O Ministério Público do Distrito Federal (MPDFT) recebeu, por meio da ouvidoria, denúncias contra Maira Rocha, médium que comanda a Casa de Caridade Inácio Daniel, localizada em Águas Claras, no Distrito Federal. Ela é acusada — por dezenas de vítimas — de forjar cartas psicografadas de pessoas falecidas.
O órgão instaurou uma notícia de fato e a Promotoria de Justiça Criminal vai analisar os casos. A informação foi confirmada pelo MPDFT ao Metrópoles nesta segunda-feira (31/08).
“O MPDFT recebeu manifestação com informações sobre supostos crimes atribuídos a Maíra Alexandrina (nome de Maira Rocha). A partir do relato, foi instaurada uma Notícia de Fato, atualmente em análise por uma Promotoria de Justiça Criminal.”, informou o órgão.
A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) também abriu inquérito policial para investigar o trabalho da médium.
“Informo que na presente Delegacia (11ªDP) encontra-se um inquérito instaurado para apurar os fatos que ocorreram na cidade do Núcleo Bandeirante no ano de 2019. Em que pese o extenso lapso temporal, o registro da ocorrência ocorreu no dia 21/09/2025 e a investigação encontra-se em andamento. Esta investigação que tramita nesta delegacia (11ªDP) possui apenas uma vítima”.
Psicografia imprecisa
Diversos ex-frequentadores e membros influentes do meio espiritualista afirmam categoricamente que as psicografias de Maira são profundamente imprecisas e repletas de conceitos errôneos e mal interpretados coletados às pressas na internet.
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do Metrópoles
Os atingidos explicam que, no auge do desespero, a imensa carga emocional impede a percepção imediata das falhas e das discrepâncias. Contudo, superado o impacto inicial, a constatação da má-fé se torna cristalina.
Diversos ex-frequentadores do centro espírita, que preferiram não se identificar, perceberam que as informações dos textos psicografados por Maira são retirados de postagens no Instagram, Facebook e outras redes. Algumas das mensagens, inclusive, contém informações falsas.
Em uma nota publicada no site oficial do lugar, a equipe explica como funciona a elaboração das cartas. De acordo com as regras, qualquer pessoa pode receber uma mensagem de um ente querido. Para isso, basta inserir o nome em um livro disponível nas sessões. Em seguida, é necessário comparecer a mais um evento e, “caso seja permitido à quem se foi ditar uma carta, a Maira irá escrever e te entregar”.
O serviço é gratuito, porém, não é garantido que todos irão receber o recado. Conforme explica a Casa de Inácio Daniel, “o telefone só toca de lá pra cá, ou seja, você só receberá a carta se quem for escrever tiver permissão para isso”.
Entretanto, muitos dos que receberam o serviço afirmam que a realidade não é bem essa. O conteúdo dos textos vêm de publicações feitas em alguma rede social, segundo relatos obtidos pelo Metrópoles.
É o caso de Paulo*, de 52 anos, que recebeu um bilhete de sua falecida mãe, Gabriela*. Ao ler o conteúdo escrito por Maira Rocha, ele se emocionou bastante, mas só depois percebeu que algumas informações estavam erradas e que outras haviam sido retiradas do Instagram e do Facebook.
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O texto começa: “Meus amados filhos, lembro que quando pequenos eu ensinava a Salve Rainha com a régua na mão, era preciso viu”. Um comentário na conta pessoal de Gabriela no Facebook diz exatamente a mesma coisa: “Lembro como se fosse hoje, ela batendo a régua na perna e nos ensinando a Salve Rainha”.
O padrão segue ao longo de todo o texto. O problema maior é quando a carta, supostamente ditada pela falecida, cita o nome de uma neta que simplesmente não existe. A família acredita que é porque uma das noras fez algumas publicações falando que amava a filha, Fernanda*— só que esta é de outro casamento, ou seja, não é neta de Gabriela. A mensagem ainda esqueceu de mencionar o nome de alguns netos.
Uma contradição percebida pela família é que a Juliana*, irmã de Gabriela, usa o nome Julie na sua conta pessoal no Facebook, e esse mesmo apelido aparece no texto. No entanto, a família afirma que a mulher jamais teria chamado a irmã assim.
Outro trecho mostra que Maira realizava um verdadeiro trabalho de apuração antes das psicografias. Um parágrafo — que foi retirado de uma comunidade de ciclistas no Facebook — demonstra que a médium realizava de fato uma pesquisa aprofundada sobre a vida da pessoa morta e todo o seu círculo social.
A mesma carta ainda traz mais duas similaridades com duas postagens feitas na rede social. A primeira parabeniza um dos filhos pela formatura na graduação. Um post aberto ao público repete a mesma informação.
Outro recorte mostra o mesmo filho comentando sobre como ele se parece com a mãe. A carta de Maira traz exatamente a mesma comparação.
Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Carlos Carone.




