
Alçado por Paulo Guedes e Jair Bolsonaro (PL) à Presidência do Banco Central, cargo em que ocupou entre 28 de fevereiro de 2019 e 31 de dezembro de 2024, Roberto Campos Neto blindou o banqueiro Daniel Vorcaro e impediu, por ao menos duas vezes, a liquidação do Banco Master, que só teve suas atividades encerradas em 18 de novembro do ano passado, na gestão Gabriel Galípolo.
Segundo a reportagem, o ex-presidente do BC – neto de Roberto de Oliveira Campos, que foi Ministro do Planejamento e Coordenação Econômica no início da Ditadura Militar – teria prevaricado para buscar uma solução no “mercado”.
“À época, havia a expectativa de que o Master tivesse ativos que pudessem ser revendidos ao mercado, dentro da lógica de separação do “good bank” (parte boa do Master) e o “bad bank” (ativos podres do banco). Assim, o custo para o sistema financeiro e o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) seria menor”, diz o texto do Estadão.
A “solução”, no entanto, foi tentada por meio do Banco de Brasília, uma instituição pública, comandada pelo governo do Distrito Federal (GDF), comandado pelo também bolsonarista Ibaneis Rocha (MDB). A manobra, que causou sérios prejuízos para o BRB, foi o principal estopim para liquidação do Master e o desencadeamento das investigações sobre a rede de influência de Vorcaro, preso um dia antes do BC encerrar as atividades de seu banco.
Blindagem
De acordo com a reportagem, relatório do BC afirma que a “gestão de risco de liquidez” do banco de Vorcaro passou a ser acompanhada no primeiro semestre de 2024 devido ao “baixo estoque de ativos líquidos” – dinheiro em caixa – diante de “um cronograma forte de desembolsos para o pagamento de passivos”.
“Nessas circunstâncias, o Banco Central determinou a adoção de providências com vistas a assegurar a liquidez em níveis suficientes e adequados, assim como a apresentação de plano de contingência de liquidez atualizado”, afirma o documento entregue ao TCU.
O documento ainda diz que a crise no Master se agravou no semestre seguinte, com a “frustração do seu plano de negócios, que previa captar R$ 15 bilhões em recursos institucionais de longo prazo – mas somente R$ 2 bilhões foram efetivamente captados”.
“Em função da atipicidade das operações, o Banco Central apurou a existência de irregularidades relacionadas a: insuficiência de capital, como resultado de ajustes determinados após se apurar que haviam sido prestadas informações incorretas à Autarquia; inexistência de ativos líquidos na composição de fundo de liquidez que dava amparo às operações estruturadas de longo prazo; e não atendimento de normas relativas ao gerenciamento do risco de crédito, inclusive por depender de informações prestadas por terceiros”, diz o BC, revelando o caos na instituição de Vorcaro.
Os alertas, que partiram do próprio BC, foram ignorados por Roberto Campos Neto que, em outubro de 2023, já havia editado uma norma alterando a contabilização de precatórios (dívidas judiciais), abrindo brecha para o Master maquiar seu balanço.
À época, O banco de Vorcaro tinha bilhões de reais em precatórios e direitos creditórios, que foram retirados de seu balanço e permitiu aporte de mais dinheiro na instituição.
Antes disso, em agosto, a Warren Investimentos – uma corretora e gestora de investimentos brasileira – já havia alertado sobre o risco de compras de CDBs, que pagavam até 150%, do banco. No entanto, as corretoras, ligadas a bancos como XP, BTG Pactual e Nubank seguiram propagando as vendas dos títulos podres do banco de Vorcaro.
Seis meses após deixar o BC, em 1º de julho de 2025, Campos Neto assumi9u os cargos de Vice-Chairman (Vice-Presidente do Conselho) e Chefe Global de Políticas Públicas do Nubank e membro não independente do Conselho de Administração da Nu Holdings. Campos Neto foi procurado pelo Estadão, mas não se pronunciou sobre o caso.
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