No auge da violência do cartel de Pablo Escobar, a cidade de Medellín, na Colômbia, atingiu cerca de 400 assassinatos por 100 mil habitantes em um ano. Como comparação, São Paulo teve 5 homicídios por 100 mil em 2024. Os corpos tombaram como folhas secas no outono e um rio de sangue tomou o município.
Pablo Escobar morreu em 1993. A partir dos anos 2000, sucessivos prefeitos, não importava a legenda, adotaram políticas públicas que são exemplo em todo mundo. Desabaram sobre as periferias investimentos em infraestrutura social, bibliotecas, parques, programas educacionais, transporte público eficiente. Grande parte do orçamento para a Educação e a Cultura – o hip-hop e o grafite se transformaram em orgulho e identidade. Vinte anos depois, a taxa de homicídios caiu para 19 a cada 100 mil. E qual foi uma das primeiras ações da nova gestão? Construir e manter banheiros públicos limpos, com módulos sanitários móveis no Centro. Quem contou essa história foi Célio Turino, historiador e idealizador dos Pontos de Cultura, durante uma palestra no Sesc.
Essa ausência só escancara, uma vez mais, a política higienista comum a todas as prefeituras paulistanas. Na região central, por exemplo, seriam as pessoas em situação de rua as mais beneficiadas. Há dois anos, o então subprefeito da Sé, coronel Alvaro Camilo, disse à Folha de São Paulo que o tema está sendo estudado e “o que acontece com banheiro público é vandalismo, uso inadequado e consumo e tráfico de drogas. É muito difícil. As pessoas não têm sentimento de pertencimento e não cuidam do espaço adequadamente”.
Pertencimento? A ausência de algo tão básico mostra como o direito à cidade é restrito, que o espaço público não é para todos, destinado à circulação e o consumo. Mas, sempre haverá um boteco para aliviar as angústias do corpo. Se comprar alguma coisa, está liberado o uso. Se não comprar, é preciso pedir e depender do humor do funcionário. Se ele não for com a sua cara, aí não há alternativa. É correr para qualquer lado.




