Ravenna Alves15/08/2026 02:00
Vivemos na era das multinotificações. Com o desenvolvimento da tecnologia, os smartphones dominaram o mercado e agora acompanham o usuário do momento em que ele acorda até a hora de dormir. Na tela, a cada minuto brotam lembretes de emails, comentários em redes sociais, notícias, aplicativos mostrando que música está tocando, compromissos e promoções.
A comunidade científica está interessada em entender o que está acontecendo. Uma pesquisa publicada na revista Scientific Reports em 2023 colocou jovens adultos para fazer um teste de concentração. Parte deles, com o celular perto, e o restante, sem o apoio emocional do aparelho.
Os resultados indicaram pior desempenho quando o smartphone estava presente, sugerindo que ele consome parte dos recursos cognitivos disponíveis, mesmo quando não está sendo utilizado.
Por outro lado, um levantamento de 2025 publicado na revista European Journal in Health Psychology and Education aponta que essa relação não é tão direta. Os pesquisadores não encontraram diferença significativa no desempenho só por causa da presença do aparelho, mas pessoas com uso mais intenso do smartphone cometeram um pouco mais de erros.
Na prática, os dados indicam que o problema não está apenas em ter o celular por perto, mas em como ele é usado no dia a dia. Uma coisa é certa: o aparelho mudou o nosso cérebro e como o ser humano interage com o mundo.
Hiperestimulação não é só tempo de tela
Para tentar explicar esta nova fase do desenvolvimento humano, foi criado o conceito de hiperestimulação cognitiva. Ele descreve situações em que o cérebro é exposto a um volume e a uma velocidade de estímulos acima da sua capacidade de processá-los — algo que está mais ligado à forma de uso do que ao tempo total diante das telas. É o famoso brain rot, ou cérebro “podre”, que parece “desligar” quanto se vê superestimulado.
“A alternância constante entre redes sociais, mensagens, vídeos curtos e notificações reduz as oportunidades de atenção sustentada e de elaboração do que foi recebido”, explica o psiquiatra Antônio Egidio Nardi, professor da Faculdade de Medicina e no Instituto de Psiquiatria (IPUB) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Apesar disso, ele destaca que o tempo de tela, isoladamente, não explica o fenômeno. “Duas pessoas podem passar seis horas diante de uma tela e ter experiências completamente diferentes. Uma pode estudar ou escrever de forma concentrada. Outra pode alternar centenas de vezes entre conteúdos curtos. O segundo caso impõe muito mais mudanças rápidas de foco”, afirma.
O cérebro evoluiu ao longo dos tempos para focar em uma tarefa e descansar antes de passar para a próxima. Porém, hoje isso é impossível: a atenção é demandada em vários lugares ao mesmo tempo e o órgão deixa de operar em ciclos mais longos de concentração e para trabalhar em fragmentos, com interrupções frequentes.
Recompensa, novidade e repetição moldam o hábito
O funcionamento das plataformas digitais também contribui para essa dinâmica. Segundo a psicóloga Maria Clotilde Tavares, professora do departamento de Ciências Fisiológicas da Universidade de Brasília (UnB), o ambiente online opera com recompensas imprevisíveis, que estimulam a busca constante por novidade.
“A cada rolagem de tela há a expectativa de encontrar algo interessante, o que gera pequenos picos de dopamina”, aponta.
Com a exposição frequente, o cérebro se adapta. A tendência é que estímulos mais lentos percam atratividade, enquanto conteúdos rápido dominam a atenção. “A pessoa passa a precisar de estímulos mais intensos e rápidos para manter o mesmo nível de engajamento”, afirma.
O psiquiatra Nardi ressalta que o fenômeno não deve ser simplificado. A dopamina não está ligada apenas ao prazer: ela participa da motivação e da aprendizagem por recompensa.
“O problema é a combinação de recompensa imprevisível, novidade e repetição, que reforça o comportamento de verificar o celular constantemente”, explica. Segundo ele, notificações, curtidas e conteúdos novos funcionam como recompensas que não seguem um padrão fixo, o que aumenta a tendência de checar o aparelho várias vezes ao longo do dia.
Esse tipo de estímulo, rápido e facilmente acessível, acaba condicionando a busca frequente por novidade e gratificação imediata. Como consequência, atividades que exigem mais tempo e concentração, como ler um texto longo ou estudar, podem parecer menos atrativas.
O mecanismo ajuda a explicar um comportamento comum na rotina. A pessoa pega o celular para uma tarefa rápida e, quando percebe, já passou um longo período rolando a tela. A atenção se desvia do objetivo inicial — o desenho das redes é feito para garantir que o usuário ficará o máximo possível dentro o aplicativo, ainda que sem absorver nenhuma informação.
A dificuldade de concentração também está relacionada à forma como a atenção é exercitada. Segundo Maria Clotilde, trata-se de uma habilidade que depende de treino contínuo.
“A alternância constante entre conteúdos curtos reduz a necessidade de reter informações por mais tempo. Tarefas longas exigem esforço deliberado e não oferecem recompensa imediata, o que faz o cérebro evitá-las”, destaca.
Esse comportamento aparece na rotina. Atividades como leitura prolongada, estudo ou trabalho sem interrupções passam a exigir mais esforço. Ao mesmo tempo, cresce a tendência de buscar distrações a cada sinal de tédio.
Dicas para manter o foco ao estudar ou trabalhar
- Escolha um ambiente que o ajude a se concentrar. Vale usar fone de ouvido, virar a mesa para a parede ou escolher uma sala silenciosa.
- Feche abas ou recursos que não são necessários para a atividade.
