O primeiro sinal de que estava disposto a valer-se da força bruta para se manter no poder foi dado por Jair Bolsonaro no dia de sua posse como presidente da República. Diante da multidão reunida na Praça dos Três Poderes, em Brasília, ele reiterou o compromisso de garantir o acesso dos “brasileiros de bem” à compra e ao porte de armas. Na sequência, disse que aquele momento indicava claramente que o povo “começou a se libertar do socialismo, da inversão de valores, do gigantismo estatal e do politicamente correto”.
O segundo sinal foi dado por ele ao desembarcar em Washington, no dia 17 de março de 2019, para reunir-se pela primeira vez com o presidente Donald Trump. Num jantar com lideranças conservadoras americanas na Embaixada do Brasil, Bolsonaro afirmou que o sentido de seu governo não seria o de construir coisas para o povo, mas o de desconstruir, explicando o porquê:
Entre no canal de WhatsApp
do Metrópoles
— “Além das Forças Armadas, defendo o armamento individual para o nosso povo, para que tentações não passem na cabeça de governantes para assumir o poder de forma absoluta. […] Confiando no povo, confiando nas Forças Armadas, esse mal cada vez mais se afasta de nós.”
Dali em diante, foi o que se viu: ataques cada vez mais virulentos ao Supremo Tribunal Federal, pressão sobre o Congresso para que restabelecesse o voto impresso e um empenho contínuo em desacreditar o processo eleitoral. Tudo culminou com a recusa em transferir a faixa presidencial para Lula, que o derrotou em 2022, e com a tentativa fracassada de golpe de Estado que o levou a se tornar inelegível e a ser condenado a uma pena de 27 anos e três meses de prisão em regime fechado. Seu filho Flávio promete libertá-lo caso se eleja presidente.
Nos quatro anos de governo — ou de desgoverno —, Bolsonaro aproveitou todas as datas cívicas, como a Festa da Independência que hoje se comemora, para aumentar o tom golpista de suas falas. No 7 de setembro de 2021, por exemplo, ele fez dois discursos inflamados para milhares de apoiadores: o primeiro na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, e o segundo na Avenida Paulista, em São Paulo. O segundo foi o que mais repercutiu. Depois de chamar o ministro Alexandre de Moraes, do STF, de “canalha”, ele anunciou:
— “[Eu quero] dizer a vocês que qualquer decisão do senhor Alexandre de Moraes, esse presidente não mais cumprirá.”
O comportamento de Bolsonaro no Bicentenário da Independência, em 7 de setembro de 2022, teve um peso decisivo na sua condenação à inelegibilidade. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) entendeu que ele utilizou a estrutura, o palanque oficial e a visibilidade da celebração custeada com dinheiro público para promover sua candidatura à reeleição. A transição imediata do desfile no Rio para um trio elétrico posicionado a poucos metros da solenidade oficial foi apontada como uma estratégia deliberada de fusão dos eventos.
Foi em maio de 2018, antes de se eleger presidente, que Bolsonaro, pela primeira vez, declarou-se “imbrochável”. Agora, em prisão domiciliar, oito anos mais velho, depende do filho para voltar a ser.
Acesse todas as colunas do Blog do Noblat no Metrópoles
Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Ricardo Noblat.




