A cerimônia de homenagem a Charlie Kirk expôs de forma cristalina a grande dúvida existencial da atual direita americana, que não é muito diferente das dúvidas que assolam as direitas europeias: quem é que merece mais ser apoiado? Um político com maus princípios que defende as causas que a direita considera serem as certas, ou um político de bons princípios, mesmo que defenda causas erradas? A maior parte dos americanos, como sabemos, votou no político dos maus princípios. Mas quando esses maus princípios se cruzam com a celebração do martírio de uma jovem estrela da direita religiosa – é assim que a morte de Charlie Kirk está a ser classificada pelos seus admiradores –, o resultado só pode ser um extraordinário curto-circuito.
O evento do passado domingo foi dominado por dois discursos: o de Donald Trump, a fechar, e o de Erika Kirk, que o precedeu. Erika Kirk é tudo o que podemos esperar de uma antiga Miss Arizona: muito bonita, muito loura, muito articulada, ligeiramente teatral, muito à vontade em cima do palco, muito mãe de família e muito religiosa. O momento mais forte e partilhado da sua excelente intervenção foi quando afirmou, comovida, que perdoava o assassino do seu marido: “Aquele homem, aquele jovem, eu perdoo-o. Perdoo-o porque foi o que Cristo fez, e era o que Charlie teria feito. A resposta ao ódio não é ódio. A resposta que conhecemos do Evangelho é amor, e sempre amor.” Isto foi dito no meio de uma gigantesca salva de palmas, e com metade da sala tão comovida quanto ela.
Daí que o vice-presidente J.D. Vance se tenha apressado a desculpá-lo: “Acho que o Presidente estava a brincar”, desvalorizou. “Se forem para trás e analisarem todo o discurso, aquilo que o Presidente estava a tentar fazer, de uma maneira humorística e muito pessoal, era alertar para o quão difícil é perdoarmos os nossos inimigos.” Infelizmente, o Presidente não estava a fazer nada disso. Em linguagem eclesial, Trump é um verdadeiro pagão, com uma concepção romana e imperial de poder, dado o seu fascínio pela glória. O seu 11.º mandamento é um regresso ao passado: o tempo do olho por olho e dente por dente, no qual a lei do mais forte impera. Tudo isto pode ser humano, demasiado humano. Absolutamente nada disto é cristão.
(Transcrito do PÚBLICO)