- Estabeleça metas claras, o cérebro precisa de objetivos definidos para manter o foco.
- Divida tarefas longas em várias fases e faça pequenos intervalos ao terminar cada uma.
- Faça perguntas a si mesmo sobre o conteúdo que está lendo, pense em como organizar as informações em um resumo.
- Acabe com o modo multitarefa e foque em concluir uma tarefa antes de começar a próxima.
- Fique longe do celular: algumas pessoas colocam o aparelho em outro cômodo, ou dentro de uma gaveta. De toda forma, desligue as notificações.
- Práticas como a meditação ajudam a manter a atenção e reduzir a suscetibilidade a distrações.
- Durma bem. O sono de qualidade é essencial para o funcionamento do cérebro e restauração cognitiva.
Efeitos se conectam ao sono e à ansiedade
O uso intenso de tecnologias também está associado a sintomas como ansiedade, irritabilidade e dificuldade de foco. Segundo Nardi, essa relação ocorre em dois sentidos. “O ambiente digital pode intensificar os sintomas, enquanto pessoas mais ansiosas ou impulsivas tendem a usar mais as ferramentas”, afirma.
Entre os fatores envolvidos estão a disponibilidade permanente, a expectativa por respostas rápidas e a interrupção constante das atividades. A comparação com outras pessoas nas redes e o medo de perder algo importante também contribuem para esse cenário, aumentando a sensação de urgência e de vigilância contínua.
Esse comportamento tem reflexos diretos no bem-estar. Uma pesquisa Datafolha de 2022, que ouviu mais de 2 mil brasileiros, apontou que o uso intenso de redes sociais está associado a sentimentos como cobrança para se manter ativo online, medo de julgamento e insatisfação com a própria vida. Esses fatores, quando somados, podem favorecer quadros de ansiedade e depressão.
O uso do celular à noite é outro ponto crítico. A exposição prolongada às telas pode prejudicar o sono, tanto pela estimulação mental quanto pela dificuldade de se desconectar. “Privação de sono, ansiedade e dificuldade de concentração frequentemente se retroalimentam”, diz Nardi.
Essa relação também aparece em estudos científicos. Uma revisão publicada em 2024 na revista Springer indica que o uso de redes sociais está ligado à piora da qualidade do sono e a alterações na saúde mental, especialmente entre jovens. Os autores destacam que o efeito não depende apenas do tempo de uso, mas também da forma como as plataformas são consumidas e do envolvimento emocional do usuário.
Na prática, pessoas expostas a estímulos rápidos por longos períodos podem apresentar distração, impaciência, dificuldade para realizar tarefas mais repetitivas e problemas de organização. Esse conjunto de sinais pode lembrar quadros de déficit de atenção, mas os especialistas fazem uma distinção importante.
“Hiperestimulação digital não é sinônimo de TDAH”, afirma o psiquiatra. O transtorno tem base no neurodesenvolvimento e não pode ser explicado apenas pelo uso de telas.
Capacidade de foco pode ser treinada novamente
Apesar dos efeitos observados, a capacidade de atenção não está perdida de forma permanente. A psicóloga Giana Bitencourt Frizzo, professora do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e membro da Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP), explica que o cérebro responde às mudanças de hábito ao longo da vida.
“A atenção sustentada pode ser recuperada com intervenções, embora não seja um processo simples”, diz.
Segundo ela, a capacidade de manter o foco é desenvolvida desde a infância e depende de prática. Crianças que se acostumam a alternar rapidamente entre conteúdos tendem a ter mais dificuldade para sustentar a atenção em atividades mais longas, como leitura ou tarefas escolares. Esse mesmo mecanismo pode se repetir na vida adulta.
“Quando a pessoa se habitua a estímulos muito rápidos, ela passa a ter mais dificuldade de ficar concentrada em uma única tarefa por mais tempo”, explica.
A reversão desse quadro é possível, mas exige mudanças consistentes na rotina. E, segundo a psicóloga, não se trata apenas de reduzir o tempo de tela. “Não basta retirar o celular. É preciso preencher esse tempo com outras atividades”, ressalta.
Entre as estratégias apontadas estão a prática regular de atividade física, a criação de momentos do dia sem uso de telas e a reorganização de hábitos cotidianos. Situações simples, como evitar o celular durante as refeições ou antes de dormir, já fazem diferença.
A chamada higiene do sono aparece como um dos pontos centrais. O uso do celular à noite mantém o cérebro em estado de alerta e dificulta o relaxamento necessário para o descanso. Além disso, a recomendação é incluir atividades que estimulem a atenção por mais tempo, como leitura, esportes ou interações presenciais. A ideia é substituir parte dos estímulos rápidos por experiências que exigem maior envolvimento.
Sem essa troca, a tendência é manter o mesmo comportamento. Por isso, a mudança passa não só por reduzir o uso, mas por reorganizar a rotina.
Caminhos práticos para recuperar o foco
Os especialistas também apontam medidas que podem ser incorporadas no dia a dia. Uma delas é criar barreiras físicas para o uso do celular, como deixá-lo em outro ambiente durante tarefas que exigem concentração.
Outra estratégia é reduzir estímulos, desativando notificações não essenciais. Também é recomendado organizar períodos de trabalho em blocos de monotarefa, com pausas curtas entre eles. “A recuperação do foco envolve mudanças no ambiente e no comportamento”, afirma Maria Clotilde.
Treinar a tolerância ao tédio também faz parte do processo. Evitar recorrer ao celular em momentos de espera ajuda o cérebro a se readaptar a ritmos menos acelerados.
Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Ravenna Alves.




