E quem diria que a luta de classes voltaria ao centro do debate político. Os privilégios históricos da concentração de renda através das cobranças de impostos foram impulsionados por vídeos de IA e pela segunda vez a esquerda consegue viralizar nas redes sociais – a primeira foi o debate do fim da escala 6×1. Lula, nosso conciliador-mor, com baixa popularidade e acuado pelas sabotagens do centrão no Congresso, vai flertando com os discursos mais à esquerda pensando em 2026.
A militância de esquerda deve, em parte, agradecer a Alcolumbre e Motta, presidentes do Senado e da Câmara, por reavivar o debate da justiça social. Tentaram humilhar e paralisar o governo com a derrubada do decreto que aumentava o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras). Viralizaram a hashtag “inimigos do povo”.
Segundo, o cálculo do bolsonarismo era impedir a Corte de julgar seus crimes e atrapalhar seus planos políticos – controlar o Judiciário faz parte da cartilha básica da extrema-direita mundial. Já a esquerda usa o IOF para debater justiça social e o assalto do Legislativo ao orçamento e o desequilíbrio entre os Três Poderes. Enfim, ninguém pediu cassação de Motta e Alcolumbre até o momento, certo? O conflito é parte do jogo político e só isso.
Isenção para quem ganha menos de R$ 5 mil, taxação dos super-ricos, fim da escala 6×1. Aos poucos os direitos dos trabalhadores e a luta contra as desigualdades vai fortalecendo o discurso de esquerda. É a aproximação dos problemas do dia-a-dia da maioria da população ao invés de cair na armadilha das pautas de costumes ou outras questões ideológicas. Foi o que fez o vencedor das primárias democratas em Nova Iorque Zohran Mamdani.
Com uma campanha com afiada nas redes sociais, ele debateu o sofrimento dos trabalhadores: o preço do aluguel, transporte gratuito, aumento do salário-mínimo, transparência dos gastos, sem fugir de temas espinhosos como o genocídio na Palestina – é uma esquerda que não arreda pé de suas ideias restituir com medo de perder votos.
Outro caso foi o de Gustavo Petro. O presidente da Colômbia sancionou sua reforma trabalhista após aprovação do Senado. Após meses de discussões com parlamentares, a proposta estava travada, já que Petro não tem maioria em nenhuma das Casas. Partiu para o ataque e defendeu uma consulta popular. Os congressistas cederam: aprovaram a reforma trabalhista e de aposentadorias, mas rejeitaram a consulta.
Durante muitos anos as pautas identitárias superaram as questões de classe. Elas devem ser defendidas, mas dentro do guarda-chuva da justiça social. Falta muito, entretanto, para as críticas ao neoliberalismo e a soberania popular serem o mote principal da esquerda, e que desatem em mobilização coletiva – e digital.




