Por isso, quando a medula é atingida na região do pescoço, a lesão pode comprometer os movimentos dos quatro membros.

“Quando existe uma lesão cervical, essa comunicação pode ser interrompida e o paciente pode perder movimentos dos braços e das pernas”, explica Nêuton.

Foi o que ocorreu com Filipe. Após o acidente, ele perdeu os movimentos das pernas e ficou com dificuldades para movimentar os braços. Ele passou por cirurgia e, atualmente, consegue mexer o braço esquerdo, mas ainda apresenta dificuldade para movimentar o direito.

É possível recuperar os movimentos?

Segundo o neurocirurgião, não é possível prever a recuperação apenas pelo tipo de acidente. O prognóstico depende principalmente do local e da gravidade da lesão e de quanto da medula continua funcionando.

Nos casos em que a medula não é completamente lesionada, algumas funções podem permanecer preservadas. Isso pode aumentar as possibilidades de recuperação ao longo do tratamento.

“Quando existe algum movimento ou sensibilidade preservada abaixo do nível da lesão, significa que parte da comunicação entre o cérebro e o corpo continua funcionando. Isso é importante porque é justamente sobre essas funções preservadas que a reabilitação vai trabalhar”, explica.

No caso de Filipe, o movimento preservado do braço esquerdo mostra que algumas funções permanecem ativas. No entanto, o especialista ressalta que isso, isoladamente, não permite afirmar quanto dos movimentos serão recuperados.

“A recuperação pode acontecer principalmente nos primeiros meses, mas a evolução varia de acordo com cada paciente e pode continuar por um período mais longo. O tratamento envolve acompanhamento médico e reabilitação, com profissionais como fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais”, acrescenta.

A cirurgia também não significa que os movimentos voltarão imediatamente. De acordo com Nêuton, o procedimento é realizado para estabilizar a coluna e, quando necessário, retirar a pressão sobre a medula.

“A cirurgia não recupera a medula que foi lesionada. O objetivo é estabilizar a coluna e retirar uma eventual compressão sobre a medula, criando as melhores condições para que o paciente possa se recuperar.”

Depois da cirurgia, começa uma etapa igualmente importante: a reabilitação. O objetivo é preservar as funções que permaneceram, recuperar o máximo possível dos movimentos e ajudar o paciente a conquistar autonomia.


Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Fernanda Cavalcante.