
As marcas do tempo estão claras no rosto, na visão, na audição que permite pouca comunicação e nas mãos cansadas dos muitos anos de labuta. Dona Elza Margarita Castro Perna chega aos 110 anos de uma história vivida nos seringais do Acre, marcada por muito trabalho, determinação e um único e grande amor.
“Morava no seringal Sagrado de Santana. Trabalhava em todo trabalho, era na roça, plantava, criava [porcos, galinhas, capote]. Fiquei viúva, meu marido teve um problema do coração e nunca tivemos filhos. Foi um amor pra vida toda”, relembra do passado distante.
Irmã mais velha de 9 irmãos, Elza mora com uma das irmãs mais novas, Francisca Castro, 83 anos. É ela quem conta que a idosa ainda na juventude dizia que não queria saber de ter filhos e como casou depois dos 30, ‘fora do padrões’ da época, acabou não tendo herdeiros.
Ao perguntar sobre a vida dela na juventude, a principal lembrança e também saudade é do trabalho na roça.
“Tá mais difícil [a minha vida] porque não posso trabalhar”, conta a aposentada.
Elza viveu o período áureo da borracha e teve participação ativa nesse processo de extração. Ajudava o pai no colheita e defumação do látex. Por causa disso, ela é aposentada com a pensão conhecida como soldado da borracha, benefício concedido a brasileiros convocados pelo Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia (Semta) para trabalharem na extração de borracha, na época da Segunda Guerra (1939-1945).
Acolhida
Francisca Castro é uma das irmãs mais novas de Elza. Ela diz que desde o falecimento do marido dela, quando tinha cerca de 60 anos, passou a viver junto com a irmã. Agora, as duas são viúvas, nenhuma delas casou mais e são inseparáveis desde então.
“Ela mora há muitos anos comigo, desde que o marido dela morreu que mora comigo, já faz muitos anos. Ela tinha uns 60 anos mais ou menos. Eu era casada e ela já comigo, depois meu marido morreu e ela continuou comigo. Ainda continua comigo”, conta.
Elza perdeu o movimento das pernas após cair da cama e quebrar o fêmur. Agora, depende de uma cadeira de rodas há pelo menos oito anos.
“Nestes últimos dias ela não tem dormido, grita e fala que quer ir para casa, há uns três meses teve um AVC”, acrescenta. Apesar dos problemas de saúde que tem, a idosa não teve Covid, segundo relatou a irmã e está vacinada com as três doses do imunizante. As duas contam com duas ajudantes que moram com elas e cuidam da casa, alimentação, medicamentos e higiene.




